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Ponto
de vista: Lya
Luft Uma Páscoa particular Minha
Páscoa mais recente foi deixar a casa na qual vivi por mais de trinta anos.
Aprendi que vivemos em ciclos, que os melhores ciclos se encerram e, se foram
bons, acabam com doçura, permitindo que novos se abram com alegria
Tenho escrito sobre os chamados eventos ou dias especiais
com intencional atraso. Uma reflexão tardia, não importa. Gostinho
de transgredir meio infantilmente, entrando na ciranda geral com descompasso.
A Páscoa me fez pensar com mais força
no constante renascimento de todas as coisas: plantas, clima, gentes, momentos.
Tudo é processo, que a maioria das vezes não percebemos: estamos
ocupados demais perseguindo o poder, o prazer sem afeto, a posse, a distração
e o esquecimento. Mas a vida corre atrás de nós, é mais rápida,
nos alcança, fareja nossos calcanhares, sacode a cabeça, dá
sua risadinha muitas vezes irônica:
Ei, você, acorde, vire homem, cresça e apareça, seja adulto,
seja adulta, seja uma pessoa inteira. Escolha, assine embaixo, pague os preços
e não choramingue demais. (Que um pouco, é claro, a gente tem licença
de se queixar, sem fazer disso um ofício.)
Ilustração
Atômica Studio
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Mesmo
para quem não tem vivência religiosa institucional, a Páscoa
pode lembrar a constante renovação à nossa volta. Que significa
oportunidade de escolha, bela e assustadora. A liberdade é assustadora
por ser inquietante. Jovens, nós a buscamos como a grande utopia. Eventualmente
aprendemos que mais cômodo seria nem ter de optar. Mas aí seríamos
pedra, bicho ou planta e somos humanos. Anjos montados em porcos, já
escrevi aqui, segundo Tomás de Aquino. O anjo quer levitar, o porco refocila
na mediocridade e na mesmice. Uma boa combinação de ambos daria
uma pessoa interessante. Que raridade.
Minha Páscoa
mais recente foi deixar a casa na qual vivi por mais de trinta anos. O espanto
me acompanhou como um coro grego e trágico:
Você está doida, não vai agüentar, vai se arrepender,
a sua casa, o seu passado, as árvores que você mesma plantou, seu
chão... Não sou uma macieira, uma
figueira com raízes irredutíveis aí seria ficar ou
morrer. Aprendi que vivemos em ciclos, que os melhores ciclos se encerram e, se
foram bons, acabam com doçura, permitindo que novos se abram com alegria.
Se foram amargos, deixam um sabor igual. O ciclo da antiga casa foi longo e bom,
nem sempre tranqüilo: ali fui feliz, infeliz, animada ou reflexiva, para
lá levei filhos pequenos, ali nasceram novas crianças da família.
No seu aconchego reinaram beleza e ternura, enfermidade e morte, inquietação,
afeto e entendimento, todas as vicissitudes humanas. Ultimamente ela me dava secretos
sinais de estar-se fechando seu tempo, ao menos para mim.
Se fosse para chorar perdas, eu deveria ficar onde estava até o fim dos
tempos, do meu tempo. Por terem sido boas, a vida e a casa me permitiram mudar
com susto, mas com entusiasmo. Quem nela morar agora terá, se for capaz
de perceber, um clima amoroso para respirar, um ar vital, sem arrependimentos
nem queixas. Eu, não longe dali, contemplo uma paisagem vasta e tranqüila,
cada manhã um segredo se exibindo ao meu olhar curioso.
Minha Páscoa pessoal: que, neste novo lugar de meus amores, os que me visitam,
ainda que através de meus textos, possam saborear os ensinamentos silenciosos
que a natureza me oferece todas as manhãs, quando abro as cortinas e ela
me envia sinais da transformação que é a nossa marca. Nunca
fui boa aluna, nem aprendo com facilidade, mas estou atenta e aberta. Um dia eu
aprendo. Lya Luft é escritora
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