
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Os
sem-estilo
Eles já são numerosos na literatura
nacional.
E parecem sofrer de
gagueira no "órgão da linguagem"
André Nazareth/Strana
 |
Oscar Cabral
 |
|
O
guitarrista Tony Bellotto e o ex-operador financeiro
Ivan
Sant'Anna: fazer questão do
reconhecimento artístico ou
assumir a falta de estilo?
|

Veja também |
|
|
|
Você
já leu livros assim. Com texto simples. Direto. Despido de rebuscamentos.
As frases são curtas. Curtíssimas. De uma palavra só.
Ou podem até ser maiores. Mas nunca serão retorcidas. Pois
o que importa é o enredo. Ação rápida. Informação.
Quase todos os grandes autores de best-sellers em língua inglesa
escrevem dessa maneira, de Stephen King a John Grisham, de Ken Follett
a Tom Clancy. Aos poucos, contudo, também vão surgindo adeptos
dessa escola no Brasil. Pode-se chamá-la de escola dos "sem-estilo".
Dela fazem parte vários nomes de sucesso da nova ficção
nacional, como Patrícia Melo, Tony Bellotto, Fernanda Young, Fernando
Bonassi e Ivan Sant'Anna. A diferença é que eles são
um tanto mais melindrosos do que seus pares estrangeiros. Num contexto
em que a ficção é um produto de massa e movimenta
milhões de dólares, o despojamento é uma forma segura
de não assustar o leitor. Os sem-estilo dos Estados Unidos são
uma casta poderosa, que não pede perdão por escrever como
escreve. Já num mercado como o brasileiro, incapaz de enriquecer
quem quer que seja, aquele que se aventura na literatura não abre
mão do reconhecimento "artístico". Ou seja, um sem-estilo
jamais vai admitir que o é.
A única exceção a essa regra é Ivan Sant'Anna,
de 61 anos. "Sei que meu texto não tem grandes qualidades artísticas.
Não sou nem nunca serei um literato", afirma ele. Sete anos atrás,
Sant'Anna era um operador do mercado financeiro. Um dia, largou a profissão
com a idéia fixa de ganhar a vida escrevendo livros. Tem-se dado
relativamente bem. Já registra no currículo quatro romances
e um livro-reportagem, Caixa-Preta, que no ano passado entrou para
a lista de mais vendidos. Agora lança uma nova ficção,
Carga Perigosa (Objetiva; 320 páginas; 29,90 reais), na
qual explora o mundo dos caminhoneiros. Suas páginas estão
repletas de passagens dignas de um sem-estilo do mais puro sangue: "Finalmente
chegou o Posto Rota-Sul. O restaurante já se encontrava fechado.
Mas ele conseguiu um PF na lanchonete: arroz, bife e salada. Bebeu um
refrigerante. Encerrou com um café. A conta foi de R$ 5,16".
Feco Hanburguer
 |
| O
Inferno, de Patrícia: "Tiros. Mata. Pega. Crash" |
Não é difícil encontrar exemplos parecidos nos livros
de Patrícia Melo. "Gritos e correria. Pedradas. Vidros se quebrando.
Tiros. Mata. Pega. Crash." Assim escreve ela em seu último romance,
Inferno. Também não é difícil encontrar
passagens semelhantes nas obras de Tony Bellotto. Eis um trecho de BR
163: "Selene estava sentada, olhando o rio. Alan, de olhos fechados,
apoiava a cabeça no colo dela. Selene ouviu alguém pisando
os seixos. Levantou o rosto e viu Hélio Palito. Ele estava pálido".
Para o crítico mineiro Silviano Santiago, há muito que se
preocupar com os sem-estilo. "De alguns anos para cá, escrever
dessa forma virou um cacoete generalizado e degradante. Parece que um
mesmo livro está sendo escrito por todos", dispara ele. Talvez
se pudesse usar também uma expressão do crítico sergipano
Sílvio Romero, célebre polemista do começo do século
passado: é como se toda uma geração houvesse sido
acometida de gagueira "no órgão da linguagem".
Aqueles que, ao contrário de Ivan Sant'Anna, não aceitam
ser descritos como sem-estilo costumam sacar da manga alguns argumentos
literários para defender-se. Invocam adeptos do trinômio
"clareza-concisão-contundência", como o americano Ernest
Hemingway ou mesmo o brasileiro Rubem Fonseca, para mostrar que adotar
essas regras não implica perder o estilo. Frases simples e telegráficas
foram, de fato, um recurso original nas mãos de Hemingway, no começo
do século XX. E também se pode dizer que, nos anos 60, Fonseca
inovou ao narrar cenas de violência do cotidiano carioca numa linguagem
que tinha muito de crônica jornalística. Os sem-estilo têm
toda a razão: esses autores não podem ser confundidos com
nenhum outro. Tinham estilo. Infelizmente o mesmo não vale para
a nova geração. Crash.
|
|
 |
|
 |

|
 |