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André
Petry Coreografia da morte
"A
muitos, morrer em público talvez
pareça um excesso de propaganda, uma instrumentalização
da morte para provocar mais comoção e popularidade ,
além de submeter o moribundo a uma exposição
desumana" Na história da humanidade,
a morte já foi um espetáculo público, como uma cerimônia
para a coletividade. Todos queriam ver o cadáver. O quarto do moribundo
era como uma praça pública à qual amigos e vizinhos, até
mesmo curiosos e desconhecidos, tinham acesso livre. E não faz muito tempo.
Ainda no século XVIII, os médicos, que começavam a fazer
as primeiras descobertas sobre a importância da higiene para a saúde
humana, reclamavam do excesso de pessoas transitando pelos quartos onde jaziam
os agonizantes. O cortejo fúnebre, então, era como uma quermesse
silenciosa, aberto à participação coletiva. O francês
Philippe Ariès, autor do livro História da Morte no Ocidente,
no qual estão descritos esses detalhes, conta que até as crianças
tinham o hábito de transitar em torno do leito dos moribundos e,
assim, aprendiam desde cedo a encarar a morte com uma certa naturalidade e conviver
com ela sem excessos dramáticos. "Assim se morreu durante séculos
e milênios", diz Ariès. Recentemente,
muito recentemente, tudo mudou. E mudou de forma tão profunda que a muitos
parece que as coisas têm sido assim há séculos e milênios.
Mas não. Não faz nem um século que o moribundo deixou de
morrer em casa para morrer numa novidade chamada hospital. Com essa mudança
de endereço, a hora do adeus deixou de ser uma atribuição
familiar, uma tarefa de amigos e parentes, para virar um encargo da equipe médica
uma decisão quase que unicamente técnica, portanto. E, estando
mais distante da esfera familiar, a morte acabou adquirindo contornos mais dramáticos,
como se sua chegada fosse o resultado de um fracasso e não uma decorrência
inevitável da própria vida. Começamos, no Ocidente, a esconder
a morte. A poupar os familiares do morto. A poupar até o próprio
moribundo, que, muitas vezes, desconhece a gravidade de seu estado, ignora a proximidade
da morte. Tudo isso para dizer que o papa João
Paulo II, ele que foi o papa mais pop da histórica católica, escolheu
expor publicamente sua agonia. Escolheu ser tratado
em casa, tendo se recusado a ser transferido para um leito de UTI em um hospital.
Escolheu compartilhar sua dor como se a multidão de católicos reunidos
em frente ao palácio apostólico pudesse entrar em seu quarto. Nos
últimos dias, já com a evidência da debilidade física,
o papa apareceu três vezes à janela. Abençoava os fiéis
com seus gestos tornados inseguros pelo mal de Parkinson, tentava em vão
emitir qualquer som audível e exibia um semblante que, tomado por um misto
de irritação e dor, era inequívoco em informar a todos sobre
um sofrimento excruciante. A muitos, aparecer em
público em estado quase terminal talvez pareça um excesso de propaganda,
uma instrumentalização dos ritos da morte para provocar ainda mais
comoção e popularidade , além de submeter o
moribundo a uma exposição desumana. Algo como foi feito com Terri
Schiavo, a americana que havia quinze anos vivia como um vegetal e morreu em público
em decorrência do oportunismo da direita religiosa dos Estados Unidos, que
quis transformá-la em estandarte de seu proselitismo. Aos católicos,
porém, a bravura do papa à janela antes de cair na inconsciência
remete à crucificação e morte de Jesus Cristo no Gólgota.
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