Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Um adeus com dor

O terceiro pontificado mais longo de todos os tempos chegou a seu término com uma exposição pública de dor jamais vista na história da Igreja Católica. Houve um sentido nisso. Paralisado e silenciado pela doença de Parkinson, João Paulo II transubstanciou seu calvário particular numa mensagem universal: a de que não existe redenção sem sofrimento. É a mensagem ao mesmo tempo bela e terrível sobre a qual, afinal de contas, se alicerça o cristianismo. Como forma de recuperá-la numa era marcada pelo hedonismo, João Paulo II carregou sua cruz diante dos olhos do mundo. Pode-se não concordar com tudo o que o papa polonês pregou e defendeu. Mas é impossível não admirá-lo pela sua coragem na saúde e na doença. Na vida e na morte.


Mario Sabino

 
Fotos Max Rossi/Reuters

"Por esta santa unção e por sua misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo, para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve, e, na Sua bondade, alivie os teus sofrimentos"
Unção dos enfermos, ministrada ao papa na quinta-feira

"Vinde, ó Deus, em meu auxílio. Socorrei-me sem demora. Que minha prece feita a Ti se eleve como incenso, minhas mãos como oferta vespertina. Senhor, eu Te clamo. Vem, vem a mim, escuta a minha prece quando clamo a Ti. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia."
Salmo da Liturgia das Horas, que o papa pediu que lhe fosse lido
no dia 1º de abril

O mundo parou para acompanhar a agonia de João Paulo II na sexta-feira passada. Cinco semanas antes, ele havia sido submetido a uma traqueostomia, a única solução encontrada pelos médicos para contornar a insuficiência respiratória do papa de 84 anos. Com uma cânula que levava o ar diretamente para seus pulmões, ele esboçou uma leve recuperação. Mas as dificuldades só fizeram aumentar dali por diante. O papa já não conseguia andar, falar nem mastigar, com a maior parte de seus músculos internos enrijecida pelo Parkinson. Sem poder comer, e com 19 quilos a menos, João Paulo II passou a alimentar-se por meio de uma sonda nasogástrica. Na quinta-feira 31, profundamente debilitado, ele foi acometido por uma infecção urinária que não demoraria a evoluir para um quadro de septicemia. Na madrugada de sexta-feira, o papa teve uma parada cardíaca. Antes disso, deu a entender que não queria ser transferido para o Hospital Gemelli e recebeu a unção dos enfermos. Ao longo do dia, seus rins pararam de funcionar e sua respiração tornou-se ainda mais ofegante, agônica. Médicos e cardeais perderam a esperança.

 
Max Rossi/Reuters
Vigília para o papa em agonia: em 1º de abril, fiéis se reúnem na Praça de São Pedro, no Vaticano, para rezar por João Paulo II

Sua última aparição pública ocorreu na quarta-feira 30. O papa assomou à janela de seu apartamento para saudar a multidão de fiéis que o chamava com insistência, da Praça de São Pedro. João Paulo II tentou pronunciar algumas palavras, mas uma expressão de dor e desalento logo se estampou em seu rosto. Ele benzeu a multidão com um sinal-da-cruz, e as cortinas da janela se fecharam. Foi o derradeiro ato de um espetáculo de dor digno dos grandes pastores de almas e que recuperou o significado original do sacrifício cristão. Um fim bem diferente do de Pio XII, o pontífice que precedeu a abertura proporcionada pelo Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII e concluído por Paulo VI – dos quais, aliás, o polonês Karol Wojtyla tomou seu nome papal (veja quadro). Pio XII morreu em 9 de outubro de 1958, na residência de verão de Castelgandolfo, nos arredores de Roma, depois de uma semana de doença. Como descreve o vaticanista italiano Giancarlo Zizola, a morte de Pio XII foi "solitária, cruelmente monárquica, trombeteada por manchetes de jornais romanos antes mesmo que tivesse ocorrido e com fotos de sua agonia feitas traiçoeiramente por seu médico".

 
Alik Keplicz/AP
Missa numa igreja de Varsóvia, em 1º de abril: poloneses oram pela recuperação de seu filho mais ilustre, o primeiro papa não italiano em 455 anos

À morte de um papa segue-se um ritual prolongado. Depois que os médicos atestam o falecimento, o cardeal camerlengo (no caso, o espanhol Eduardo Martínez Somalo), encarregado de governar interinamente a Igreja até que um novo pontífice seja eleito, entra no quarto do papa, vestido de violeta, em sinal de luto. O camerlengo é escoltado por um destacamento da Guarda Suíça, que simboliza a autoridade que lhe foi recém-conferida. Para confirmar que o papa já não mais vive, ele bate três vezes no seu rosto, com um pequeno martelo de prata, enquanto o chama pelo nome de batismo. Morte confirmada, é declarada a Sé Vacante, período no qual a Igreja será dirigida em seu dia-a-dia pelo camerlengo e por mais três cardeais, aos quais sucederão outros três depois de três dias, e assim por diante, até que o conclave eleja um novo papa. As questões mais importantes ficam a cargo do Colégio Cardinalício, composto por todos os cardeais eleitores da Igreja.  

