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A nossa santa Paulina
Amabile
Visintainer,
que fundou uma
congregação religiosa no Brasil, será
canonizada pelo papa João Paulo II
João
Gabriel de Lima, de Nova Trento

Veja também |
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Em
23 anos de pontificado, o papa João Paulo II fez 456 santos
mais do que todos os seus antecessores somados, que atingem a marca de
302 canonizações. Contando-se com os santos que já
existiam antes que as leis de canonização estivessem formalizadas,
chega-se a mais de 4 000 nomes. Nessa extensa lista não há
nenhum brasileiro. Essa situação mudará em 19 de
maio, data em que Amabile Lucia Visintainer, a madre Paulina, irá
receber no Vaticano o título de santa. Sua canonização
foi confirmada na terça-feira passada, durante um consistório
em Roma. Embora ela só vá ser oficializada daqui a mais
de dois meses, madre Paulina já pode ser considerada santa, pois
o consistório evento em que o papa faz uma última
consulta a bispos e cardeais previamente instruídos sobre o processo
é a última instância jurídica da canonização.
A freira Amabile Lucia Visintainer, que viveu entre 1865 e 1942 e adotou
o nome de Paulina do Coração Agonizante de Jesus, nasceu
na verdade na Itália, no povoado de Vigolo Vattaro. Mas pode ser
considerada a primeira santa brasileira porque viveu 67 de seus 76 anos
no país, aqui fundou sua congregação e aqui realizou
os dois milagres que lhe garantiram a santidade.
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| Madre
Paulina: ela passou 68 de seus 76 anos no Brasil |
Ela
chega na frente numa corrida com outros trinta concorrentes . número
de candidatos a santos brasileiros protocolados no Vaticano. Três
causas nacionais, além da de madre Paulina, já atingiram
o estágio da beatificação: frei Galvão, padre
José de Anchieta e trinta mártires do episódio do
Cunhaú e Uruaçu, no século XVII, quando católicos
foram massacrados por índios e holandeses que dominavam Pernambuco.
Na Igreja Católica, o culto aos beatos é restrito ao local
onde atuaram ou à ordem a que pertenceram. Já os santos
têm alcance universal. Alguns podem se perguntar por que só
agora João Paulo II se lembrou do Brasil, o país com o maior
número de católicos no mundo. A resposta é que não
depende apenas dele. A canonização é o ápice
de um longo processo iniciado fora do Vaticano, em geral no país
em que o candidato viveu. Isso significa que o Brasil até hoje
não tinha um santo em parte por culpa dos próprios brasileiros.
"Até recentemente não havia em nosso país pessoas
que conhecessem a fundo as leis de canonização nem dinheiro
para bancar um processo, já que essas causas são dispendiosas",
avalia o padre Fernando Guimarães, ex-presidente do Tribunal Eclesiástico
do Rio de Janeiro, hoje trabalhando no Vaticano, na Congregação
para o Clero. No caso de madre Paulina houve as duas coisas, fundos e
conhecimento de causa.
Tarciso Mattos
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| Capela
comemorativa em Vígolo (SC), onde aparece pela primeira vez a inscrição
"Santa Paulina" |
A figura-chave num processo de canonização é a do
postulador. Ele é uma espécie de advogado de defesa do candidato
à santificação. O Brasil não tinha postuladores
de primeiro nível até o surgimento da teóloga Célia
Cadorin, hoje com 73 anos. Catarinense de Nova Trento, município
onde madre Paulina passou a infância e a juventude, numa colônia
de imigrantes italianos, ela faz parte da Congregação das
Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fundada pela religiosa.
Em 1982, foi destacada pela ordem para trabalhar em tempo integral na
causa da canonização, iniciada em 1965, mas que estava parada
desde 1970. Célia começou como auxiliar, assumiu o posto
de postuladora titular em 1993 e hoje é a maior especialista brasileira
nessa área. Tanto que, além de cuidar de madre Paulina,
a religiosa é a postuladora de frei Galvão e consultora
informal em mais dez causas de possíveis santos brasileiros. "Um
bom postulador tem de ser antes de tudo objetivo. Não pode perder
tempo e dinheiro tentando provar milagres duvidosos", ensina Célia.
Rose Perez
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| A
menina Iza Bruna, de Rio Branco (AC): o milagre que garantiu a santificação
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Estima-se que a causa de madre Paulina tenha consumido em torno de 100.000
dólares. Grande parte da verba que financiou o processo veio da
Itália. Religioso influente em Trento, a principal cidade da região
onde nasceu Amabile Visintainer, monsenhor Guido Bortolameotti, hoje nonagenário,
captou dinheiro entre os ricos do local para cobrir as despesas. É
claro que nem abundância de recursos nem um bom advogado adiantam
se o candidato a santo não tiver uma biografia merecedora e se
seus milagres não forem verossímeis. A primeira fase do
processo consiste na comprovação da vida virtuosa e da fama
de santidade. Amabile desde criança demonstrou vocação
para a caridade, que praticou ao longo de toda a sua trajetória.
