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Livros A história do
médico que venceu o cólera em Londres
Nas últimas semanas, um surto de febre amarela causou temor no Brasil. O vírus da doença é conhecido, assim como o seu modo de contágio, pela picada de certos mosquitos. Há uma vacina disponível. Ainda assim, o risco de epidemia existe, caso se descuide da vigilância sanitária. Essa é a triste verdade sobre males desse tipo: não basta dispor de armas contra o micróbio; é preciso estar alerta para condições ambientais e sociais que favorecem sua disseminação e manter políticas de saúde pública adequadas. Um belo livro sobre o tema do combate às epidemias chega às prateleiras no próximo dia 12. O Mapa Fantasma (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 276 páginas; 39,90 reais) fala da devastação que o cólera causou em Londres, em meados do século XIX. O grande mérito do autor, o americano Steven Johnson, foi transformar um episódio da história da ciência numa narrativa elétrica, que, como ele mesmo diz, tem vários protagonistas: uma bactéria letal, uma metrópole e um homem como o cientista John Snow, que para salvar vidas teve de lutar não apenas contra a natureza, mas também contra a ignorância.
Segundo Steven Johnson, a investigação de Snow assinala "o momento em que um indivíduo de bom senso, pela primeira vez na história, analisou as condições da vida urbana e chegou à conclusão de que as cidades seriam um dia grandes algozes" em termos de disseminação de doenças. Snow foi um médico sagaz, observador, cético diante de dogmas e superstições e uma prova de que o combate a epidemias com freqüência tem heróis e vilões. A história brasileira dá exemplos disso. Na virada do século XIX para o XX, o sanitarista Oswaldo Cruz, recém-alçado à chefia da Diretoria de Saúde Pública (o Ministério da Saúde de então), teve de combater justamente ela a febre amarela que grassava no Rio de Janeiro. Luminares da ciência sustentavam que a peste se propagava por meio do solo; Cruz, adepto da idéia correta de que o mosquito era o vetor, enfrentou zombarias e hostilidades. Mais tarde, ao tornar obrigatória a vacinação contra a varíola, Cruz viu eclodir uma revolta que transformou a capital do país em campo de batalha. Inversamente, quando um surto de meningite atingiu São Paulo, em 1974, uma decisão política equivocada do governo militar, que censurou notícias sobre o tema, deixou a população à beira do pânico. Epidemias são
situações-limite e, como tais, ensinam muito sobre
a própria condição humana; não por
outra razão inspiraram muitos escritores, como o Daniel
Defoe de Diário do Ano da Peste (1722), um relato
ficcionalizado do surto de peste bubônica que devastou
Londres em 1665, e o Albert Camus do clássico A Peste.
O Mapa Fantasma mostra como epidemias colocam à
prova conhecimentos e práticas sociais e se constituem
em desafios políticos. Não é obra de ficção,
mas se lê com o mesmo prazer.
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