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Sexo
virou bagunça
O presidente da CNBB diz que a
camisinha estimula os jovens a manter relações sexuais sem
estar preparados
Luís
Henrique Amaral
Claudio Rossi
 |
"Preservativos
não
devem ser
usados. Mas,
se o marido
tiver Aids,
cabe ao
casal decidir"
|
As
pessoas se habituaram à idéia difundida pelos formadores
de opinião segundo a qual a Igreja Católica é dividida
em duas grandes alas. De um lado estaria a ala conservadora e,
de outro, a ala progressista simples assim. Essa composição
faz algum sentido quando se analisa a atuação política
de cada grupo. Os progressistas identificam-se com a agenda dos partidos
de esquerda. Defendem, entre outras coisas, o não-pagamento da
dívida externa e as invasões do Movimento dos Sem-Terra.
Os conservadores preferem se dedicar às questões espirituais.
Um dos expoentes da ala progressista é o presidente da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, dom Jayme Chemello. Na entrevista que concedeu
a VEJA, ele deixa claro, no entanto, que a visão progressista começa
e acaba na política. No campo dos costumes, as duas alas são
igualmente conservadoras. Aos 69 anos, o gaúcho dom Jayme condena
com veemência o sexo antes e fora do casamento, o uso de preservativos,
a prática do aborto e a união civil de homossexuais.
Veja E então, dom Jayme, feliz com a canonização
de madre Paulina, a primeira santa brasileira?
Dom
Jayme
É uma boa notícia para o Brasil, para a Igreja e para as
devotas da santa, que devem estar muito felizes. Apenas para deixar claro,
madre Paulina ainda não é a primeira pessoa nascida no Brasil
a se tornar santa, pois ela nasceu na Itália. E nunca se naturalizou
brasileira. O primeiro brasileiro nato que deve virar santo é frei
Galvão, um franciscano morto no século XIX e beatificado
pelo papa João Paulo II em 1998. Agora, nosso próximo passo
é obter a canonização do padre Anchieta. A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil queria muito que ele se tivesse tornado
santo nas comemorações dos 500 anos do descobrimento do
Brasil, em 2000. Ele seria ideal como primeiro santo da terra. Anchieta
foi um verdadeiro herói e grande educador. Ele já é
beato e pode ser venerado nos altares, mas, segundo me foi dito, o processo
está incompleto.
Veja O que falta no processo de Anchieta?
Dom
Jayme
Para alguém virar santo é preciso que um dos milagres que
ele praticou depois da beatificação seja reconhecido pelo
Vaticano. E, no caso de Anchieta, isso ainda não ocorreu.
Veja Nos últimos dez anos, ao mesmo tempo que quase
dobrou o número de evangélicos caiu o contingente católico.
Onde os senhores estão errando?
Dom
Jayme Não
diria que estamos errando, mas não há dúvida de que
o Brasil mudou. O país deixou de ser um lugar onde existe um pensamento
único. Antigamente, quem dizia que não ia à missa
era caso perdido. A pessoa se colocava à parte da sociedade. Hoje,
as pessoas têm mais opção de escolha religiosa e podem
ser mais autênticas. Nesse cenário estamos perdendo, sim,
alguns fiéis para outras igrejas que se movimentam, buscam seguidores.
Percebo isso, mas sinto também que melhoramos a qualidade de nosso
fiel. O cristão católico está ficando mais maduro,
dedica-se a estudar mais a religião, a teologia. Hoje, quem é
católico é mesmo. E quem é ajuda mais a Igreja.
Veja A arrecadação com o dízimo subiu
em função dessa nova realidade?
Dom
Jayme
Graças a Deus somos pobres. Imagine se a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil tivesse muito dinheiro e o povo não tivesse.
Nós temos de viver como o povo vive. Mas subiu, sim. O dízimo
vem deixando de ser encarado como aquele dinheiro que é entregue
porque a pessoa tem um problema de consciência e quer pagar por
uma dívida moral. Resultado: o sujeito ajudava a Igreja com algum
dinheiro e depois roubava em outro lugar. Chega disso. O dízimo
deve ser visto como um sinal comunitário que demonstra que a pessoa
está mais engajada com uma causa, indicação de que
ela quer participar mais. Esse gesto está mais dentro do espírito
da Igreja hoje. Há trinta anos, quando todo mundo falava que era
católico, a CNBB precisava de mais verbas do exterior para sobreviver.
Agora, temos de aprender a viver com o que arrecadamos aqui.
Veja O que afasta o fiel da Igreja Católica?
Dom
Jayme
Muita gente acusa como responsável a politização
dos padres e bispos, mas eu penso de forma diferente. O que acontece é
que muitas vezes a pessoa vai à igreja em busca de um tipo de religião
espiritualista, como se o cristianismo pudesse ser visto como algo totalmente
desencarnado. Essa não é a nossa linha. Perceba bem. Deus
é puro espírito. Mas ele se encarnou em Jesus, tomou um
corpo, uma carne, tornou-se concreto. Tinha cara de judeu. Era um homem
do povo. Jesus se encarnou e veio ao encontro do ser humano e de suas
realidades. A espiritualidade tal qual a concebemos encara a problemática
do homem comum como um valor fundamental. Para nós é básico
discutir questões como a reforma agrária e a corrupção,
por exemplo. Fazendo isso, adotando essa posição criticada
por muitos, podemos perder fiéis. Mas não há dúvida
de que a Igreja do Brasil se preocupa com uma discussão que leve
em conta não apenas a quantidade, mas também a qualidade.
