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Entrevista: Jeffrey
Sachs
A cura da pobreza
O economista americano diz que,
com a ajuda dos países ricos, é
possível erradicar a miséria do
mundo em duas décadas

José Eduardo Barella
O economista americano Jeffrey
Sachs, de 50 anos, ganhou fama como consultor de países em
desenvolvimento dispostos a adotar, sob sua supervisão, ajustes
duríssimos para ingressar na economia de mercado. Nos anos
80, Sachs ajudou a Bolívia a domar uma hiperinflação
de 25.000% e, no início da década seguinte, a Polônia
e a Rússia a realizar a difícil transição
para o capitalismo. Nos últimos dez anos, Sachs encarou um
desafio ainda mais complexo: o de encontrar uma fórmula para
eliminar a miséria do mundo. O resultado dessa busca pode
ser encontrado em O Fim da Pobreza, seu estudo de 3.000 páginas
divulgado no início do ano. O documento, que faz parte de
um programa das Nações Unidas, Metas de Desenvolvimento
para o Milênio, do qual Sachs é o diretor, detalha
uma série de medidas ambiciosas para erradicar a pobreza
absoluta até 2025. O plano se apóia na ajuda dos países
ricos, que precisariam contribuir com 150 bilhões de dólares
por ano, e na premissa de que os recursos não sejam desviados
por governantes corruptos nos países necessitados. Na semana
passada, de Nova York, onde vive, Sachs concedeu a VEJA a seguinte
entrevista.
Veja Sua missão
é ajudar o mundo a acabar de vez com a pobreza. Não
é uma luta um tanto quanto quixotesca?
Sachs Acho totalmente viável erradicar a pobreza,
pelo menos em sua forma mais extrema. Ela atinge hoje 1,1 bilhão
de pessoas, metade delas na África. São pessoas que
vivem com uma renda inferior a 1 dólar por dia sob condições
precárias, sofrem de fome crônica e não têm
acesso a água potável, assistência médica,
educação nem sequer a um par de sapatos. As Nações
Unidas têm o objetivo de erradicar a miséria até
2025, ou seja, em vinte anos.
Veja Como isso
será feito?
Sachs O segredo é realizar investimentos em
grande escala nas regiões mais pobres, onde milhares de pessoas
sofrem com a falta de controle de doenças, infra-estrutura
sanitária precária, baixa produção de
alimentos e isolamento geográfico. Precisamos aplicar um
método que chamo de "economia clínica". Ele mescla
medidas para incentivar o desenvolvimento econômico com tratamentos
tradicionais da saúde para prevenir doenças que estão
devastando vários países da África, como a
aids. Algumas das propostas são simples, como o incentivo
ao aleitamento materno. Outras exigem recursos a longo prazo, como
o apoio à pesquisa tecnológica. O investimento em
saúde não pode esperar. Sem uma população
saudável, país nenhum consegue ter crescimento econômico.
Veja Quanto
seria necessário investir?
Sachs Pelo menos 150 bilhões de dólares
por ano, a ser doados pelos países ricos até 2025.
É preciso aplicar bem esses recursos. No caso da África,
onde a situação é mais crítica, os líderes
políticos estão sendo encorajados a pensar de forma
realista sobre a extensão da crise. Até agora, esses
governos eram advertidos pelos países ricos para não
ser ambiciosos no pedido de ajuda. Estamos dizendo o contrário:
é preciso, sim, pensar grande nas medidas necessárias
para erradicar a miséria de todas as comunidades. Defendo
que os países pobres pressionem os ricos por mais auxílio.
O primeiro passo é ensinar os países pobres a planejar
a maneira de usar o dinheiro doado. Isso é mais importante
do que simplesmente abrir a carteira.
Veja Quais são
os países mais generosos com os pobres?
Sachs Embora os meios estejam disponíveis,
os países ricos não se têm mostrado interessados
em agir rapidamente. Em 2002, eles concordaram em destinar 0,7%
do produto interno bruto de cada um para programas humanitários.
Apenas cinco cumpriram o prometido: Suécia, Noruega, Dinamarca,
Holanda e Luxemburgo. A boa notícia é que outros seis
países anunciaram recentemente um cronograma para se adequar
à meta: França, Inglaterra, Espanha, Bélgica,
Irlanda e Finlândia. Essas onze nações representam
metade do grupo dos países ricos. Os Estados Unidos, infelizmente,
continuam de fora. Enquanto uma potência econômica como
os Estados Unidos não se engajar na redução
da pobreza, nada vai mudar para a população dos países
miseráveis.
Veja Por que
os Estados Unidos, que no passado financiaram o Plano Marshall,
hoje destinam uma parte pequena de sua riqueza à ajuda internacional?