 

Emilio Morenatti/AP
No Cenáculo, onde Jesus realizou a última ceia, em Jerusalém: cardeais, bispos e arcebispos, italianos e espanhóis em sua maioria, rezam pela saúde de João Paulo II, em 1º de abril

O camerlengo é encarregado de lacrar o escritório e o apartamento do papa e de comunicar a outros prelados o seu falecimento. Segundo a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II em 1996, que trata da vacância da Sé Apostólica e da eleição do pontífice, as exéquias devem durar nove dias consecutivos. O conclave, que tem lugar na Capela Sistina, começa quinze dias depois da morte do papa. Do próximo participarão 117 cardeais (aqueles com mais de 80 anos perdem o direito a voto). A lei prevê que, até que um nome seja escolhido, aconteçam quatro escrutínios secretos por dia – dois de manhã e dois à tarde. Se, depois de três dias, não se chegar a um nome que tenha obtido dois terços dos votos, o conclave é interrompido por um dia, para orações e conversas. Após essa pausa, são feitas três séries de sete escrutínios, a intervalos de 24 horas. Caso nem assim seja eleito um novo papa, os cardeais poderão optar pelo sistema de maioria simples, escolhendo entre os dois candidatos mais votados até então, ou partir para um terceiro nome. Até a promulgação da Universi Dominici Gregis, era preciso que a implantação da maioria simples tivesse a concordância unânime dos cardeais. Mas a constituição mudou isso: basta que metade deles concorde para que o sistema passe a vigorar. Com isso, na hipótese de um conclave difícil, prevalecerá o grupo de cardeais mais articulado. No que se refere à sucessão de João Paulo II, esse grupo deverá ser o dos italianos, que desejam retomar o Trono de Pedro depois de 26 anos de pontificado de um polonês.

 

Peter Muhly/AFP
Na Igreja de São Paulo, em Belfast, na Irlanda do Norte, em 1º de abril: católica acende vela para João Paulo II

Durante todo o período do conclave, os cardeais eleitores ficam sem nenhum contato com o mundo exterior. Até a assembléia que elegeu João Paulo II, em 1978, eles eram obrigados a acampar nas salas ao lado da Capela Sistina. Em 1993, um edifício situado a oeste da cidade do Vaticano, o Ospizio Santa Marta, começou a ser reformado para abrigar os eleitores do conclave. O prédio ganhou 120 quartos modernos. Para sair de lá e chegar à Sistina, há duas maneiras: pegar um ônibus especial que circunda por trás a Basílica de São Pedro ou utilizar um corredor que liga o Ospizio Santa Marta à capela com os magníficos afrescos de Michelangelo. Os vaticanistas acreditam que não demorará para que o novo papa seja escolhido, visto que não parece haver dissensões profundas entre os cardeais. Dos 117 eleitores, 114 foram nomeados por João Paulo II. O papa que definhou em praça pública moldou a Igreja a sua imagem e semelhança.

 
Pier Paolo Cito/AP
O cardeal Camillo Ruini celebra missa em prol da saúde de João Paulo II (acima) e foto dele na Praça São Pedro, no Vaticano
James Hill/The New York Times

 

 

O simbolismo de um nome

AP
Paulo VI: homenagens

Logo depois de eleito, todo papa anuncia o nome pelo qual será chamado durante seu pontificado. Trata-se de uma escolha pessoal, mas não aleatória. "Em geral, o nome indica uma tendência do pontificado", explica dom Benedito Beni dos Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Ao optar por chamar-se João Paulo II, o polonês Karol Wojtyla homenageou seus três antecessores imediatos e expressou um desejo de continuidade na condução da Igreja.

A mudança de nome dos papas tem raízes no Evangelho. Jesus sagrou o apóstolo Simão como Pedro, dizendo que ele seria a pedra sobre a qual se ergueria a Igreja. Embora muitos papas tenham assumido nomes de apóstolos (João é o nome mais recorrente na história, com 23 papas), ainda não apareceu um Pedro II. Repetir o nome do pai da Igreja seria faltar com a humildade. Há outros nomes virtualmente "proibidos". É improvável, por exemplo, que hoje um papa venha a se intitular Alexandre, nome que evoca a memória de Alexandre VI, o nepotista e dissoluto pontífice da família Bórgia que governou entre 1492 e 1503.

Às vezes, porém, um papa parece desafiar a história: João XXIII não fez caso do fato de haver existido antes dele um antipapa (um falso postulante ao pontificado) com esse mesmo nome. Papa reformador, que convocou o Concílio Vaticano II, ele manifestou com essa escolha sua devoção a São João Evangelista, mas ao mesmo tempo deu uma sutil demonstração de independência. João XXIII morreu em 1963. O sucessor eleito foi o primeiro desde o século XVII a se chamar Paulo. Assim como São Paulo, no século I, expandiu o cristianismo para além do mundo judaico, Paulo VI pretendia ampliar o alcance da fé católica. Com sua morte, em 1978, surgiu o primeiro papa da história a ter um nome composto. João Paulo I sinalizava o desejo de seguir o caminho de reformas cautelosas de seus dois antecessores – caminho que seria consolidado por João Paulo II (mas com cautela até exagerada, segundo seus críticos). Na atual conjuntura política do Vaticano, há boas chances de que a continuidade prevaleça. Não será surpresa se o próximo papa se proclamar João Paulo III.

 
 
 
 
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