A diretora do Latinobarómetro
diz que, depois da democracia,
latino-americanos querem reformas econômicas e sociais
Thomaz Favaro
Jefferson Coppola/Folha
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"A
maioria das sociedades da
região está sendo mudada por
meio de reformas paulatinas.
As rupturas são exceções"
A chilena Marta Lagos,
56 anos, sabe como poucos o que pensam e o que querem os latino-americanos.
Lagos é fundadora e diretora executiva do Latinobarómetro,
instituto de pesquisas com sede em Santiago que, desde 1995,
monitora o apoio popular à democracia, as expectativas
econômicas da população e a satisfação
com seus governantes. Os resultados dos questionários
aplicados em dezoito países da América Latina,
totalizando mais de 19 000 entrevistas, formam o termômetro
mais abrangente da aceitação, na região,
de conceitos como democracia e economia de mercado. Depois de
acompanhar o pensamento popular na América Latina nos
últimos doze anos, Lagos afirma que o continente já
descartou o autoritarismo e está passando por um processo
de consolidação de suas democracias. Muitos latino-americanos,
por outro lado, estão desiludidos com a economia de mercado
como forma de combater a pobreza e gostariam de maior presença
do estado em sua vida. Marta Lagos concedeu a seguinte entrevista
a VEJA de um hotel em Paris, onde passava férias.
Veja
Pesquisas de opinião feitas por seu instituto
mostram que na América Latina aumenta a desconfiança
em relação aos partidos políticos e cresce
o prestígio dos presidentes. Isso não é
perigoso para a democracia? Lagos Isso
é péssimo, pois cria um terreno fértil
para o populismo. Partidos frágeis ajudam na eleição
de caudilhos populistas. Se a Venezuela tivesse um sistema de
partidos políticos bem estruturado, Chávez não
poderia ter feito nem metade das coisas que fez. Os partidos
funcionam como contrapeso da disputa política, ajudam
a encontrar o equilíbrio entre as forças. Existe
na América Latina uma demanda pela concessão de
maiores poderes ao presidente. Isso é um erro. O estado
é constituído por várias instituições,
e cada uma deve cumprir o seu papel. Não cabe ao presidente
assumir o controle de tudo.
Veja
O que falta para a consolidação da democracia
na América Latina? Lagos Nos
anos 80, o continente deu os primeiros passos necessários
para recuperar as liberdades civis que caracterizam uma democracia.
As eleições para a Presidência e para o
Legislativo foram restabelecidas, voltaram os partidos políticos.
Conquistada essa liberdade, os latino-americanos passaram a
considerar necessária a realização de reformas
econômicas e sociais. Trata-se, em resumo, de uma demanda
por igualdade. Na Europa aconteceu a mesma coisa: houve um primeiro
ciclo de demandas políticas. O ciclo seguinte foi de
reivindicações econômicas e sociais. No
caso dos europeus, esse processo levou três séculos
para se consolidar.
Veja
Governantes populistas vendem a idéia
de que vale a pena abrir mão da democracia em troca de
reformas sociais. Como isso repercute na América Latina? Lagos Uma demonstração de que os latino-americanos
abraçaram os valores democráticos pode ser encontrada
no fato de que catorze presidentes foram depostos desde a década
de 80 e em nenhum caso houve intervenção externa.
Todos foram depostos de acordo com as regras dos próprios
países. Nossas pesquisas mostram que os latino-americanos,
hoje, descartam o autoritarismo e o militarismo. Estamos cansados
de revoluções, de rupturas radicais, e preferimos
consolidar o pouco que temos. Os entrevistados deixam claro
que não querem retroceder, mas avançar. Os níveis
de desigualdade social existentes na região, no entanto,
dificultam a consolidação de nossos sistemas democráticos.
Veja
O modelo populista adotado pelos governos da Bolívia,
do Equador e da Venezuela não representa um retrocesso? Lagos No processo
de consolidação da democracia, muitos países
estão refundando seu sistema político. Isso ocorre
de duas formas. A primeira é por meio de reformas políticas
e econômicas, como fez o Chile. A segunda depende de mudanças
constitucionais, em busca de uma ruptura com o passado, como
está sendo feito na Bolívia. Há outras
maneiras de produzir mudanças num país. Uma delas
é a guerra. A Europa mudou bastante com as guerras. Os
grandes conflitos são passos civilizatórios que
obrigam os povos a tolerar uns aos outros, a acertar as regras
do jogo. Na América Latina não aconteceu nada
parecido. Nunca tivemos grandes guerras nem grandes revoluções,
exceto a cubana. Houve apenas alguns movimentos revolucionários
inconclusos nos anos 60. As rupturas em curso na Bolívia
e no Equador são uma exceção.
Veja Por quê? Lagos A maioria das sociedades latino-americanas está
sendo transformada por meio de reformas paulatinas. A complicação
é que esse processo é bastante lento devido ao fato
de raramente vir acompanhado por um consenso sobre que rumo o
país deve tomar. Os avanços não são
contínuos, às vezes damos alguns passos para trás.
