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Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
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CINEMA

Divulgação

O Fio: alta voltagem emocional


O Fio da Inocência
(Felicia's Journey, Canadá/Inglaterra, 1999. Desde sexta-feira em São Paulo e Rio) – O diretor canadense Atom Egoyan é um especialista em dissecar situações de alta voltagem emocional com um olhar que beira o científico. Em O Fio da Inocência, ele põe sob seu microscópio Joseph (Bob Hoskins), um homem que vive enclausurado nos anos 50, entre as memórias e o ambiente físico de sua infância. Tanto maior será o drama que segue, portanto, quando a jovem Felicia (Elaine Cassidy) conhece Joseph. Ela está numa jornada oposta à dele: grávida, deixou sua Irlanda natal atrás do pai de seu filho, numa busca que se anuncia infrutífera. Está perdendo as ilusões e a inocência, e arrisca-se a perder a vida também. Egoyan tira dessa história um estudo sobre os possíveis caminhos do ser humano – superação ou negação – diante da rejeição. Uma obra de mestre, que dá ainda a chance ao inglês Bob Hoskins de moldar uma das melhores atuações de sua carreira.

Surf Adventures – O Filme (Brasil, 2001. Desde sexta-feira em cartaz em circuito nacional) – Poucos esportes são tão fotogênicos quanto o surfe, e poucos filmes sobre o tema poderiam resultar tão simpáticos quanto esta produção brasileira dirigida por Arthur Fontes. A equipe de Arthur acompanha alguns dos astros nacionais da prancha – como Teco Padaratz – e outros talentos que ainda estão despontando em passagens por Fernando de Noronha, Indonésia, África do Sul, Havaí e Califórnia. Há um pouco de tudo o que caracteriza os bons exemplares do gênero: ótima trilha (quase só de rock e pop nacional), depoimentos dos surfistas sobre seu estilo de vida zen, pitadas de turismo antropológico e, claro, manobras filmadas com muita perícia e originalidade.

 

DISCOS

Vanilla Sky, vários intérpretes (WEA) – Ex-jornalista da revista musical Rolling Stone, o cineasta Cameron Crowe sabe usar todas as suas conexões para produzir trilhas sonoras de altíssima qualidade. Para Vanilla Sky, Crowe não só conseguiu uma canção inédita de Paul McCartney (a faixa-título) como ainda convenceu Peter Gabriel a regravar um de seus principais sucessos: Solsbury Hill, balada de 1977 que ganhou tratamento acústico. Outra curiosidade é a atriz Cameron Diaz mostrando seus dotes vocais sob o codinome Julianna Gianni na engraçadinha I Fall Apart. No restante do álbum, veteranos como Monkees e Todd Rundgren dividem espaço com astros da música alternativa, como os exóticos islandeses do Sigur Rós.

Asleep in the Back, Elbow (Sum Records) – A enfumaçada Manchester é uma espécie de Cubatão da Inglaterra, mas também a cidade natal de algumas das maiores bandas de rock das últimas décadas, como Smiths e Joy Division. O Elbow não faz feio nessa companhia. Asleep in the Back, seu álbum de estréia, entrou nas listas de melhores discos de 2001 de várias revistas de música da Europa. São dez canções hipnóticas, repletas de teclados, linhas de baixo com influência dub (uma espécie de reggae psicodélico) e vocais expressivos – que ficam a cargo do líder do grupo, Guy Garvey. Faixas como Red, Don't Mix Your Drinks e Bitten by the Tailfly têm poder para seduzir tanto os fãs da fase psicodélica do Pink Floyd quanto os admiradores do grupo pop ultramodernoso Radiohead.

 

DVD

Vivaldi: the Four Seasons, Nigel Kennedy & the English Chamber Orchestra (EMI) – Lançada em 1989, a versão do violinista inglês para a peça mais famosa do compositor barroco italiano Antonio Vivaldi é um dos discos de música clássica mais vendidos de todos os tempos. Este DVD oferece uma nova oportunidade para conferir a destreza do instrumentista – e sua maneira exuberante de apresentar-se. Kennedy é uma espécie de Jimi Hendrix da música clássica. Tem dedos agilíssimos e uma dose considerável de criatividade. Além disso, adota penteados e um estilo de vida mais comum em astros do rock do que em músicos eruditos: não é raro ele destruir os quartos de hotel por onde passa. Além da recriação da obra de Vivaldi (Kennedy colocou mais velocidade ainda nos solos), o disco traz cenas de ensaios e entrevistas com o violinista.

 

LIVRO

Mulher de Pedra, de Tariq Ali (tradução de Maria Alice Máximo; Record; 320 páginas; 32 reais) – Romancista paquistanês radicado na Inglaterra, Tariq Ali dedica-se ao que chama de "desafiar os preconceitos do leitor ocidental" em relação à cultura islâmica. Calma. Não se trata de literatura com objetivos doutrinários. Dono de um belo texto, o escritor apenas conta histórias do ponto de vista de personagens muçulmanos – e não deixa de denunciar tradições caducas. Mulher de Pedra fala da opressão feminina, mas também revela a notável influência que mulheres podem ter no âmbito familiar do Islã. O livro mostra a decadência de uma família turca no fim do século XIX. A mulher de pedra do título é uma estátua à qual a narradora Nilofer se dirige, como tantas de suas ancestrais, para contar sua história.

 

OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA

Ana Hernandez Khan
Catherine: quarenta de uma vez?

É irrelevante saber se o que se lê em A Vida Sexual de Catherine M. (tradução de Claudia Fares; Ediouro; 216 páginas; 24,90 reais), em quinto lugar na categoria de não-ficção, tem algo de imaginação ou é relato fiel das aventuras apimentadíssimas de sua autora – como trombeteia a própria. Para além de seu aspecto chocante, o livro da crítica de arte francesa Catherine Millet tem um evidente objetivo "cabeça": expor a banalização do sexo. Dito assim parece uma tese de sociólogo francês – e, no fundo, o espírito é esse mesmo. A autora, de 53 anos, descreve suas supostas traquinagens sexuais sem economizar na pornografia (vale dizer que seu marido lançou simultaneamente outro livro, com fotos dela nua). Conta que se iniciou no prazer aos 17 anos e logo na seqüência já debutava em sua primeira relação a quatro. O enredo é simplesmente uma série de libertinagens consumadas em qualquer canto imaginável – um museu, um cemitério, um armário, a boléia de um caminhão. Catherine (que antes preferia escrever monografias sobre arte conceitual) narra orgias com até 150 "atores", explica como se relacionou com quarenta homens de uma vez, fala de suas carícias com outras mulheres e travestis. Não é difícil perceber, contudo, que há algo de artificial por trás de tanta vibração carnal. Sua linguagem é fria como a de um boletim clínico. Se o objetivo da autora era menos excitar os leitores e mais mostrar como o sexo pode se tornar uma experiência mecânica, ele está plenamente cumprido.

 

 

 

   
 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler.

 

   
 
   
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