Sachs Em parte porque deram milhões de dólares
em ajuda a governos corruptos que os apoiavam na Guerra Fria. Com
isso, "ajuda externa" tornou-se um palavrão em Washington.
O povo americano acredita que seu país dá 5% do PIB
em ajuda internacional, quando o valor correto é de apenas
0,15% do PIB ou 16 bilhões de dólares por ano.
É uma ninharia se comparado ao orçamento militar anual
dos Estados Unidos, de 500 bilhões de dólares. Seria
fundamental que a comunidade internacional explicasse ao presidente
George W. Bush que sua política de gastar mais dinheiro com
armas do que em ajuda aos países pobres não traz segurança
aos Estados Unidos.
Veja Expandir
a democracia e a liberdade no mundo, como prega Bush, ajudaria a
reduzir a pobreza e a fomentar o desenvolvimento?
Sachs O presidente Bush costuma dizer 100 vezes a
palavra liberdade antes de mencionar uma única vez a palavra
pobreza. A ironia é que existe muita gente vivendo sob liberdade
política em países pobres, mas que está morrendo
de fome. Isso não torna essas pessoas mais livres nem serve
de fator de estabilidade política de nação
alguma. Sob pobreza extrema, a democracia se torna frágil
e costuma ruir. Por isso, considero equivocada a ideologia de Bush.
O conceito de liberdade precisa incluir o incentivo ao desenvolvimento
e à luta contra a miséria.
Veja Perdoar
a dívida externa dos países mais pobres não
seria mais eficiente do que dar dinheiro?
Sachs O pagamento dos serviços da dívida
da maioria dos países pobres é um dos principais fatores
para a falta de dinheiro que eles enfrentam. O perdão à
dívida é uma medida necessária e já
vem ocorrendo em vários países. O problema é
que só isso não basta. Várias nações
da África, por exemplo, precisam de um aumento urgente de
ajuda financeira. E o volume de dinheiro de que esses países
necessitam é superior ao que deixariam de pagar aos credores.
Veja Como assegurar
aos países ricos que a ajuda financeira não vai acabar
no bolso de líderes políticos corruptos?
Sachs É importante deixar claro que essa estratégia
não significa assinar um cheque em branco para esses países.
A liberação de ajuda financeira deve ser condicionada
a projetos detalhados de desenvolvimento nacional, monitorados por
organismos internacionais. A ajuda jamais será dada a governantes
corruptos. Há países com planos sérios, bem
estruturados, que ainda não obtiveram acesso aos recursos
porque as nações ricas desconfiam de suas intenções
e não cumprem sua parte.
Veja O senhor
poderia citar exemplos de países que souberam usar bem esses
recursos?
Sachs A maioria dos países que tiveram acesso
a ajuda financeira nas últimas décadas conseguiu usá-la
de maneira eficiente. A ajuda recebida pela China foi decisiva para
seu desenvolvimento econômico, embora o montante em recursos
não tenha sido elevado. O mesmo ocorreu com a Coréia
do Sul. Taiwan também recebeu ajuda dos Estados Unidos no
período inicial de sua industrialização. Toda
vez que os investimentos são feitos sob supervisão,
os benefícios aparecem. O sucesso do Plano Marshall na reconstrução
da Europa no pós-guerra é indiscutível. As
campanhas de erradicação da varíola na África
também foram bem-sucedidas. O problema é que não
temos investido dinheiro suficiente.
Veja O programa
Fome Zero, do governo brasileiro, inclui repasse direto de dinheiro
para famílias pobres, mas os resultados são pífios.
O senhor considera planos assistencialistas eficazes no combate
à pobreza?
Sachs Não conheço o programa Fome Zero
em profundidade. Existem várias iniciativas semelhantes de
repasse de verba para os pobres que deram certo, como no México.
Em outros casos, o investimento em saúde pública e
educação trouxe resultados melhores do que a transferência
direta de recursos. O importante é que cada nação
analise com cuidado as medidas a ser tomadas antes de agir.
Veja Os Estados
Unidos e a União Européia dão subsídios
a seus agricultores, o que prejudica países em desenvolvimento,
como o Brasil. O fim do protecionismo ajudaria a combater a pobreza?
Sachs Todos os países que tentaram crescer
fechando seu mercado fracassaram. A abertura da economia da China,
em 1978, e a da Índia, em 1991, foram fundamentais para o
desenvolvimento econômico. Quando os países ricos impõem
barreiras comerciais, é natural que as nações
em desenvolvimento protestem. O protecionismo na agricultura, em
que as tarifas são mais altas, é o pior de todos.
O fim dos subsídios aos agricultores americanos e europeus
certamente ajudaria o Brasil e a Argentina, que são potências
agrícolas exportadoras. Onde o nível de pobreza é
realmente calamitoso, no entanto, não faria a menor diferença.
