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Edição 1 741 - 6 de março de 2002
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O torneio Rio–São Paulo

"O Rio de Janeiro pode ser uma
porcaria, mas São Paulo é uma
porcaria
ainda maior"

É muito interessante o debate sobre a criminalidade. Pena que ninguém me convide para participar. Li tantas notícias a respeito do assunto que virei um especialista. Acho que saberia até traçar um mapa do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, indicando os territórios dominados pelo Comando Vermelho ou por seus rivais do Terceiro Comando. Os membros mais ilustres do Comando Vermelho se chamam Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP. Os do Terceiro Comando, Escadinha, Celsinho da Vila Vintém, Robinho Pinga e Miltinho do Dendê. É surpreendente que bandidos responsáveis por centenas de homicídios possam merecer esses diminutivos carinhosos. Mas é indicativo da relação de cumplicidade que se estabelece entre os traficantes de drogas cariocas e os moradores das favelas que controlam. O crime organizado de São Paulo é diferente. O seu método é a intimidação. Dá para ver pelos apelidos dos fundadores do Primeiro Comando da Capital, todos aumentativos: Geleião, Bandejão, Baianão.

Outro dia, na luta pela chefia do Primeiro Comando da Capital, Baianão, dentro da cadeia, foi assassinado por homens de Geleião. As ordens partiram da penitenciária carioca Bangu I, onde Geleião está preso. O episódio demonstrou que o crime organizado de São Paulo e o do Rio de Janeiro aprenderam a cooperar, superando a antiga rivalidade entre os moradores das duas cidades. Como paulistano, sempre achei meio temerária essa rivalidade. Não nos convinha. O Rio de Janeiro pode ser uma porcaria, mas São Paulo é uma porcaria ainda maior. Aliás, São Paulo deveria evitar competir até mesmo com Taubaté, pois se arriscaria a tomar de lavada. O bem-estar do paulistano depende de sua absoluta falta de imaginação, que o impede de vislumbrar um modo de vida alternativo. Por isso é melhor não comparar nossa miséria com a miséria alheia, pois o resultado será invariavelmente em nosso detrimento.

O Rio de Janeiro, por exemplo, tem praia. Eu sei que a praia deles é um esgoto a céu aberto e que o mar e a areia estão infectados por vírus e bactérias transmissores de diarréia, hepatite e micose. Além disso, chove quase todos os dias. Mas pelo menos eles têm praia. E morros. Os morros foram tomados por favelas. Abstraindo-as, porém, fica realmente muito bonito. Em São Paulo, se você abstrai uma favela, o que sobra é ainda pior.

Desde que vim passar uma temporada no Rio de Janeiro, em novembro do ano passado, também tive a oportunidade de vivenciar uma epidemia de dengue, uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas, dois tiroteios em Ipanema, dois derramamentos de petróleo na Baía de Guanabara, um blecaute elétrico e três telefônicos. Pude constatar, igualmente, que os paulistanos têm motivos de sobra para debochar dos restaurantes cariocas, que oferecem a pior comida e o pior serviço do planeta. Mesmo assim não dá para comparar. O subdesenvolvimento do Rio de Janeiro tem mais graça que o de São Paulo. É mais pitoresco.

A única vantagem que São Paulo leva sobre o Rio de Janeiro é o dinheiro. Com dinheiro, os paulistanos podem comprar viagens para lugares com praias mais limpas e ensolaradas que as do Rio de Janeiro, sem favelas, sem dengue, sem mortandade de peixes, sem tiroteios, sem telefones mudos e sem Geleião.

 
 
   
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