A consolidação democrática na América
Latina poderia ter sido mais rápida se tivéssemos
recebido ajuda externa. Portugal, Espanha e Grécia puderam
deixar para trás seus regimes autoritários em espaço
muito curto de tempo, na década de 70, porque foram apoiados
pelos outros países europeus. Não tivemos nada disso
na América Latina. Nós saímos sozinhos das
ditaduras. Sem a ajuda do resto do mundo, nosso processo de democratização
é difícil, com avanços e retrocessos.
Veja
Por que o restante do mundo mostra tanto desinteresse
em relação à América Latina? Lagos Há
três explicações. Primeiro, porque não
temos armas nucleares. Segundo, porque não temos em andamento
nenhum conflito relevante de cunho étnico ou religioso.
Terceiro, porque não somos atrativos para o comércio
mundial. Apesar de termos um grande mercado, com quase 600 milhões
de habitantes, consumimos pouco. Isso faz com que a América
Latina seja uma região esquecida. Não necessitamos
de muita ajuda externa, mas tampouco estamos bem sem essa ajuda.
Avançamos pouco a pouco, quase incógnitos.
Veja
Os venezuelanos mostram-se nas pesquisas um dos povos
mais satisfeitos com a democracia. Como isso é possível
sob o regime autoritário de Hugo Chávez? Lagos Há
duas Venezuelas. A primeira, que representa 45% da população,
pede a democracia institucional, universal, como todos nós
conhecemos. A segunda Venezuela, com pouco mais de 50% da população,
acredita que Chávez se desfez da velha elite política
e econômica e se sente incluída na política.
Esse tipo de "democracia à la Chávez"
é o que parte dos venezuelanos aplaude, porque eles não
conheceram nenhuma outra. Para eles não importa a liberdade
das instituições, que na verdade nunca funcionaram
muito bem. Na Venezuela, portanto, enfrentam-se dois conceitos
muito distintos de democracia. Aquela criada pelo presidente
Hugo Chávez é populista, dependente de uma só
pessoa. Mas é bom olhar essa situação com
cuidado: os venezuelanos não deram poder total a Chávez.
Eles não querem um governo autoritário. Isso ficou
claro no último referendo, em que a reforma constitucional
que daria mais poderes ao presidente foi rechaçada.
Veja
Pode-se chamar o projeto político de Chávez
de democracia? Lagos Trata-se
de uma democracia defeituosa, com liberdades restringidas. Os
venezuelanos deram, no último referendo, uma demonstração
contundente de que não lhes interessa conceder poderes
totais a Chávez. Eles não querem um governo autoritário.
O grande trunfo de Chávez é que, antes dele, boa
parte da população não tinha participação
política alguma. Ele não pode colocar isso a perder.
Veja
Mesmo depois de cinco anos de crescimento econômico
constante, suas pesquisas de opinião mostram os latino-americanos
cada vez mais descrentes com a economia de mercado. Por quê? Lagos A insatisfação me parece
justificável. Em nenhum país da região
há um verdadeiro "mercado" digno do nome
competitivo, aberto e transparente. Temos muitos monopólios
e cartéis, como no setor de telecomunicações.
As condições para fazer negócios são
restritivas. Veja o exemplo do mercado financeiro. Apenas dois
em cada dez latino-americanos têm conta bancária.
É natural que os outros oito se digam insatisfeitos com
o mercado financeiro. É como se houvesse uma festa e
me perguntassem o que eu achei dela, mesmo não tendo
sido convidada. Pior: eu fico sabendo que a festa vai ser melhor
da próxima vez, porque haverá mais mesas e cadeiras,
mas nunca me chamam. Como eu poderia estar contente por haver
uma festa? A reação dos entrevistados não
é ideológica. Eles só querem fazer parte
da festa. No dia-a-dia, se uma pessoa continua sem ter renda,
acesso a crédito ou cartão de crédito para
gastar, ela acaba recorrendo ao estado, exigindo educação,
saúde e outros serviços públicos.
Veja
Os latino-americanos parecem estar sempre mudando
de opinião sobre as privatizações. Ora
são contra, ora a favor. Por quê? Lagos As privatizações
foram acompanhadas de promessas de grandes benefícios,
o que criou expectativas altas na população. Muitas
vendas, no entanto, foram malfeitas. Algumas privatizações
de serviços de água e luz, por exemplo, deveriam
ter sido acompanhadas de programas de subsídios para
diminuir o impacto da alta nos preços das tarifas. Isso
coincidiu justamente com a crise asiática e houve anos
de recessão na América Latina. Quando a situação
econômica começou a melhorar, os serviços
ficaram mais baratos e a imagem das empresas também melhorou.
Ou seja, o que houve foi uma distorção: o problema
não eram as empresas privadas em si, mas as condições
em que algumas privatizações foram feitas.
