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Auto-retrato
Qual foi a principal lição que o senhor tirou de sua experiência? Ganhei uma obsessão: ser absolutamente honesto com o paciente. Ou seja, não me limito mais a fazer um relato sobre a doença e seu prognóstico. O que isso significa? Se o doente corre o risco de ficar com paralisia facial depois de uma cirurgia, não digo apenas que ele poderá ter dificuldade para comer, como fazia antes. "Dificuldade para comer" é muito mais do que isso. O paciente não conseguirá segurar o alimento com os dentes. A comida vai ficar presa entre a gengiva e o lábio sem que ele perceba. Para o médico, essas situações tendem a ser banais. Mas não para o doente. Minha doença me fez um médico melhor. Aprendi a falar a linguagem do paciente. Na prática, o que o paciente ganha com isso? Segurança e tranqüilidade. Faço de tudo para que o paciente não seja pego de surpresa. Claro que nem todo paciente quer saber de tudo e eu percebo e respeito esse limite. Mas, para a maioria, falar a verdade é sinal de respeito. Certa vez, uma vítima de câncer na língua perguntou se, depois da retirada do tumor, poderíamos fazer a reconstituição do órgão. Antes eu teria dito simplesmente que sim. De fato, fazemos a reconstituição mas não aquela imaginada pelo paciente. A sensibilidade da língua, por exemplo, jamais é recuperada. Hoje gasto o tempo que for necessário para informar o doente. Minhas consultas têm uma espera média de duas horas. E ninguém reclama. Mesmo conhecendo profundamente a doença pela qual passou, o senhor foi alguma vez surpreendido como paciente? Os exames preliminares não mostraram o formato real do nódulo. Além da glândula parótida, os médicos tiveram de retirar 8 centímetros do nervo da face, o que me causou a paralisia facial. A cirurgia, que deveria ter durado três horas, durou onze. O procedimento todo foi absolutamente correto. Em tese, eu sabia que havia esses riscos, mas mesmo assim fui pego de surpresa.
O que aconteceu? Quando acordei da operação, não reconheci o teto do lugar onde estava. Eu esperava estar na sala do pós-operatório, mas estava na UTI. Tentei falar, mas estava entubado. Também não sentia minha cabeça no travesseiro. Tentei fazer mil diagnósticos, mas não conseguia chegar a nenhum. Só soube o que havia acontecido, que o tumor era de fato benigno, quando recebi a visita de meus médicos. Esses quinze minutos de espera foram desesperadores. Não desejo isso a ninguém. O senhor se sentiu alguma vez desrespeitado como paciente? Eu estava recém-operado, com dor, sendo cutucado a todo momento para tomar remédio ou ser avaliado pela equipe de enfermagem, e os médicos vinham me dizer que eu estava ótimo. Mentira. Ao ouvir aquilo, eu me sentia um bobo. Desde então nunca mais digo frases feitas do tipo "como você está bem!" para uma pessoa operada há pouco tempo. Hoje digo que ela me parece melhor e que o tratamento caminha dentro da normalidade. O senhor ficou um ano com paralisia facial e até hoje tem algumas seqüelas. Como foi sua recuperação? Uma semana depois da cirurgia eu já estava trabalhando. Fiz um ano de sessões diárias de fisioterapia. Foi muito difícil. O que ajudou na minha recuperação foi o apoio da minha mulher e das minhas filhas. Senti na pele como é importante o conforto das pessoas queridas. Hoje, quando entro num quarto e encontro meu paciente rodeado por parentes e amigos, acho ótimo. Passei a tolerar mais as visitas.
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