Ainda adolescente, na colônia, cuidou de uma doente de câncer
em estado terminal. Mais tarde, depois de sonhar com Nossa Senhora, resolveu
tornar-se freira. "Ela era acima de tudo uma empreendedora, uma colona
pobre e semi-analfabeta que foi capaz de fundar uma ordem. Esse é
o exemplo que nos deixou", avalia Ilze Mees, ex-superiora da Congregação
das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.
Claudio Rossi
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Artur Moser
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| O
paulista Cícero D'Ávila recebeu a incumbência de esculpir a imagem
"oficial" de madre Paulina: mais de 100 santos no currículo |
Célia
Cadorin, a postuladora: "O importante é ser objetivo, para não perder
tempo e dinheiro tentando provar milagres que não aconteceram" |
O
mais difícil e dispendioso no processo de canonização,
no entanto, é a comprovação dos milagres de
acordo com a regra da Igreja, é necessário um para fazer
um beato e dois para fazer um santo. A segunda graça intermediada
por madre Paulina é um bom exemplo disso. Em 1992, Iza Bruna de
Souza, uma menina de Rio Branco, no Acre, nasceu com uma doença
rara: meningoencefalocele occipital de grande porte, que causava uma deformidade
no crânio. Os médicos, mesmo em precaríssimas condições,
decidiram operá-la, mas alertaram que o bebê dificilmente
sobreviveria e, se sobrevivesse, teria seqüelas terríveis.
Zaira de Oliveira, a avó de Iza Bruna, invocou madre Paulina. Iza
não só sobreviveu como não teve seqüelas. Para
provar o milagre, a postuladora teve de custear a viagem de várias
autoridades eclesiásticas até o Acre, com o objetivo de
tomar o depoimento dos envolvidos. Além de falar com os médicos,
era necessário checar se apenas madre Paulina fora invocada, caso
contrário o milagre poderia ser atribuído a outro santo
já existente. "Por isso é tão complicado canonizar
frei Galvão, já que seu culto em São Paulo é
muito perto do de Santo Expedito, e em geral os fiéis rezam para
ambos", compara Célia Cadorin. De posse dos autos, o Vaticano pediu
pareceres pagos pelo postulador de especialistas médicos
de Roma, para conferir se a cura não poderia ter sido feita sem
a intercessão da então beata. O relator do processo solicitou
também exames periódicos na menina durante os anos subseqüentes,
para garantir que a doença não voltaria, já que só
uma cura definitiva pode ser considerada milagrosa. Esses exames foram
realizados em São Paulo e os laudos enviados a Roma. Por fim, em
2001, quando Iza Bruna já contava 9 anos de idade, o papa reconheceu
o milagre.
Taciso Mattos
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| Agenor
e Alexandre Visintainer, descendentes da santa: vinho artesanal
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Na iminência da festa da canonização, leigos e religiosos
ligados ao culto de madre Paulina já começaram a tomar providências.
Em São Paulo, sede da Congregação das Irmãzinhas
da Imaculada Conceição, foi encomendada uma imagem "oficial"
da nova santa. O escultor paulista Cícero D'Ávila foi incumbido
da tarefa. Por sua fama de reproduzir fielmente as feições
das pessoas que retrata, D'Ávila já esculpiu mais de 100
imagens de santos na Itália, onde estudou e viveu por alguns anos,
e no Brasil. Em Vígolo, vilarejo pertencente ao município
de Nova Trento onde a religiosa começou sua obra, está sendo
construída uma capela na qual pela primeira vez aparecem os dizeres
"Santa Paulina", além de uma igreja com capacidade para 3 500 pessoas,
para melhor acolher os romeiros. Eles já são cerca de 30.000
por mês, segundo dados do governo do Estado, e a tendência
é que esse número cresça. "Estive recentemente no
norte da Espanha, e acho que essa região tem muito a nos ensinar
na área do turismo religioso", diz o governador de Santa Catarina,
Esperidião Amin, que sonha com uma versão brasileira do
Caminho de Santiago desembocando no santuário de Vígolo.
Se a localidade se transformar numa nova Aparecida, o comércio
de lembranças, que já existe em versão tímida,
irá explodir. É possível que os benefícios
atinjam até as dezenas de parentes de madre Paulina que vivem na
região. Um de seus sobrinhos, Alexandre Visintainer, fabrica um
vinho de garrafão juntamente com um filho, Agenor. O sonho de ambos
é ter dinheiro suficiente para imprimir um rótulo para a
bebida, que vai se chamar Coronel Visintainer homenagem ao agricultor
italiano que atravessou o oceano no século XIX, pai da primeira
santa brasileira.
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PASSOS
DA SANTIDADE
A causa da canonização
começou em 1965
O primeiro milagre atribuído
a madre Paulina, a cura de uma mulher com hemorragia pós-parto,
ocorreu em 1966, em Santa Catarina, e foi reconhecido oficialmente
em 1989
A beatificação se
deu em 1991
O segundo milagre, a cura de uma menina com
um tumor na cabeça, aconteceu em 1992, no Acre, e foi reconhecido
pelo Vaticano em 2001
Ao longo do processo, calcula-se
que tenham sido gastos cerca de 100 000 dólares
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