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Diogo
Mainardi
Quero ser imortal
"A idéia da morte podia ser encarada
com uma
certa filosofia até pouco tempo atrás. Agora
já não pode mais. Os cientistas prometeram
descobrir a cura, em cinco ou dez anos, para
males que hoje são considerados incuráveis.
A expectativa que eles geraram foi alta demais"
Não. Não aceito
morrer. A idéia da morte podia ser encarada com uma certa
filosofia até pouco tempo atrás. Agora já não
pode mais. Os cientistas fizeram um trato conosco. Prometeram descobrir
a cura, em cinco ou dez anos, para males que hoje são considerados
incuráveis. Em troca, pediram somente uma montanha de dinheiro
para financiar suas pesquisas, além de plena liberdade para
retalhar alguns embriões. Nós lhes demos ambos. Se
os cientistas não cumprirem sua parte, haverá um revertério
danado. A expectativa que eles geraram foi alta demais. A humanidade
será tomada por uma assustadora onda de irracionalismo. Começando
por mim. Pretendo invadir laboratórios e quebrar tudo o que
encontrar pela frente.
A questão é que
muitos doentes não podem esperar cinco ou dez anos pela cura.
A internet é o território deles. Trocam o tempo todo
informações sobre os avanços médicos.
Os parkinsonianos comemoram a pesquisa israelense que curou ratos
parkinsonianos com células-tronco embrionárias. Os
paraplégicos examinam a pesquisa americana que curou ratos
paraplégicos com células-tronco embrionárias.
Os infartados debatem sobre a pesquisa australiana que criou tecido
cardíaco com células-tronco embrionárias. Se
a gente fosse rato, muito já estaria resolvido. Como a gente
não é, milhões de doentes incuráveis
são obrigados a viver num angustiante limbo científico.
Eles não sabem se serão os primeiros beneficiários
de novas terapias, ou os últimos a morrer. Os mais desesperados
recorrem a clínicas particulares que oferecem terapias milagrosas
com células-tronco embrionárias, em lugares suspeitos
como Barbados e México. Outros procuram se candidatar para
testes clínicos em países onde a pesquisa está
mais adiantada, como China ou Coréia do Sul. A internet é
o maior centro que existe para a arregimentação de
cobaias humanas.
As células-tronco embrionárias
concentram o interesse dos cientistas e dos doentes, mas não
são o único campo de pesquisa da atualidade. O doutor
Huang, de Pequim, alega ter desenvolvido um método inovador
para o tratamento da esclerose lateral amiotrófica. Por 25.000
dólares, ele corta o nariz de um feto abortado, arranca-lhe
o bulbo olfativo, cultiva em laboratório cerca de 1 milhão
de células nervosas de sua mucosa, e as aplica no lobo frontal
de seus pacientes. O método do doutor Huang não tem
comprovação científica. Não importa.
Sempre há novos pacientes à sua porta. A neozelandesa
Willie Terpstra, por exemplo, foi operada por ele duas semanas atrás.
Agora nós, internautas, podemos acompanhar cada etapa de
sua reabilitação num blogue, praticamente em tempo
real. Ela afirma que está falando e ingerindo melhor. Afirma
também que um belga operado depois dela conseguiu dar os
primeiros passos em dois anos. Não há leitura melhor,
no momento. Se os relatos de peregrinação religiosa
caracterizaram a literatura medieval, meu palpite é que os
blogues de peregrinação médica irão
caracterizar a literatura deste século. Quem sabe um dia
pode até aparecer um outro Chaucer. Quem sabe.
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