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1,99
e todo mundo
ganha
As lojas
barateiras já são 16 500
no Brasil e vendem 4,5 bilhões de
reais por ano em quinquilharias
Adriana Carvalho
e Denise Ramiro
Rogério Voltan
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Claudio Rossi
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| Best-seller:
Todres vendeu 360 000 clássicos a 1,99 real |
Loja
em São Paulo: movimento diário de mais de 1 000 pessoas
e 5 000 opções de produtos
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O paulista
Eduardo Todres é autor de um feito notável. Ele editou e
vendeu no Brasil 360.000 exemplares de livros
clássicos da literatura nacional e estrangeira. Seu público-alvo
são os clientes das famosas lojas barateiras que anunciam vender
todos os seus produtos por 1,99 real. Por esse precinho, os romances de
Machado de Assis, Eça de Queiroz, Lima Barreto e os poemas de Castro
Alves saem como pão quente. Todres é um dos ginastas olímpicos
da economia popular que fazem contorcionismo para ganhar dinheiro vendendo
produtos tão baratos. No caso dele, o segredo principal é
só editar obras de domínio público, sobre as quais
não são mais cobrados direitos autorais. Outro, óbvio,
é a quantidade, que os economistas chamam de escala. Um livro de
ficção em que as editoras brasileiras apostam muito ganha
na primeira edição cerca de 3.000
exemplares. As tiragens de Todres para cada uma das edições
são de 150.000 unidades. Ele já
está na quarta fornada. Todres consegue produzir livros a um custo
unitário de 95 centavos. O distribuidor compra dele o mesmo volume
por 1,28 real. O lojista paga 1,45 e revende por 1,99. Todo mundo ganha
um pouco.
O mesmo
sistema de produção em massa abastece as 16.500
lojas de 1,99 espalhadas pelo país. Ferramentas, calculadoras,
utilidades domésticas, roupas, brinquedos, materiais escolares,
entre outros, podem ser achados por um preço mínimo. O negócio,
que surgiu nos Estados Unidos há mais de vinte anos, caiu no gosto
popular em diversas partes do mundo. No Brasil, o setor emprega 100.000
pessoas e movimenta 4,5 bilhões de reais, cerca de doze vezes o
faturamento das Lojas Americanas em 2000. O potencial de crescimento,
segundo especialistas, é grande. Nos Estados Unidos, a Dollar Tree
Stores, maior cadeia do ramo, faturou 1,9 bilhão de dólares
em 2001.
Empolgado
com esse filão, o empresário Clécio Tamasauskas mudou
a vocação de seus negócios. Durante vários
anos produziu componentes plásticos para o setor automobilístico.
No final de 1999 passou a ser fornecedor das lojas de 1,99. Hoje tem mais
de 2.000 clientes no país, que compram
três dezenas de itens de sua linha de acessórios plásticos.
Saboneteiras, açucareiros e porta-jóias dobraram o faturamento
da empresa, a Gioplast, no interior de São Paulo. Tamasauskas lista
uma série de vantagens de seu novo ramo. O risco de inadimplência
cai muito, já que as compras são pequenas e pulverizadas
por milhares de comerciantes. A margem de lucro é menor, cerca
de 15% sobre o custo do artigo, mas ganha-se no volume dos pedidos. Tamasauskas
assegura que mesmo trabalhando com um custo menor consegue manter a qualidade.
Os ganhos de produtividade garantiriam a sobra de recursos necessária
para investir em tecnologia. "O comércio popular é bom mesmo
em momentos de crise. As pessoas deixam de comprar uma geladeira, mas
não resistem a uma pechincha", diz o empresário.
Grandes
indústrias também perceberam as possibilidades desse tipo
de comércio. A espanhola Fini Guloseimas, que produz balas de gelatina,
marshmallow e chicletes, descobriu as lojas de 1,99, que em apenas seis
meses já respondem por 10% de seu faturamento. "Estávamos
querendo encontrar um canal para popularizar a marca e decidimos pelas
lojas barateiras. O custo para colocar produtos nos supermercados é
muito alto", diz Michelangelo Lino Green, gerente nacional de vendas da
empresa. Nas lojas de 1,99, um pacote de 100 gramas das balas Fini custa
1 real. Nos shoppings, onde os custos de operação são
maiores, a mesma embalagem sai pelo dobro do preço.
Antes da
desvalorização do real, há três anos, as lojinhas
eram o paraíso de importados baratos, que desembarcavam principalmente
da China. Com a alta do dólar, esses produtos deixaram de ser tão
interessantes. "Hoje, cerca de 70% do que vendemos é feito no Brasil",
afirma Olivar Lorena Vitale, dono de uma loja em São Paulo. Seu
estabelecimento tem cinco anos e oferece 5.000
produtos. Como em outras lojas do ramo, ele não vende só
artigos a 1,99 real, embora esse seja o chamariz. Segundo o comerciante,
passam por sua lojinha todos os dias mais de 1.000
pessoas. Além dos canais tradicionais, os lojistas abastecem seus
estoques com produtos arrematados em leilões de excedentes das
indústrias. As papelarias e livrarias convencionais costumam comprar
materiais didáticos até dezembro. Depois disso, o que sobra
nas editoras fica encalhado e vai a leilão. Por isso, pode-se encontrar
na loja de Vitale um atlas escolar por apenas 1,99 real, 10% do valor
cobrado nas lojas convencionais. O mercado barateiro vem se organizando.
Os lojistas têm até uma feira anual, que neste mês
terá sua quarta edição em São Paulo. Do pouco
é que se chega ao muito.
| Tudo
isso somado por 9,95 reais |
Fotos Ricardo Salgado

1.
Calculadora eletrônica com sinal sonoro; 2. Atlas Escolar
Geográfico; 3. aparelho de depilação
movido a pilha; 4. abridor de latas; 5. boneco plástico
da coleção Homem-Aranha, importado da China. |
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