Sérgio
Abranches
O avesso da reforma
"É
espantoso como os
que querem
mudar a política brasileira o fazem
sempre atropelando o fato real e
concreto de que o Brasil é uma federação"
Ale Setti
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A decisão tomada pelo TSE de padronizar as alianças eleitorais
majoritárias, a partir da aliança nacional, se mantida,
terá profundas conseqüências nas próximas eleições
e não serão positivas, como imaginam os cinco ministros
que presumem saber o que é melhor para o país. A afirmação
do presidente Fernando Henrique de que "a reforma política" começou
e isso seria "bom para o país" não faz justiça à
atitude de respeito à democracia que marcou seu governo, apesar
das acusações injustas em contrário. Se esse é
o começo da reforma política, ela começou mal e isso
é péssimo para o país. Numa democracia, só
o Legislativo pode fazer reforma política. Fazê-la por meio
do Judiciário, com interpretação discricionária
de uma lei inequívoca em seu liberalismo, atropelando outros dispositivos
legais e violando a autonomia das circunscrições federativas
na organização político-administrativa republicana,
não é bom.
Como todo
artificialismo, a decisão do TSE tem tudo para dar errado e produzir
distorções, efeitos adversos e nenhum benefício.
O código eleitoral tem uma definição precisa das
circunscrições eleitorais. Em seu artigo 86, diz que a circunscrição
para a eleição presidencial é o país; para
as eleições federais e estaduais são os Estados;
e para as eleições municipais, os respectivos municípios.
Esse enunciado
simples combinado ao princípio constitucional da autonomia dos
componentes da República Federativa do Brasil revela um elemento
fundacional do federalismo, que somente o ministro Sepúlveda Pertence
reconheceu. Não é surpresa. Pertence é uma inteligência
jurídica fulgurante. As circunscrições são
autônomas. Portanto, vincular a coligação nas circunscrições
estaduais àquelas celebradas na circunscrição nacional
viola o princípio federativo.
Além
disso, a circunscrição estadual onde se dão
as eleições federais e estaduais é mais importante
na determinação do poder político-eleitoral que aquela
que elege o presidente da República. É provável que
os partidos ajustem suas estratégias nacionais, nem que seja pela
informalidade, às correlações de forças reais
nos Estados. Vão "estadualizar" as eleições presidenciais
e não "nacionalizar" as estaduais, como presumem os neolegisladores
do TSE. A força dos interesses reais se imporá apesar da
camisa-de-força, como ocorre sempre que se tenta amarrar agentes
econômicos ou políticos.
A idéia
moralista de que agrilhoando a liberdade de celebrar coligações
na circunscrição estadual se reformam as práticas
políticas, combatendo o troca-troca partidário e o fisiologismo,
é ingênua e denota preocupante travo de voluntarismo autoritário.
É espantoso como os que querem mudar a política brasileira
o fazem sempre atropelando o fato real e concreto de que o Brasil é
uma federação. E não o é por acaso, mas por
causa de sua extensão, diversidade, heterogeneidade estrutural
e assimetrias regionais. O sonho de um Brasil anglo-saxônico, unitário,
bipartidário, distrital e majoritário é uma fantasia
que ignora por inteiro nossa história e nossa conformação
sociológica.
O Brasil
que elege o presidente da República só existe na eleição
presidencial. E sempre foi diferente dos Brasis que elegem os deputados,
os senadores, os governadores e os prefeitos. O eleitor é sempre
o seu duplo: seu somatório nacional é mais moderno, mais
avançado, mais transformador que suas partes estaduais. Por isso
há tanto stress na relação entre o presidente e sua
coalizão. Atrelá-los pode fazer predominar o que se quer
mudar.
O país
tem governos de coalizão em decorrência de sua estrutura
federal. E também nos Estados. Essa violência centralizadora
do TSE pode desestabilizar a governança nos Estados e gerar um
quadro de tensões para o próximo presidente, aumentando
muito as dificuldades de relacionamento do governo da União com
os governos estaduais e ameaçando a governabilidade em muitos Estados
por um golpe de pena.
Com suas
declarações, Fernando Henrique realimentou as suspeitas
que considero infundadas de que a nova regra serve apenas
para estender um tapetão mais favorável à eleição
de seu candidato, o senador José Serra. A simples suspeita prejudica
o papel do presidente como magistrado, no que pode ser a primeira troca
regular de presidentes, desde que JK passou a faixa para Jânio Quadros.
E não faz justiça a Serra. Desculpe-me o presidente Fernando
Henrique, mas essa reforma que ele celebra caberia mais na Venezuela de
Chávez que no Brasil de Cardoso.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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