Edição 1899 . 6 de abril de 2005

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André Petry
Coreografia da morte

"A muitos, morrer em público talvez pareça
um excesso de propaganda, uma instrumentalização da morte para provocar
mais comoção – e popularidade –, além de
submeter
o moribundo a uma exposição desumana"

Na história da humanidade, a morte já foi um espetáculo público, como uma cerimônia para a coletividade. Todos queriam ver o cadáver. O quarto do moribundo era como uma praça pública à qual amigos e vizinhos, até mesmo curiosos e desconhecidos, tinham acesso livre. E não faz muito tempo. Ainda no século XVIII, os médicos, que começavam a fazer as primeiras descobertas sobre a importância da higiene para a saúde humana, reclamavam do excesso de pessoas transitando pelos quartos onde jaziam os agonizantes. O cortejo fúnebre, então, era como uma quermesse silenciosa, aberto à participação coletiva. O francês Philippe Ariès, autor do livro História da Morte no Ocidente, no qual estão descritos esses detalhes, conta que até as crianças tinham o hábito de transitar em torno do leito dos moribundos – e, assim, aprendiam desde cedo a encarar a morte com uma certa naturalidade e conviver com ela sem excessos dramáticos. "Assim se morreu durante séculos e milênios", diz Ariès.

Recentemente, muito recentemente, tudo mudou. E mudou de forma tão profunda que a muitos parece que as coisas têm sido assim há séculos e milênios. Mas não. Não faz nem um século que o moribundo deixou de morrer em casa para morrer numa novidade chamada hospital. Com essa mudança de endereço, a hora do adeus deixou de ser uma atribuição familiar, uma tarefa de amigos e parentes, para virar um encargo da equipe médica – uma decisão quase que unicamente técnica, portanto. E, estando mais distante da esfera familiar, a morte acabou adquirindo contornos mais dramáticos, como se sua chegada fosse o resultado de um fracasso e não uma decorrência inevitável da própria vida. Começamos, no Ocidente, a esconder a morte. A poupar os familiares do morto. A poupar até o próprio moribundo, que, muitas vezes, desconhece a gravidade de seu estado, ignora a proximidade da morte.

Tudo isso para dizer que o papa João Paulo II, ele que foi o papa mais pop da histórica católica, escolheu expor publicamente sua agonia.

Escolheu ser tratado em casa, tendo se recusado a ser transferido para um leito de UTI em um hospital. Escolheu compartilhar sua dor como se a multidão de católicos reunidos em frente ao palácio apostólico pudesse entrar em seu quarto. Nos últimos dias, já com a evidência da debilidade física, o papa apareceu três vezes à janela. Abençoava os fiéis com seus gestos tornados inseguros pelo mal de Parkinson, tentava em vão emitir qualquer som audível e exibia um semblante que, tomado por um misto de irritação e dor, era inequívoco em informar a todos sobre um sofrimento excruciante.

A muitos, aparecer em público em estado quase terminal talvez pareça um excesso de propaganda, uma instrumentalização dos ritos da morte para provocar ainda mais comoção – e popularidade –, além de submeter o moribundo a uma exposição desumana. Algo como foi feito com Terri Schiavo, a americana que havia quinze anos vivia como um vegetal e morreu em público em decorrência do oportunismo da direita religiosa dos Estados Unidos, que quis transformá-la em estandarte de seu proselitismo. Aos católicos, porém, a bravura do papa à janela antes de cair na inconsciência remete à crucificação e morte de Jesus Cristo no Gólgota.

 
 
 
 
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