Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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Carta ao leitor
A vida sem o FMI

Duas gerações de brasileiros cresceram ouvindo "Fora, FMI", as três letras que formam a sigla de Fundo Monetário Internacional. Elas eram gritadas como sinônimo de desemprego, de recessão, de cortes de verbas sociais, mas principalmente de subserviência a um modelo econômico feito por países ricos com o objetivo de manter os pobres em estado de penúria. Bem, na semana passada, o governo Lula anunciou que não vai renovar o acordo que o Brasil mantinha com o FMI desde 2002. O que muda na condução da economia? Nada, diz o próprio governo.

Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra que o receituário de política econômica favorecido pelo FMI está longe de ser a decantada caixinha de maldades da qual, segundo seus críticos, tecnocratas sem alma sacam soluções para beneficiar os bancos e as corporações multinacionais. Em linhas gerais, o FMI preconiza respeitar contratos, não gastar mais do que se arrecada, aumentar a exposição da economia ao comércio global, não dar subsídios e não recorrer ao controle artificial de preços. Acessoriamente, aconselha-se também a não deixar a moeda local se valorizar a ponto de desestimular as exportações. Eis uma lista de providências aceitas espontaneamente por governos, como o brasileiro, em que prevalece o bom senso econômico. São medidas básicas que vêm sendo adotadas por países endividados, sem poupança interna relevante e com governantes preocupados em atrair investimentos privados para alavancar sua economia.

Por essas razões, a decisão do governo Lula de não renovar o acordo com o FMI não teve o mesmo sabor irredentista que marcou medidas semelhantes no passado. Sabe-se agora que prescindir do FMI não significa a volta da farra com dinheiro público, da mesma forma que romper com sir Isaac Newton (1642-1727) não credencia ninguém a desrespeitar a lei da gravidade. No caso da física, pode-se falar em leis naturais e em punições inevitáveis para quem as contraria. Em economia talvez seja um exagero classificar como leis as medidas associadas à estabilidade financeira e à prosperidade econômica elencadas acima. Mas, pela experiência positiva dos países que as adotaram e diante do vácuo de alternativas viáveis, elas adquiriram uma indubitável credibilidade – e ninguém precisa do FMI para colocá-las em prática.

 
 
 
 
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