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Nixon queria usar
a bomba atômica
Gravações
de 1972 mostram
que a opção foi discutida para
pôr fim à Guerra do Vietnã
AP

Nixon
com o então assessor Kissinger: "Pense grande" |
A Guerra
do Vietnã provocava milhares de baixas entre as forças americanas.
Preocupado com o desgaste político que o conflito estava lhe causando
nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon reuniu-se na tarde de 25
de abril de 1972 com seu assessor de Segurança Nacional, Henry
Kissinger, para discutir o assunto. Os dois estudavam a melhor estratégia
a ser adotada, entre elas o envio imediato de mais tropas e o bombardeio
de fábricas no Vietnã do Norte. "Prefiro usar a bomba nuclear",
disse Nixon. "Acho que seria um exagero", ponderou Kissinger. "Bomba nuclear.
Isso te incomoda? Eu só quero que você pense grande", emendou
o presidente americano. O diálogo acima, divulgado na semana passada
pelos Arquivos Nacionais, faz parte de um lote de 500 horas de gravações
feitas na Casa Branca entre janeiro e junho daquele ano e ajuda a lançar
luz sobre a polêmica gestão de Nixon (1969-1974). Não
se sabe se a sugestão do presidente americano era para valer ou
apenas uma forma de instigar Kissinger, com quem não simpatizava.
Nixon, que renunciou no meio do segundo mandato na esteira do escândalo
Watergate, o maior da história dos Estados Unidos, morreu em 1994.
Mas numa entrevista à revista Time, nos anos 80, ele negou
ter cogitado a opção nuclear.
Só
se pode especular sobre como seria o mundo se armas nucleares tivessem
sido usadas no Sudeste Asiático. Até agora foram liberadas
1.700 das 3.700
horas de gravações de audiências e reuniões
mantidas pelo presidente americano em seu gabinete. O material divulgado
na semana passada tem importância justamente por abarcar um período
tumultuado da história recente dos Estados Unidos. Foi no primeiro
semestre de 1972 que Nixon realizou sua histórica viagem à
China, a primeira de um líder americano depois da revolução
comunista de Mao Tsé-tung. Nixon também estava de olho num
acordo de desarmamento com a União Soviética, que poderia
render-lhe pontos na corrida sucessória. E havia, claro, a questão
do Vietnã. A maior preocupação do presidente americano
era que o conflito enterrasse de vez suas chances de reeleição.
"Não podemos perder 50.000 homens e
também a guerra", lamentou-se com o comediante Bob Hope. Em outra
reunião com Kissinger, um mês depois de sugerir jogar a bomba
atômica no Vietnã do Norte, Nixon comentou que a morte de
civis era uma fatalidade de todas as guerras. "A única coisa em
que discordamos é sobre os bombardeios. Você fica aí
preocupado com os civis, e eu não dou a mínima", disse Nixon.
"Não quero que o mundo o acuse de açougueiro", respondeu
Kissinger. "Podemos fazer o que é preciso sem matar civis." Semanas
depois, Nixon autorizou o maior envio de tropas para o Vietnã desde
1968. No total, 3 milhões de vietnamitas e 58.000
americanos morreram no conflito, que terminou com um acordo, em 1973.
Guerra
do Vietnã: para Nixon, ameaça à reeleição
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Nas fitas,
fica claro o anti-semitismo de Nixon. Ele reclama com um assessor que
o Departamento de Estado estava "cheio de judeus". "Eles não são
confiáveis", diz. E exige que, se conseguisse a reeleição,
o número de judeus nomeados no governo teria de ser proporcional
à população, cerca de 2%. De resto, as gravações
mostram que todas as suas ações estavam voltadas para a
reeleição. Os diálogos gravados em reuniões
informais revelam os bastidores da campanha. Nixon mostra-se um político
mentiroso em sua volúpia pelo poder. Chega à desonestidade
sua capacidade de deturpar fatos. Um exemplo é um episódio
ocorrido em maio o atentado contra o governador do Alabama, o democrata
George C. Wallace, que era apontado como o seu maior concorrente na disputa
pela Casa Branca. Depois de perguntar a respeito do estado de saúde
de Wallace e ter certeza de que outros pré-candidatos democratas,
George McGovern e Edward Kennedy, estavam sob proteção policial,
Nixon partiu para a ofensiva. Tratou de espalhar os rumores de que o autor
dos disparos, Arthur Bremer, era um esquerdista ligado aos dois pré-candidatos.
Ele chamou dois altos assessores e os instruiu sobre a forma como deveriam
falar à imprensa. "Diga apenas que vocês têm evidências
claras de que o atirador era ligado a McGovern e Kennedy", ordenou.
As fitas
mostram ainda que Nixon também usou todas as armas de que dispunha
para se defender do escândalo Watergate que obrigaria o presidente
americano a renunciar em 1974, depois que foi provada sua participação
na escuta telefônica na sede do Partido Democrata, em Washington.
As gravações mais polêmicas sobre o caso já
haviam sido divulgadas nos anos 70, incluindo uma fita na qual foram suprimidos
dezoito minutos de conversas para não comprometer ainda mais o
então presidente. Mas outra gravação, de junho de
1972 e divulgada agora, mostra como Nixon articulou com assessores a busca
de um bode expiatório. Ele concluiu que o nome ideal seria John
Mitchell, seu chefe de campanha, que enfrentava problemas conjugais. O
plano era alegar que Mitchell estava tão preocupado com a esposa
que perdeu o controle da campanha.
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