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Carta ao leitor A
vida sem o FMI Duas gerações de brasileiros
cresceram ouvindo "Fora, FMI", as três letras que formam a sigla de Fundo
Monetário Internacional. Elas eram gritadas como sinônimo de desemprego,
de recessão, de cortes de verbas sociais, mas principalmente de subserviência
a um modelo econômico feito por países ricos com o objetivo de manter
os pobres em estado de penúria. Bem, na semana passada, o governo Lula
anunciou que não vai renovar o acordo que o Brasil mantinha com o FMI desde
2002. O que muda na condução da economia? Nada, diz o próprio
governo. Uma reportagem da presente edição
de VEJA mostra que o receituário de política econômica favorecido
pelo FMI está longe de ser a decantada caixinha de maldades da qual, segundo
seus críticos, tecnocratas sem alma sacam soluções para beneficiar
os bancos e as corporações multinacionais. Em linhas gerais, o FMI
preconiza respeitar contratos, não gastar mais do que se arrecada, aumentar
a exposição da economia ao comércio global, não dar
subsídios e não recorrer ao controle artificial de preços.
Acessoriamente, aconselha-se também a não deixar a moeda local se
valorizar a ponto de desestimular as exportações. Eis uma lista
de providências aceitas espontaneamente por governos, como o brasileiro,
em que prevalece o bom senso econômico. São medidas básicas
que vêm sendo adotadas por países endividados, sem poupança
interna relevante e com governantes preocupados em atrair investimentos privados
para alavancar sua economia. Por essas razões,
a decisão do governo Lula de não renovar o acordo com o FMI não
teve o mesmo sabor irredentista que marcou medidas semelhantes no passado. Sabe-se
agora que prescindir do FMI não significa a volta da farra com dinheiro
público, da mesma forma que romper com sir Isaac Newton (1642-1727) não
credencia ninguém a desrespeitar a lei da gravidade. No caso da física,
pode-se falar em leis naturais e em punições inevitáveis
para quem as contraria. Em economia talvez seja um exagero classificar como leis
as medidas associadas à estabilidade financeira e à prosperidade
econômica elencadas acima. Mas, pela experiência positiva dos países
que as adotaram e diante do vácuo de alternativas viáveis, elas
adquiriram uma indubitável credibilidade e ninguém precisa do
FMI para colocá-las em prática. |