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A vida vai de barco
E a morte
também. São 25 000
quilômetros de rios navegáveis
e só 12 000 de estradas

Leonardo
Coutinho
Luiz Braga
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| Bragança,
a leste de Belém: nos primeiros 270 anos de vida da cidade,
nenhuma estrada. Só barcos |

Veja também |
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Há
pelo menos 1 milhão de barcos na Amazônia. Perto de 100.000
são registrados. Os outros são canoas, catraias, lanchas
e regatões que navegam sem documento nem fiscalização
numa rede de artérias fluviais que ninguém sabe precisar.
Só de rios navegáveis para grandes barcos são 25.000
quilômetros mais que o dobro das estradas existentes pavimentadas.
Praticamente tudo o que é produzido e consumido na Amazônia
viaja de barco ou de navio. As grandes cidades ficam à margem dos
rios, assim como a mais isolada casa de caboclo está assentada
sobre palafitas. Milhares de habitações flutuam, construídas
em cima de toras amarradas com cipó, formando um conjunto que muda
de endereço, mais para cima ou mais para baixo, conforme o regime
das cheias. Há mais trapiches que garagens, mais barqueiros que
motoristas. O colete salva-vidas é o cinto de segurança.
"Na Amazônia, a água governa e determina o destino dos homens",
diz o regionalista Leandro Tocantins, autor do livro O Rio Comanda
a Vida, lançado em 1952 e até hoje considerado um clássico
entre os amazônicos.
Ag. Tiba
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| Estaleiros:
há mais de duas centenas deles, funcionando até hoje
com técnicas de construção herdadas do período
colonial |
Esse autor faz uma analogia entre os rios da Amazônia. As águas
levam os nutrientes que sustentam toda a floresta e a fauna selvagem.
Pela superfície deslizam os homens e tudo o que eles levam para
dentro da mata. Os rios são o sangue cujo movimento mantém
a vida. Por setenta anos sustentaram, por exemplo, o pescador Pedro Araújo
Amaral, que nasceu a bordo de um barco carregado de farinha, viveu de
pesca, de uma roça de mandioca e da coleta de açaí
indo de canoa entre um ponto e outro, levando embarcada a sua produção
e morreu em janeiro deste ano, num povoado às margens do
Rio Amapu, na Ilha de Marajó, de onde nunca saiu. Pedro teve sua
primeira canoa aos 16 anos. Numa outra, a última, foi levado, enrolado
em panos, para a sepultura, à beira do mesmo rio. "Para muitos,
a vida começa e termina no rio", resume Tocantins. Os índios
da Amazônia vivem assim desde sempre. Os caboclos também.
A história
da outra navegação na Amazônia, a dos grandes barcos,
tem a idade do próprio Brasil. Esse tráfego começou
quando o explorador espanhol Francisco de Orellana subiu o Amazonas, em
1541. Na época colonial, caravelas e naus chegavam da Europa em
cacos, castigadas por muitos ventos e ondas. Antes de descer pela costa
do país, muitas tinham de parar em estaleiros rudimentares improvisados
nas bocas dos rios ou nos igarapés. "Assim nasceu a indústria
náutica amazônica", diz o engenheiro Roberto Serra Pacha,
da Universidade Federal do Pará. "Ajudando ou observando o jeito
dos portugueses na reforma de suas embarcações, os ribeirinhos
aprenderam a fabricá-las." Três séculos depois, com
a febre da borracha, foram os barcos a vapor a nova influência na
produção naval da região. A tecnologia aplicada hoje
é praticamente a mesma de então, com a construção
de barcos aparentados com os que se desenhavam na Escola de Sagres, em
Portugal.
Fotos Luis Braga
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Trapiche
em Manaus (acima): catraias, lanchas, gaiolas, regatões
e vigilengas movem a vida na Amazônia. Pequenas embarcações
também desafiam a imensidão de rios cuja margem está
além do horizonte (a esq.) |
Os modelos
perderam calado, para passar em lugares rasos, alargaram-se, tornaram-se
vapores e ganharam altura, em dois ou mais andares, virando gaiolas, iguais
às que se vêem atravessando para cima e para baixo. Em sua
alma, porém, são caravelões lentos e pesados feitos
sem planta nem projeto por práticos que não saberiam sequer
ler algum papel. A arte que aprenderam é a de reconhecer cada madeira
e aplicá-la no ponto certo da construção. O esqueleto
do casco cavername, tecnicamente pode ser montado com sete
tipos de madeira de lei, entre elas o ipê. A quilha fica boa se
feita de sapucaia. Ela é a viga central da embarcação.
