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Os sem-estilo

Eles já são numerosos na literatura
nacional. E parecem sofrer de
gagueira no "órgão da linguagem"

 
André Nazareth/Strana
Oscar Cabral

O guitarrista Tony Bellotto e o ex-operador financeiro Ivan Sant'Anna: fazer questão do reconhecimento artístico ou assumir a falta de estilo?




Veja também
Trechos de BR-163, de Tony Bellotto
Trechos de Inferno, de Patrícia Melo
Trechos de Carga Perigosa, de Ivan Sant'Anna

Você já leu livros assim. Com texto simples. Direto. Despido de rebuscamentos. As frases são curtas. Curtíssimas. De uma palavra só. Ou podem até ser maiores. Mas nunca serão retorcidas. Pois o que importa é o enredo. Ação rápida. Informação. Quase todos os grandes autores de best-sellers em língua inglesa escrevem dessa maneira, de Stephen King a John Grisham, de Ken Follett a Tom Clancy. Aos poucos, contudo, também vão surgindo adeptos dessa escola no Brasil. Pode-se chamá-la de escola dos "sem-estilo". Dela fazem parte vários nomes de sucesso da nova ficção nacional, como Patrícia Melo, Tony Bellotto, Fernanda Young, Fernando Bonassi e Ivan Sant'Anna. A diferença é que eles são um tanto mais melindrosos do que seus pares estrangeiros. Num contexto em que a ficção é um produto de massa e movimenta milhões de dólares, o despojamento é uma forma segura de não assustar o leitor. Os sem-estilo dos Estados Unidos são uma casta poderosa, que não pede perdão por escrever como escreve. Já num mercado como o brasileiro, incapaz de enriquecer quem quer que seja, aquele que se aventura na literatura não abre mão do reconhecimento "artístico". Ou seja, um sem-estilo jamais vai admitir que o é.

A única exceção a essa regra é Ivan Sant'Anna, de 61 anos. "Sei que meu texto não tem grandes qualidades artísticas. Não sou nem nunca serei um literato", afirma ele. Sete anos atrás, Sant'Anna era um operador do mercado financeiro. Um dia, largou a profissão com a idéia fixa de ganhar a vida escrevendo livros. Tem-se dado relativamente bem. Já registra no currículo quatro romances e um livro-reportagem, Caixa-Preta, que no ano passado entrou para a lista de mais vendidos. Agora lança uma nova ficção, Carga Perigosa (Objetiva; 320 páginas; 29,90 reais), na qual explora o mundo dos caminhoneiros. Suas páginas estão repletas de passagens dignas de um sem-estilo do mais puro sangue: "Finalmente chegou o Posto Rota-Sul. O restaurante já se encontrava fechado. Mas ele conseguiu um PF na lanchonete: arroz, bife e salada. Bebeu um refrigerante. Encerrou com um café. A conta foi de R$ 5,16".

Feco Hanburguer
O Inferno, de Patrícia: "Tiros. Mata. Pega. Crash"


Não é difícil encontrar exemplos parecidos nos livros de Patrícia Melo. "Gritos e correria. Pedradas. Vidros se quebrando. Tiros. Mata. Pega. Crash." Assim escreve ela em seu último romance, Inferno. Também não é difícil encontrar passagens semelhantes nas obras de Tony Bellotto. Eis um trecho de BR 163: "Selene estava sentada, olhando o rio. Alan, de olhos fechados, apoiava a cabeça no colo dela. Selene ouviu alguém pisando os seixos. Levantou o rosto e viu Hélio Palito. Ele estava pálido". Para o crítico mineiro Silviano Santiago, há muito que se preocupar com os sem-estilo. "De alguns anos para cá, escrever dessa forma virou um cacoete generalizado e degradante. Parece que um mesmo livro está sendo escrito por todos", dispara ele. Talvez se pudesse usar também uma expressão do crítico sergipano Sílvio Romero, célebre polemista do começo do século passado: é como se toda uma geração houvesse sido acometida de gagueira "no órgão da linguagem".

Aqueles que, ao contrário de Ivan Sant'Anna, não aceitam ser descritos como sem-estilo costumam sacar da manga alguns argumentos literários para defender-se. Invocam adeptos do trinômio "clareza-concisão-contundência", como o americano Ernest Hemingway ou mesmo o brasileiro Rubem Fonseca, para mostrar que adotar essas regras não implica perder o estilo. Frases simples e telegráficas foram, de fato, um recurso original nas mãos de Hemingway, no começo do século XX. E também se pode dizer que, nos anos 60, Fonseca inovou ao narrar cenas de violência do cotidiano carioca numa linguagem que tinha muito de crônica jornalística. Os sem-estilo têm toda a razão: esses autores não podem ser confundidos com nenhum outro. Tinham estilo. Infelizmente o mesmo não vale para a nova geração. Crash.

   
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