Na África, quase não existe excedente agrícola
para exportação.
Veja Há
quem acredite que a pobreza, da forma como a conhecemos, surgiu
com a Revolução Industrial, quando ocorreu grande
migração do campo para as cidades. A miséria
é um produto do capitalismo?
Sachs A pobreza não é um fenômeno
da era atual. Antes da Revolução Industrial, há
dois séculos, ela já estava presente em todo o mundo.
A expectativa de vida era baixa, havia elevado índice de
doenças, e a fome castigava regiões inteiras. A Revolução
Industrial proporcionou crescimento econômico e avanços
tecnológicos importantes. Nos países ricos, a pobreza
extrema foi eliminada. Mesmo em países em desenvolvimento,
a parcela mais pobre da população teve acesso à
infra-estrutura básica. Hoje, a expectativa de vida na maioria
deles está na faixa dos 70 anos. Embora o capitalismo tenha
produzido desenvolvimento econômico, é verdade que
não conseguiu tirar todos os pobres da miséria e tampouco
proteger o meio ambiente. Mas seguramente não inventou a
pobreza. Na verdade, foi a partir da Revolução Industrial
que o mundo começou a discutir seriamente como reduzi-la.
Veja O senhor
concorda com os críticos que dizem que os ajustes estruturais
da economia nos anos 80 e 90, preconizados pelos organismos financeiros
internacionais, agravaram a pobreza nos países em desenvolvimento?
Sachs Algumas das medidas eram de fato necessárias,
como a abertura da economia e a privatização de estatais.
Em certos países, como Índia e China, elas foram o
fator decisivo para o desenvolvimento econômico. Os ajustes,
porém, não são suficientes se o país
permanecer com uma dívida externa elevada ou sob condições
frágeis para enfrentar uma instabilidade macroeconômica.
As forças de mercado também não bastam para
sustentar o desenvolvimento se não houver investimento público
em áreas críticas, como infra-estrutura, saúde,
educação, pesquisa e tecnologia. Esse foi um dos maiores
erros dos países latino-americanos nos últimos vinte
anos. Ao contrário dos países do Leste Asiático,
eles não fizeram investimento público em pesquisa
e ficaram para trás no mercado global de produtos de alta
tecnologia.
Veja O senhor
atuou como consultor nos anos 80 e 90 para países em desenvolvimento
que passaram por ajustes duríssimos, como Bolívia,
Polônia e Rússia. O senhor daria hoje conselhos diferentes
a esses países?
Sachs O foco do meu trabalho na Bolívia,
por exemplo, era a estabilização monetária.
Em 1985, o país convivia com uma hiperinflação
de 25.000% ao ano e uma dívida externa elevadíssima.
Felizmente, consegui controlar a inflação e renegociar
parte da dívida. Não pude me ocupar de outros problemas
graves do país, como o combate à pobreza e,
sinceramente, nem tinha conhecimento suficiente naquela época
para avançar nessa área. Hoje tenho uma visão
mais ampla sobre o assunto e certamente priorizaria medidas para
acabar com a miséria.
Veja O senhor
usa estatísticas para mostrar que a riqueza do mundo aumentou
entre 1820 e 2000, mas, nos países pobres, o que cresceu
foi a pobreza. Por quê?
Sachs A renda per capita mundial cresceu mais, proporcionalmente,
do que a população do planeta nesse período.
A questão é por que alguns países ficaram para
trás. A resposta não é simples. A África,
por exemplo, concentra todos os problemas numa única região.
O continente é vulnerável a secas prolongadas e o
solo está esgotado, o que dificulta a produção
de alimentos. As distâncias significam altos custos de transporte
e aumentam o isolamento econômico. Há também
uma história trágica de exploração colonial
e escravidão. Com isso, chegou aos tempos modernos com uma
infra-estrutura precária e uma taxa elevada de analfabetismo.
Tudo isso espanta os investidores externos.
Veja Qual foi
a situação mais impressionante de miséria que
o senhor presenciou?
Sachs A crise da saúde na África, sem
dúvida. Tive um choque muito grande ao entrar pela primeira
vez num hospital e ver tanto sofrimento com doenças que poderiam
ser evitadas. Bastaria adotar em larga escala medidas de eficácia
comprovada, de custo muito baixo, que salvariam milhares de vidas
por ano. Estou me referindo a campanhas de prevenção
de doenças sexuais, como a aids, e à distribuição
de mosquiteiros para evitar a malária.
Veja O senhor
espera ser lembrado um dia como o economista que erradicou a pobreza
do mundo?
Sachs Gostaria que a minha geração,
e não apenas eu, ficasse marcada como a que lutou para acabar
com a pobreza. Acho que isso é possível, mas não
pode ser o trabalho de um homem só. Tem de ser um esforço
coletivo.
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