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Edição 1 741 - 6 de março de 2002
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Nixon queria usar
a bomba atômica

Gravações de 1972 mostram
que a opção foi discutida para
pôr fim à Guerra do Vietnã

 
AP

Nixon com o então assessor Kissinger: "Pense grande"

A Guerra do Vietnã provocava milhares de baixas entre as forças americanas. Preocupado com o desgaste político que o conflito estava lhe causando nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon reuniu-se na tarde de 25 de abril de 1972 com seu assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, para discutir o assunto. Os dois estudavam a melhor estratégia a ser adotada, entre elas o envio imediato de mais tropas e o bombardeio de fábricas no Vietnã do Norte. "Prefiro usar a bomba nuclear", disse Nixon. "Acho que seria um exagero", ponderou Kissinger. "Bomba nuclear. Isso te incomoda? Eu só quero que você pense grande", emendou o presidente americano. O diálogo acima, divulgado na semana passada pelos Arquivos Nacionais, faz parte de um lote de 500 horas de gravações feitas na Casa Branca entre janeiro e junho daquele ano e ajuda a lançar luz sobre a polêmica gestão de Nixon (1969-1974). Não se sabe se a sugestão do presidente americano era para valer ou apenas uma forma de instigar Kissinger, com quem não simpatizava. Nixon, que renunciou no meio do segundo mandato na esteira do escândalo Watergate, o maior da história dos Estados Unidos, morreu em 1994. Mas numa entrevista à revista Time, nos anos 80, ele negou ter cogitado a opção nuclear.

Só se pode especular sobre como seria o mundo se armas nucleares tivessem sido usadas no Sudeste Asiático. Até agora foram liberadas 1.700 das 3.700 horas de gravações de audiências e reuniões mantidas pelo presidente americano em seu gabinete. O material divulgado na semana passada tem importância justamente por abarcar um período tumultuado da história recente dos Estados Unidos. Foi no primeiro semestre de 1972 que Nixon realizou sua histórica viagem à China, a primeira de um líder americano depois da revolução comunista de Mao Tsé-tung. Nixon também estava de olho num acordo de desarmamento com a União Soviética, que poderia render-lhe pontos na corrida sucessória. E havia, claro, a questão do Vietnã. A maior preocupação do presidente americano era que o conflito enterrasse de vez suas chances de reeleição. "Não podemos perder 50.000 homens e também a guerra", lamentou-se com o comediante Bob Hope. Em outra reunião com Kissinger, um mês depois de sugerir jogar a bomba atômica no Vietnã do Norte, Nixon comentou que a morte de civis era uma fatalidade de todas as guerras. "A única coisa em que discordamos é sobre os bombardeios. Você fica aí preocupado com os civis, e eu não dou a mínima", disse Nixon. "Não quero que o mundo o acuse de açougueiro", respondeu Kissinger. "Podemos fazer o que é preciso sem matar civis." Semanas depois, Nixon autorizou o maior envio de tropas para o Vietnã desde 1968. No total, 3 milhões de vietnamitas e 58.000 americanos morreram no conflito, que terminou com um acordo, em 1973.

 

Guerra do Vietnã: para Nixon, ameaça à reeleição

Nas fitas, fica claro o anti-semitismo de Nixon. Ele reclama com um assessor que o Departamento de Estado estava "cheio de judeus". "Eles não são confiáveis", diz. E exige que, se conseguisse a reeleição, o número de judeus nomeados no governo teria de ser proporcional à população, cerca de 2%. De resto, as gravações mostram que todas as suas ações estavam voltadas para a reeleição. Os diálogos gravados em reuniões informais revelam os bastidores da campanha. Nixon mostra-se um político mentiroso em sua volúpia pelo poder. Chega à desonestidade sua capacidade de deturpar fatos. Um exemplo é um episódio ocorrido em maio – o atentado contra o governador do Alabama, o democrata George C. Wallace, que era apontado como o seu maior concorrente na disputa pela Casa Branca. Depois de perguntar a respeito do estado de saúde de Wallace e ter certeza de que outros pré-candidatos democratas, George McGovern e Edward Kennedy, estavam sob proteção policial, Nixon partiu para a ofensiva. Tratou de espalhar os rumores de que o autor dos disparos, Arthur Bremer, era um esquerdista ligado aos dois pré-candidatos. Ele chamou dois altos assessores e os instruiu sobre a forma como deveriam falar à imprensa. "Diga apenas que vocês têm evidências claras de que o atirador era ligado a McGovern e Kennedy", ordenou.

As fitas mostram ainda que Nixon também usou todas as armas de que dispunha para se defender do escândalo Watergate – que obrigaria o presidente americano a renunciar em 1974, depois que foi provada sua participação na escuta telefônica na sede do Partido Democrata, em Washington. As gravações mais polêmicas sobre o caso já haviam sido divulgadas nos anos 70, incluindo uma fita na qual foram suprimidos dezoito minutos de conversas para não comprometer ainda mais o então presidente. Mas outra gravação, de junho de 1972 e divulgada agora, mostra como Nixon articulou com assessores a busca de um bode expiatório. Ele concluiu que o nome ideal seria John Mitchell, seu chefe de campanha, que enfrentava problemas conjugais. O plano era alegar que Mitchell estava tão preocupado com a esposa que perdeu o controle da campanha.

   
 
   
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