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Roberto Pompeu de Toledo

A vaia que salva

Oitenta anos depois, a Semana
de Arte Moderna conserva seu
charme
juvenil. Por quê?

Faz tempo que não acontece nada. Quer dizer, no ano passado aconteceu algo, em Nova York, mas, fora isso, recuar até onde, para localizar um evento marcante, divisor de águas? Talvez até 1989, o ano da queda do Muro de Berlim? De causar mesmo estupor é quando acontecem muitas coisas ao mesmo tempo, e tem-se a impressão de que a história ficou com febre. 1968 foi um ano prodigioso, nesse sentido. Teve desde a Ofensiva do Tet, decisivo episódio da Guerra do Vietnã, até a invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. Desde a revolta estudantil de maio, na França, até a tragédia do Ato Institucional nº 5, no Brasil. Há um aforismo (de quem seria?) segundo o qual, se não houvesse o tempo, tudo aconteceria de uma vez só. 1968 foi assim. É como se o tempo tivesse perdido a mais própria de suas características, que é a de mover-se quase sem se mover, quieto e imperceptível como a terra sob nossos pés, para precipitar-se todo de um golpe. Em 1968 aconteceu tudo.

Outro ano notável, este para o Brasil, foi o de 1922. Também aconteceu tudo, em 1922. Houve o episódio dos 18 do Forte, a sangrenta marcha na Praia de Copacabana que marcou o início das revoltas militares contra a República Velha, e a fundação do Partido Comunista Brasileiro. Houve as várias comemorações do centenário da Independência e a primeira transmissão de rádio do Brasil. Enfim, e sobretudo, 1922 foi o ano da Semana de Arte Moderna, em São Paulo. De todos, é o fato mais enaltecido. Caiu no carinho dos pósteros. Tantos anos passados, parece jovem e fresco. No mês de fevereiro, a Semana fez 80 anos, comemorados com bom número de exposições, espetáculos, conferências e artigos de jornal, principalmente em São Paulo. Aliás, o próprio ano de 1922 está fazendo 80 anos. Mas nenhum dos outros eventos, pode-se apostar, merecerá tantas comemorações.

Por que o duradouro charme da Semana de Arte Moderna? Assim como estão sendo festejados seus 80 anos, foram festejados os 70, os 60, os 50... E assim também se festejarão os 90, os 100 – os 100, nem se fala –, os 110... Sempre com o mesmo alvoroço. Por quê? Na verdade, ela, em si, não determinou grande coisa. O que fez de mais substancioso foi reunir uma turma e transubstanciá-la em "movimento". No entanto, como reconheceu, lucidamente como sempre, o maior nome do modernismo brasileiro, Mário de Andrade, tudo o que foi feito pelo movimento modernista teria sido igualmente feito sem o movimento. Equivale a dizer que tudo o que foi feito depois da Semana, em literatura, música ou artes plásticas, teria sido feito sem a Semana. Qual o segredo, então, desse evento?

Eis a resposta: a vaia. Tanto quanto a música de Villa-Lobos, a pintura de Di Cavalcanti ou a poesia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, o Teatro Municipal de São Paulo conheceu sete dias de vaias memoráveis. Quando não eram vaias, eram insultos. Ao quadro O Homem Amarelo, de Anita Malfatti, eram atirados palavrões como a um juiz de futebol. Mário de Andrade, numa conferência de 1942, comemorativa dos 20 anos da Semana (sim, comemoraram-se também os 20 anos), perguntou-se: "Como tive coragem de participar daquilo? (...) Como tive coragem para dizer versos ante uma assuada tão singular que eu não escutava do palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas? Como pude fazer uma hórrida conferência na escadaria do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?" Foi duro, para um tímido como Mário de Andrade, mas o fato é que as vaias e os insultos salvaram a Semana. Salvaram-na da irrelevância, desde o primeiro momento, transformando-a em "caso", em escândalo, e deram-lhe o ar de juvenil travessura responsável por seu eterno encanto.

O papel central das vaias no evento conduz a outra indagação: que teria levado o público a vaiar? Por que tanta fúria, por que tantas ganas? É de estranhar, em primeiro lugar, que as pessoas se abalassem a pagar ingresso (sim, pagaram-se ingressos) para assistir a algo de que tinham tanta raiva. Em segundo lugar, é de estranhar que se motivassem tanto em torno de questões estéticas. Se fosse futebol ou política, vá lá. Mas em torno de um poema??? De um quadro??? Há duas explicações possíveis. Uma é que eram mesmo tão susceptíveis às questões estéticas, e tão assentadas tinham suas cândidas certezas em torno da arte acadêmica e da poesia parnasiana, que se arrepiaram todas. É um espanto. Como podiam ser tão diferentes das pessoas de hoje? Outra é que as vaias teriam sido encomendadas e contratadas por Oswald de Andrade. A hipótese cabe bem com a personalidade amalucada e o gosto pela provocação do autor de O Rei da Vela, e é outro espanto: teria sido um golpe de gênio. Graças a esse expediente, se é que foi assim, a Semana dura até hoje. E com ela as inseparáveis vaias, as vaias que até quase se ouvem ainda e que, em vez de enfezar, fazem abrir um sorriso de terna compreensão: "Esses rapazes..."

   
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