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Edição 1 741 - 6 de março de 2002
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1,99 e todo mundo ganha

As lojas barateiras já são 16 500
no Brasil e vendem 4,5 bilhões de
reais por ano em quinquilharias

Adriana Carvalho e Denise Ramiro

 
Rogério Voltan
Claudio Rossi
Best-seller: Todres vendeu 360 000 clássicos a 1,99 real

Loja em São Paulo: movimento diário de mais de 1 000 pessoas e 5 000 opções de produtos

O paulista Eduardo Todres é autor de um feito notável. Ele editou e vendeu no Brasil 360.000 exemplares de livros clássicos da literatura nacional e estrangeira. Seu público-alvo são os clientes das famosas lojas barateiras que anunciam vender todos os seus produtos por 1,99 real. Por esse precinho, os romances de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Lima Barreto e os poemas de Castro Alves saem como pão quente. Todres é um dos ginastas olímpicos da economia popular que fazem contorcionismo para ganhar dinheiro vendendo produtos tão baratos. No caso dele, o segredo principal é só editar obras de domínio público, sobre as quais não são mais cobrados direitos autorais. Outro, óbvio, é a quantidade, que os economistas chamam de escala. Um livro de ficção em que as editoras brasileiras apostam muito ganha na primeira edição cerca de 3.000 exemplares. As tiragens de Todres para cada uma das edições são de 150.000 unidades. Ele já está na quarta fornada. Todres consegue produzir livros a um custo unitário de 95 centavos. O distribuidor compra dele o mesmo volume por 1,28 real. O lojista paga 1,45 e revende por 1,99. Todo mundo ganha um pouco.

O mesmo sistema de produção em massa abastece as 16.500 lojas de 1,99 espalhadas pelo país. Ferramentas, calculadoras, utilidades domésticas, roupas, brinquedos, materiais escolares, entre outros, podem ser achados por um preço mínimo. O negócio, que surgiu nos Estados Unidos há mais de vinte anos, caiu no gosto popular em diversas partes do mundo. No Brasil, o setor emprega 100.000 pessoas e movimenta 4,5 bilhões de reais, cerca de doze vezes o faturamento das Lojas Americanas em 2000. O potencial de crescimento, segundo especialistas, é grande. Nos Estados Unidos, a Dollar Tree Stores, maior cadeia do ramo, faturou 1,9 bilhão de dólares em 2001.

Empolgado com esse filão, o empresário Clécio Tamasauskas mudou a vocação de seus negócios. Durante vários anos produziu componentes plásticos para o setor automobilístico. No final de 1999 passou a ser fornecedor das lojas de 1,99. Hoje tem mais de 2.000 clientes no país, que compram três dezenas de itens de sua linha de acessórios plásticos. Saboneteiras, açucareiros e porta-jóias dobraram o faturamento da empresa, a Gioplast, no interior de São Paulo. Tamasauskas lista uma série de vantagens de seu novo ramo. O risco de inadimplência cai muito, já que as compras são pequenas e pulverizadas por milhares de comerciantes. A margem de lucro é menor, cerca de 15% sobre o custo do artigo, mas ganha-se no volume dos pedidos. Tamasauskas assegura que mesmo trabalhando com um custo menor consegue manter a qualidade. Os ganhos de produtividade garantiriam a sobra de recursos necessária para investir em tecnologia. "O comércio popular é bom mesmo em momentos de crise. As pessoas deixam de comprar uma geladeira, mas não resistem a uma pechincha", diz o empresário.

Grandes indústrias também perceberam as possibilidades desse tipo de comércio. A espanhola Fini Guloseimas, que produz balas de gelatina, marshmallow e chicletes, descobriu as lojas de 1,99, que em apenas seis meses já respondem por 10% de seu faturamento. "Estávamos querendo encontrar um canal para popularizar a marca e decidimos pelas lojas barateiras. O custo para colocar produtos nos supermercados é muito alto", diz Michelangelo Lino Green, gerente nacional de vendas da empresa. Nas lojas de 1,99, um pacote de 100 gramas das balas Fini custa 1 real. Nos shoppings, onde os custos de operação são maiores, a mesma embalagem sai pelo dobro do preço.

Antes da desvalorização do real, há três anos, as lojinhas eram o paraíso de importados baratos, que desembarcavam principalmente da China. Com a alta do dólar, esses produtos deixaram de ser tão interessantes. "Hoje, cerca de 70% do que vendemos é feito no Brasil", afirma Olivar Lorena Vitale, dono de uma loja em São Paulo. Seu estabelecimento tem cinco anos e oferece 5.000 produtos. Como em outras lojas do ramo, ele não vende só artigos a 1,99 real, embora esse seja o chamariz. Segundo o comerciante, passam por sua lojinha todos os dias mais de 1.000 pessoas. Além dos canais tradicionais, os lojistas abastecem seus estoques com produtos arrematados em leilões de excedentes das indústrias. As papelarias e livrarias convencionais costumam comprar materiais didáticos até dezembro. Depois disso, o que sobra nas editoras fica encalhado e vai a leilão. Por isso, pode-se encontrar na loja de Vitale um atlas escolar por apenas 1,99 real, 10% do valor cobrado nas lojas convencionais. O mercado barateiro vem se organizando. Os lojistas têm até uma feira anual, que neste mês terá sua quarta edição em São Paulo. Do pouco é que se chega ao muito.

 
Tudo isso somado por 9,95 reais
Fotos Ricardo Salgado

1. Calculadora eletrônica com sinal sonoro; 2. Atlas Escolar Geográfico; 3. aparelho de depilação movido a pilha; 4. abridor de latas; 5. boneco plástico da coleção Homem-Aranha, importado da China.

 

 
 

 

   
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