Veja o que dizem as pesquisas de opinião. A Igreja Católica
sempre está bem colocada quando se listam as instituições
nas quais a sociedade brasileira mais confia. Isso não significa
que a Igreja esteja distante de sua missão essencial, que é
dar assistência espiritual às pessoas. Apenas acreditamos
que esse tipo de assistência contém certos valores considerados
"terrenos", digamos assim.
Veja Os fiéis de hoje não se assustam ao ouvir
um padre falar contra o uso do preservativo ou contra o divórcio?
Dom
Jayme Essas
são questões modernas, que precisam ser abordadas. O preservativo
não deveria ser usado nunca. Porém é claro que podemos
falar em exceção, desde que se trate de um problema específico
de um casal.
Veja Que problema específico?
Dom
Jayme
Imaginemos um caso possível: um casal em que o marido tenha Aids.
O que fazer nesse caso, que tipo de conselho dar? Eles devem usar o preservativo
durante a relação ou não? Cabe aí uma discussão.
Em determinado momento, podemos ser obrigados a dizer: "Faça o
que sua consciência orienta".
Veja O que o senhor diria se fosse consultado?
Dom
Jayme Às
vezes, como é difícil dar a resposta, a gente diz: "Faça
o que sua consciência lhe permite diante de Deus". Mas eu ressalto
que o preservativo é uma coisa má porque termina liberalizando
tudo, fazendo o sexo virar bagunça.
Veja
"Bagunça"?
Dom
Jayme
Do jeito que o jovem lida com o sexo, ele faz coisas para as quais não
está ainda maduro e não guarda nada para depois do casamento.
Por essa razão, não concordo com essas políticas
públicas que distribuem preservativos. De mais a mais, não
existe certeza de que o preservativo evite a transmissão do vírus
da Aids. Acho que, quanto menos usar, melhor.
Veja Essa pregação não é prejudicial?
Dom
Jayme
Não, porque estamos fazendo um bem ao jovem, educando-o para as
coisas boas e alertando-o para se afastar daquilo que é ruim. Não
podemos partir do princípio de que a palavra "liberdade" envolve
apenas conceitos necessariamente bons. Os jovens que entram na criminalidade
muitas vezes o fazem por causa dessa tal "liberdade". Não podemos
dizer às pessoas que elas podem usar armas, porque um dia elas
atiram. Portanto, deve-se pensar muito antes de defender certos pontos
de vista sob o argumento de que estão relacionados à "liberdade".
No caso da posição ouvida dos padres sobre o sexo durante
o sermão, cabe ao fiel escolher. Ele chega à Igreja Católica,
ouve que o preservativo não é algo positivo e toma a própria
decisão.
Veja Atitudes como essa não estão por trás
do crescimento do número dos "sem-religião", que acreditam
em Deus mas não aceitam mais a intermediação de padres
ou pastores?
Dom
Jayme Temos
nos dedicado muito a estudar a modernidade, que colocou tudo dentro de
casa pela TV. Coloca até o prostíbulo. As pessoas têm
múltiplas escolhas e muitas vezes um padre não tem facilidade
de se comunicar com o povo. Ele fala coisas dentro da igreja para as quais
o povo nem liga. A moral, por exemplo, é muito difícil de
abordar. Falar de preservativo. O povo não quer saber, ele diz:
"Eu quero meu prazerzinho". Hoje, o mundo virou. Tem gente que não
aceita ou diz que não é capaz de cumprir os ensinamentos
da Igreja. Tem gente que não consegue ficar sem sexo antes do casamento.
Ou fora do matrimônio, por exemplo. É como tomar cachaça.
O que adianta um padre dizer a um bêbado para ele não tomar
cachaça?
Veja O avanço evangélico ensinou alguma coisa
à Igreja Católica?
Dom
Jayme
Os evangélicos fazem bem o chamado acolhimento do fiel. Quando
ele chega ao templo, é recebido por um grupo grande de voluntários
que se juntam aos pastores durante os cultos. Eu não sei se eles
conseguiriam dar esse tratamento aos seguidores se tivessem a legião
de fiéis da Igreja Católica. No nosso caso, faltam padres
para dar atendimento ao povo, quanto mais voluntários! Há
16 000 padres no Brasil, ou seja, um para cada grupo de 10 000 e poucas
pessoas. Em alguns casos, há padres responsáveis por grupos
de até 30 000 pessoas. O ideal seria ter 160 000, dez vezes mais
do que temos hoje.
Veja Os padres cantores, como Marcelo Rossi, não ajudaram
a conter a migração rumo às igrejas evangélicas?
