Edição 1899 . 6 de abril de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

10 nohtas promissórias

I. Semana passada falei, de passagem, sobre nosso velho companheiro de banco escolar, o pi. Disse que era 3,1416. Na época se chamava dízima periódica, ou infinita, acho. Centenas de leitores (pra ser exato, seis, ou melhor, dois) me corrigiram. O pi não é mais 3,1416, cálculos mais atuais provam que é 3,141592653.

Está bem, está bem, eu sei que não é mais 3,1416. Ou quantos algarismos mais vocês quiserem acrescentar a essa dízima. Calculando melhor – pi é igual a 3,1415927 mais ou menos 0,000000005.

Mas ainda não é bem isso. Tem maluco pra tudo e a matemática é o ninho preferido. Acho até que sem loucura não há matemática. O teorema de Fermat, proposto há 300 anos, aparentemente sem solução, até hoje continua com maluquetes gastando a vida atrás dela, solução. Que é sempre genial, mesmo quando não definitiva.

Quanto ao pi, vou ao admirável livro de David Blatner, The Joy of Pi. O último cálculo, feito por Yoshiaki Tamura, do Latitude Observatory de Tóquio, e Yasumasa Kanada, da Universidade de Tóquio, usando o algoritmo de Salamin (?) e o supercomputador Hitac
M-280H, registra 51 bilhões de dígitos.

Claro, quando você chega a essa conclusão, tem de contar tudo de novo para verificar se está certo.

II. Não adianta, sempre resta uma hierarquia e uma divisão de classes, mesmo entre os que levam uma vida de cachorro.

III. AUT CÉSAR aut nihil
A covardia do heroísmo com que vence
A gravidade do riso que deflagra
A prodigalidade com o que não lhe pertence
E a gordura que todos dizem magra

O versículo acima, de nossa lavra, é intitulado com a divisa de César Bórgia – que qualquer universitário do Silvio Santos conhece. "Ou César ou nada" é a tradução. Áulicos também traduzem como "Ou Lula ou nada". Mas os eruditos divergem. Se você conhece alguma história verá que os eruditos só fazem isso na vida – divergir.

O bar de César Bórgia era o quente da época. Freqüentado por Savonarola, Maquiavel, Miguel Ângelo, Leonardo, tudo gente fina, todos mais ou menos sábios. Por isso sempre tomando um certo cuidado com os drinques servidos pela encantadora Lucrécia.

IV. É por isso que eu digo: a abstinência é uma anormalidade que só se admite com muita sobriedade.

V. E igualmente, segundo testemunhas idôneas (a internet é testemunha idônea?), em Brasília, cada vez há mais pára-choques de caminhão aconselhando:
SE BEBER DISCURSE COM MODERAÇÃO.

VI. E eu que nunca fui convidado a jantar pelo cético e pela circunspecta, praquelas festas infindáveis que eles dão no porão do forte abandonado, no oitavo
dia da semana?

VII. Uma roubalheira sem precedentes é apenas mais uma roubalheira antes de uma roubalheira maior também sem precedentes.

VIII. Valeram a pena os anos de estudo? De químico-física me ficaram apenas três princípios:
• "O homem se liquefaz na medida do que bebe",
• "Um corpo, mergulhado numa banheira hidráulica cheia de espuma, sofre um impulso erótico de baixo
para cima proporcional à gata por ele convocada", e
• "A alquimia nunca transa com o ao quilate".  

IX. A roda da bicicleta em movimento é um teorema euclidiano que adquiriu autonomia.  

X. Dizendo que no ano 2000 todo mundo ia ter 15 minutos de fama, Andy Warhol conseguiu fama permanente.

 
 
 
 
topovoltar