Veja Falta
capital humano de qualidade na América Latina? Lagos De modo geral, a América Latina
investiu muito em educação fundamental e ensino
médio, e agora começamos a ver os resultados.
A população educada, nos últimos vinte
anos, aumentou enormemente. Enquanto isso, a educação
universitária ficou para trás. Com o crescimento
econômico, está emergindo uma nova classe média
que vai fazer uma pressão brutal sobre esse sistema.
Isso nos trará outro problema de capital humano: uma
grande quantidade de jovens chegando às portas das universidades,
mas não conseguindo vaga. O que vai fazer uma juventude
que nasceu na democracia, recebeu direitos políticos
e educação básica, mas não conseguiu
acesso à educação universitária
para competir no mundo globalizado? Esses se tornarão
os latino-americanos mais insatisfeitos. Estamos criando profissionais
sem lhes dar os instrumentos para trabalhar.
Veja
Suas pesquisas mostram que43% da população
latino-americana acha injusto que um trabalhador eficiente ganhe
mais que seu colega ineficiente. Nossos problemas são
culturais ou institucionais? Lagos Isso
tem a ver com a desigualdade social. Historicamente, os pobres
têm acesso limitado aos serviços educacionais,
e quem estuda pouco ganha pouco. Esse fato leva à crença
de que o pobre é injustamente castigado duas vezes: primeiro,
por não ter recebido educação e, segundo,
por ser mal pago. Esse é um tema cultural, pois faz com
que a eficiência profissional dos outros seja vista como
algo ruim, que deixa o pobre na rua. Falta na América
Latina uma mentalidade econômica competitiva, como na
Europa. A postura dos pobres acaba sendo a de esperar uma mudança
de gerações para resolver o problema. Por isso,
metade da população está satisfeita com
a competição econômica e a outra metade
reclama por mais justiça e igualdade social.
Veja
O continente deu uma guinada à esquerda nos
últimos anos? Lagos A interpretação
de que houve uma "esquerdização" do
continente é leviana. As transformações
na Bolívia, por exemplo, têm um fundo mais estrutural
que ideológico. Lá, 34% da população
fala línguas indígenas. Outros 30% são
mestiços, gente que não fala outro idioma além
do espanhol, mas que se sente ligada à cultura indígena.
Somados, eles representam mais da metade da população
e estão pedindo o reconhecimento dessa diversidade cultural.
Querem incluir essas culturas na nação boliviana,
e isso não é um processo ideológico. A
inclusão política de diferentes culturas em um
estado-nação já aconteceu há muito
tempo na Europa. Trata-se de um processo de formação
de uma nação, e não é exclusivo
da Bolívia. Acontece no Equador, na Guatemala e, em menor
escala, na República Dominicana. Dizer que é "esquerdização"
é simplificar, reduzir a questão. No caso de Lula
é o mesmo. Existe uma demanda pela resolução
de problemas históricos do Brasil, como a redução
da pobreza, da desigualdade, da criminalidade, que Lula traz
à tona. As esperanças se colocaram sobre uma pessoa,
um político de esquerda, mas as demandas são históricas.
Veja Lula
é o presidente mais bem avaliado pelos latino-americanos.
Ele desempenha bem o papel de líder da América
Latina? Lagos Claro que
não. Alguns anos atrás havia uma expectativa de
que finalmente a América Latina teria governantes em
condições de liderar a região. Nenhum deles
foi capaz de fazê-lo. Atualmente, seria natural que esse
papel fosse desempenhado por Lula, o presidente do país
mais poderoso e com boa imagem entre a população
regional. Como ele não assumiu esse lugar, Hugo Chávez
apareceu subitamente para ocupar esse vazio, falando em nome
da América Latina para outras partes do mundo. Lula não
está sendo o líder da região, apesar de
ser visto como tal pelos latino-americanos. Já Chávez
é um dos líderes com pior avaliação
no continente, à frente apenas de Fidel Castro. Fernando
Henrique, quando era presidente, disse-me: "O Brasil já
ocupa todo o meu tempo". Imagino que com Lula deva se passar
o mesmo.
Veja
Cuba não participa das pesquisas do Latinobarómetro.
Vocês tentaram aplicar os questionários lá? Lagos Sim, de
todas as maneiras. Estivemos a um centímetro de concretizar
um acordo e já tínhamos o questionário
aprovado. Na última hora o governo cubano decidiu colocar
um observador deles ao lado de cada um de nossos entrevistadores.
Com um funcionário do governo do lado, não íamos
conseguir resposta alguma. Eles não entendiam por que
nós não podíamos aceitar tal situação,
pois para os cubanos isso é normal. Pode-se fazer um
paralelo com a Hungria comunista, onde estive um mês antes
da queda do muro de Berlim e o primeiro-ministro Imre Pozsgay
me perguntou: "Por que você quer fazer pesquisas
de opinião aqui? Nós já temos os resultados:
80% da população sempre apóia o governo".
Ele me mostrou os dados, documentados, separados em tabelas.
Estava piamente convencido de que essa era a realidade.