Dom
Jayme
Sempre houve padres cantores na Igreja Católica. A única
novidade nesse campo é que eles viraram um fenômeno de mídia.
O padre Zezinho, por exemplo, canta há muito tempo. E é
um bom cantor, tem músicas muito bonitas. Ele é um padre
muito sólido. O que a CNBB procura sempre é fazer com que
esses padres tenham mais solidez doutrinária. Fiquei muito contente
porque recentemente encontrei aquele padre do Rio que diz que "Deus é
10" estudando teologia em Roma.
Veja O padre Zeca?
Dom
Jayme
É, o padre Zeca. Esses padres receberam dons de Deus e devem se
aprimorar para que tenham bases teológicas de formação
para ser cantores com fundamento. Para nós, não basta ter
voz nem fazer aeróbica. É preciso ser um homem de Deus.
Quanto ao Marcelo Rossi, a propósito de sua pergunta, nunca tive
contato com ele nem tempo de ouvir o CD.
Veja
Durante o sínodo dos bispos, no fim do ano passado, o
senhor criticou a centralização do poder da Igreja nas mãos
do Vaticano. Por que a Igreja brasileira acredita que pode questionar
Roma?
Dom
Jayme
Não fiz uma crítica. Só defendi, como defendo, que
nem tudo precisa passar por Roma. O papa estava lá escutando e
pode ter pensado: "Que bom que o bispo está falando isso. Realmente
não tem sentido mandar tudo para cá". Eu tenho de ser assim
porque é um princípio que quero que usem comigo. Se um subalterno
meu só concorda comigo, ele não serve. Eu gosto que ele
venha e diga o que pensa. O papa tem sido muito receptivo às minhas
falas. Ele é uma pessoa ótima, eu diria até espetacular.
Veja Mas o tema da discussão era a nomeação
dos bispos. Isso não deve passar pelo Vaticano?
Dom Jayme Eu
disse que o assunto deveria continuar nas mãos do papa. Jamais
questionei isso. Só acho que deveria haver uma participação
maior no processo. Há um segredo muito grande envolvendo a escolha
dos novos bispos. Há pessoas que deveriam ser consultadas e não
são.
Veja Os treze bispos do Maranhão divulgaram em janeiro
uma carta com duras críticas ao governo de Roseana Sarney no Estado.
Essa atitude não extrapola o papel da Igreja?
Dom
Jayme
Eu não acho que a governadora Roseana Sarney foi criticada pelos
bispos. O nome dela não foi sequer citado na carta. O que os bispos
fizeram foi abordar problemas estruturais do Estado do Maranhão.
O bispo local pode fazer isso, ele tem toda a autoridade para tecer comentários
a respeito de sua região. E eu acho que é bom.
Veja Dom Jayme, a análise feita sobre o Maranhão
foi divulgada numa entrevista coletiva e os bispos se fizeram acompanhar
de membros do PT, partido que dá sustentação à
candidatura de Luís Inácio Lula da Silva.
Dom
Jayme
Isso eu não vi. Muitas vezes estou do lado de pessoas do PT sem
querer. Ontem no avião eu encontrei várias pessoas do PT,
por exemplo.
Veja Por que os bispos de outros Estados não divulgam
documentos de análise semelhante?
Dom
Jayme
Os bispos de todo o país fazem reuniões periódicas
com análise de conjuntura. O documento do Maranhão chamou
a atenção da imprensa porque Roseana Sarney é candidata
à Presidência. Não foi desejo da CNBB fazer uso político-eleitoral
das informações. O que pode estar ocorrendo é que
grupos contrários a ela podem ter interesse em divulgar os fatos
na imprensa para dizer: "Olha, os bispos do Maranhão estão
dizendo que a Roseana não está tão bem". O Brasil
é um país pobre e tratamos dos temas mais importantes a
todo instante. Isso não autoriza ninguém a dizer que estamos
contra ou a favor de algum governo. O Brasil também tem problemas
e quando falamos deles não quer dizer que somos contra o presidente
Fernando Henrique Cardoso.
Veja Por que a Igreja Católica não mantém
esse mesmo espírito crítico quando o alvo dos debates é
o PT?
Dom
Jayme
Será que somos assim mesmo? No Fórum Social de Porto Alegre,
do qual participei, comentei que o PT explorou um pouquinho politicamente
o evento. De vez em quando, criticamos o PT também. Dom Marcelo
Carvalheira, vice-presidente da CNBB, recentemente criticou o PT pela
aproximação com o PL, um partido liberal e com forte presença
da Igreja Universal. A proposta deles de união civil entre homossexuais
também foi muito criticada por nós. Assim como a defesa
do aborto. O que colabora com a confusão é que o PT faz
coro com coisas que a Igreja diz há muito tempo. Falamos da reforma
agrária há cinqüenta anos, quando o Lula ainda era
criança. Discutimos a questão indígena desde o tempo
do padre Anchieta, há séculos. E não temos culpa
de o PT agora também falar sobre esses assuntos.
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