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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sartre, aos 100 anos
Nenhum intelectual
foi tão falado,
tão admirado e influente; poucos
eclipsaram-se tão rápido
Comemora-se neste ano o centenário de
nascimento de Jean-Paul Sartre. A efeméride tem sido lembrada
um pouco por toda parte. Publicam-se artigos na imprensa, programam-se
conferências nas universidades. Na França, claro, sedia-se
o núcleo duro das comemorações. A Biblioteca
Nacional Francesa inaugurou uma grande exposição com
fotos, cartas e manuscritos do filósofo, romancista e dramaturgo.
Sabe-se lá, mas... é de desconfiar que se está
celebrando um autor que ninguém mais lê. Como pode?
Sartre, para as diversas gerações que tomaram consciência
de si mesmas mais ou menos entre 1940 e 1970, era tão vital,
tão central... Hoje, parece a Minas Gerais do poeta Carlos
Drummond de Andrade: apenas um retrato na parede.
Façamos alguns descontos. Quem estuda
filosofia ainda lê Sartre. Quem estuda literatura francesa
ainda cruza com um texto dele. Mas isso é pouco, e é
tudo o que ele não quis ser. Ei-lo, a ele, um intelectual
"público" por excelência, que, tanto quanto pensar
e criar, elegeu por dever de ofício intervir e influenciar,
reduzido aos guetos dos especialistas. Sartre? Aos menores de 30
anos esse é o nome de um estranho. Também não
serve de consolo que de vez em quando alguém cite uma frase
dele, sendo "O inferno são os outros" a preferida. Continua
pouco. Sartre? Não seria um pintor renascentista? Não,
este é Sarto, Andrea del Sarto. Ah, então é
um jogador de futebol argentino. Não, este é Sastre.
Só uns poucos, na verdade, se aventurariam
pela leitura de O Ser e o Nada, a obra filosófica
capital de Sartre, e dos poucos que se aventurariam menos ainda
sairiam ilesos dela. Mas havia as novelas, como O Muro, e
a saga meio autobiográfica da trilogia Os Caminhos da
Liberdade. Na contracapa da edição brasileira,
o editor advertia: "Sartre é um escritor lúcido e
sincero, e por isso mesmo inquietante e inconveniente. Um escritor
para homens sem consciência de rebanho". Mas, na verdade,
não é esse o ponto. Não é que todo mundo
lia Sartre. Fenômeno mesmo era que, mesmo quem não
o lia, impregnava-se dele. Ele encarnava a consciência do
tempo e a vanguarda do comportamento.
Basta recordar a relação com
Simone de Beauvoir, com quem formava o mais famoso casal de escritores
do mundo, apesar de não se constituir bem num casal. Ou melhor:
era bem mais que um mero casal. Cada um conservava o direito de
entreter outros amores. Ao mesmo tempo, a fidelidade entre ambos,
até o fim da vida, foi visceral. Os outros amores, para Sartre,
eram contingentes. Simone era necessária. O
casal não-casal a alguns se afigurava tão chocante
(para delícia de Sartre e Simone, que queriam isso mesmo)
quanto a outros provocava inveja pelo que tinha de corajoso e libertário
(também para delícia de Sartre e Simone). Hoje não
choca nem provoca inveja. Alguém que queira fazer alarde
de estilo de vida semelhante será tido apenas como cansativo.
As bravatas eram parte integrante do show
sartriano. Em 1964 ele esnobou a Academia Sueca e recusou o Prêmio
Nobel de Literatura. Considerou que aceitá-lo seria compactuar
com os valores burgueses. Hoje em dia ganhar a honraria do Nobel
e o bom dinheiro que vem junto é aplicar um tapa de luvas
de pelica na face da burguesia, para quem honraria é figurar
nas revistas ditas de "celebridades" e dinheiro bom é o que
se ganha na bolsa. Muito antes disso, como admirado geniozinho da
École Normale Supérieure, a celebrada Normale Sup,
ele se distinguia por não tomar banho. Não tomar banho
equivalia a ato de contestação no tempo em que os
animais falavam e os homossexuais, em vez de braço de halterofilista,
cultivavam munhecas frouxas.
Sartre foi do existencialismo ao maoísmo
e arrastou, com ele, as mentes mais agudas e os corações
mais sensíveis. Seu existencialismo, assentado no postulado
filosófico de que "a existência precede a essência",
naturalmente era de compreensão restrita. Mas, pela rama,
dava para entender que, se a vida é absurda, melhor é
curti-la, e assim todo mundo queria ser existencialista. O filósofo
entregou-se ao maoísmo na última etapa da vida. Coerente,
sempre, em viver cada opção doutrinária,
foi vender na rua jornal afinado com o novo credo. Pôs-se
assim, ele, o grande libertário, a serviço de um dos
grandes tiranos do século XX, mas quem sabia disso? Ou melhor:
quem queria saber? Ninguém queria saber, ele inclusive.
Será que existia intelectual antes
dele? Sartre tanto era o intelectual que até parece
ter inventado a categoria. Vá lá: intelectual já
existia. Mas intelectual "engajado", como era de rigor, isso não
houve como ele, nem antes nem depois. Era um pensador profundo,
mas, ao mesmo tempo, um personagem pop. Aos 100 anos de seu nascimento,
e 25 de sua morte, difícil é dizer o que é
mais espantoso, se o fato de ele ter marcado tão profundamente
os modos de vida, os modelos de pensamento e as crenças políticas
ou o fato de, tão rapidamente, ter deixado de fazê-lo.
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