Para obter a curvatura do casco, as peças são mergulhadas
em óleo e vergadas sob a ação do fogo, seguindo os
gabaritos. Existem pelo menos duas centenas de estaleiros às margens
dos rios da Amazônia trabalhando com esse método. Deles saem
regatões, usados por comerciantes e para transporte de passageiros,
vigilengas, de pesca, gaiolas, de uso misto, e bajaras verdadeiros
ônibus amazônicos, mais conhecidos como "popopô", onomatopéia
de seu motor.
Importante
trabalho dos estaleiros é a reciclagem de velhos navios. "Existem
ex-vapores que foram remodelados e ainda estão em operação
como gaiolas na região", revela o engenheiro naval e pesquisador
da Universidade Federal do Rio de Janeiro Hito Braga Moraes, que há
mais de quinze anos estuda a navegação na Amazônia.
"As estruturas foram reforçadas, mas alguns barcos ainda trazem
rebites do tempo da borracha." Há muitos acidentes, mas técnicos
no assunto não os relacionam com essa reciclagem. No último
deles, em janeiro, um barco com mais de 184 passageiros chocou-se contra
uma balsa e naufragou no Rio Jari, no Amapá. Sete pessoas morreram.
De 1996 a 2001, houve 223 naufrágios e 204 mortes. O engenheiro
naval e professor da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo Célio Taniguchi diz que a principal causa dos acidentes é
o excesso de lotação e da capacidade de carga. "Dentro de
seus limites, esses barcos são seguros", observa Taniguchi. Em
termos de equipamentos de segurança, porém, a maioria deixa
a desejar. E a Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, em Belém,
só tem 64 homens para a fiscalização.
O carpinteiro
Nilton Botelho Ribeiro, de 50 anos, representa a terceira geração
de fabricantes na mesma família. Faz desde embarcações
para pesca artesanal até as de grande calado, para o transporte
de cargas. Seus sucessores, ele diz com orgulho, estão preparados
para construir barcos ainda maiores. A família fatura 200.000
reais por ano, mas o atraso tecnológico condena o ofício,
acha o especialista no ramo Hito Braga Moraes. Não há como
competir com os produtos feitos de fibra ou alumínio, cada vez
mais comuns. A madeira de qualidade, por outro lado, é cada vez
mais escassa e protegida. Logo não será mais possível
fazer um barco de 20 metros por 25.000 reais,
como hoje. Até as canoas escavadas num único tronco, que
não custam mais que 60 reais a unidade o que é caro
para a região , um dia vão ser substituídas
por barquinhos construídos com outros materiais. No Canadá
e nos Estados Unidos, existem modelos feitos de plástico, ainda
caros, mas mais duráveis, sem problemas de manutenção.
E leves. Tão leves que talvez não combinem com o cenário
amazônico.
Na localidade
de Mapuá, em Breves, Estado do Pará, a lavradora Maria Joana
Barbosa, de 55 anos, rema dois dias para buscar a cesta básica
que ganha mensalmente de um programa assistencial. Mais dois dias para
voltar. Vai com a irmã e um sobrinho, todos se revezando na tarefa
de impulsionar a embarcação. O isolamento de quase 2.000
comunidades levou muitos serviços públicos e negócios
a se adaptarem. Os Correios vão de barco. As urnas eleitorais também.
Artigos produzidos na Região Sudeste passam seis dias na estrada
até chegar a Belém. De lá para Manaus, pelo rio,
demoram mais cinco dias. Nenhuma embarcação amazônica
é só de passageiros. Entre as duas principais capitais,
uma passagem de barco custa 120 reais para dormir numa rede, no convés,
ou 500 reais para ter direito a cabine mas gente sempre divide
lugar com animais, frutas e pacotes. Localidades como São Marcelino,
no Amazonas, recebem em até trinta dias produtos fabricados em
outras regiões do país. As distâncias e a dificuldade
de acesso elevam o preço de alguns produtos em até 40%.
Virou lenda uma história que ilustra o difícil acesso à
região. Antes da inauguração de uma fábrica
da Coca Cola no Acre, em 1979, os refrigerantes demoravam até um
mês para chegar a Rio Branco, embarcados em Manaus. Era tanto tempo
e tanto sol batendo nas embalagens que a Fanta laranja perdia, durante
o transporte, o tom dado pelo corante amarelo. A Fanta lá era branca.
Inaugurada a fábrica local, por bom tempo as vendas do refrigerante
colorido andaram abaixo do que já tinham sido.
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