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Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
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Uma tragédia
sul-americana

"Desresponsabilizados de aspectos
essenciais da gestão pública, os
governadores e o Congresso argentinos
tornaram-se irresponsáveis"



Ilustração Ale Setti


Talvez seja o efeito sobre quem vê as coisas de longe. Talvez a impressão se restrinja aos brasileiros mais velhos, que compartilharam com as gerações precedentes a admiração mesclada de inveja pela prosperidade argentina. Mas o noticiário recente e as imagens da televisão mostrando o sofrimento dos argentinos são de partir o coração.

No verão austral, desprovidos das roupas quentes que lhes davam o jeito europeu, numa cidade que ainda ostenta sua grandeza passada, os portenhos – descamisados à vera – choram, gritam, quebram, em total desespero. Vêm à memória outras cenas chocantes: as da fuga desabalada dos albaneses. Há dez anos, na altura em que milhares de pessoas meio nuas deixavam a Albânia, entulhando-se em navios que as levavam até o litoral italiano. De fato, a similitude do destino dos que escapavam de meio século de comunismo radical no centro da Europa e dos que sofrem de meio século de capitalismo leviano na América do Sul veio à tona. Indignado com as pressões do FMI e de Washington sobre seu país, o governador de Buenos Aires declarou: "Que querem da Argentina? Querem levá-la a ser um país absolutamente fora do sistema? Querem que a Argentina seja a Albânia ou o Afeganistão?"

Durante dois terços do século XX, o país parecia melhor que a Europa. Assim, a Argentina era a Europa próspera, sem as catástrofes das duas guerras mundiais. Nesse sentido, ultrapassa o entendimento ler agora, na imprensa americana e na européia, que a tragédia rio-platense coroa décadas de incúria ou, pior ainda, que o século XX foi "o século perdido" para a Argentina.

No discurso de lançamento de sua campanha à Presidência, José Serra, que pertence a uma geração de admiradores da Argentina e de discípulos do economista industrializante argentino Raul Prebisch (1901-1985), mencionou o drama do país vizinho. Depois de observar que o mundo é feito de nações soberanas, com suas diferenças e seus interesses próprios, Serra afirmou: "Países que seguiram, ou foram obrigados a seguir, as certezas dos outros pagaram caro pelas más escolhas. O que aconteceu na Argentina é um exemplo do que não devemos fazer".

Dora Kramer, no Estadão (20 de janeiro), viu nessa e noutras passagens do discurso uma crítica à política de câmbio quase fixo, seguida em 1999 por Malan e combatida por Serra. O debate sobre o "cavallismo", sobre a paridade cambial suicida, estará certamente na pauta da campanha presidencial brasileira. Mas é fundamental extrair também outras lições da tragédia argentina, como "exemplo do que não devemos fazer".

No plano político, é necessário apontar a disfunção do sistema político do país e, em particular, do federalismo. O descompasso entre a política do governo central e a administração dos governadores provinciais, tradicional na história argentina, acirrou-se no novo quadro internacional. Na verdade, o malabarismo da gestão cambial e financeira excluía o entendimento institucional interno. Daí os superpoderes do ministro Cavallo, daí o escanteio dos parlamentares e dos governadores. Desresponsabilizados de aspectos essenciais da gestão pública, os governadores e o Congresso tornaram-se irresponsáveis.

Em outra escala, essa mesma disfunção do federalismo também assola o Brasil. O pavoroso aumento da violência – que já data de mais de uma década – está sendo objeto de uma querela grotesca sobre as responsabilidades respectivas do governo federal e dos governadores nesse destrambelho. Simultaneamente, a epidemia de dengue hemorrágica no Rio de Janeiro – anunciada há tempos pelos sanitaristas – dá lugar a uma querela entre o prefeito da cidade e o governador do Estado a respeito da obrigação municipal ou estadual de combater a praga. Como mostra o caso argentino, as autoridades que se descarregam de suas responsabilidades são indignas do exercício das funções públicas.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris - Sorbonne (lfa@workmail.com)


 
 
   
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