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Uma
tragédia
sul-americana
"Desresponsabilizados
de aspectos
essenciais da gestão pública, os
governadores e o Congresso argentinos
tornaram-se irresponsáveis"
Ilustração Ale Setti
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Talvez seja o efeito sobre quem vê as coisas de longe. Talvez a
impressão se restrinja aos brasileiros mais velhos, que compartilharam
com as gerações precedentes a admiração mesclada
de inveja pela prosperidade argentina. Mas o noticiário recente
e as imagens da televisão mostrando o sofrimento dos argentinos
são de partir o coração.
No verão
austral, desprovidos das roupas quentes que lhes davam o jeito europeu,
numa cidade que ainda ostenta sua grandeza passada, os portenhos
descamisados à vera choram, gritam, quebram, em total desespero.
Vêm à memória outras cenas chocantes: as da fuga desabalada
dos albaneses. Há dez anos, na altura em que milhares de pessoas
meio nuas deixavam a Albânia, entulhando-se em navios que as levavam
até o litoral italiano. De fato, a similitude do destino dos que
escapavam de meio século de comunismo radical no centro da Europa
e dos que sofrem de meio século de capitalismo leviano na América
do Sul veio à tona. Indignado com as pressões do FMI e de
Washington sobre seu país, o governador de Buenos Aires declarou:
"Que querem da Argentina? Querem levá-la a ser um país absolutamente
fora do sistema? Querem que a Argentina seja a Albânia ou o Afeganistão?"
Durante
dois terços do século XX, o país parecia melhor que
a Europa. Assim, a Argentina era a Europa próspera, sem as catástrofes
das duas guerras mundiais. Nesse sentido, ultrapassa o entendimento ler
agora, na imprensa americana e na européia, que a tragédia
rio-platense coroa décadas de incúria ou, pior ainda, que
o século XX foi "o século perdido" para a Argentina.
No discurso
de lançamento de sua campanha à Presidência, José
Serra, que pertence a uma geração de admiradores da Argentina
e de discípulos do economista industrializante argentino Raul Prebisch
(1901-1985), mencionou o drama do país vizinho. Depois de observar
que o mundo é feito de nações soberanas, com suas
diferenças e seus interesses próprios, Serra afirmou: "Países
que seguiram, ou foram obrigados a seguir, as certezas dos outros pagaram
caro pelas más escolhas. O que aconteceu na Argentina é
um exemplo do que não devemos fazer".
Dora Kramer,
no Estadão (20 de janeiro), viu nessa e noutras passagens
do discurso uma crítica à política de câmbio
quase fixo, seguida em 1999 por Malan e combatida por Serra. O debate
sobre o "cavallismo", sobre a paridade cambial suicida, estará
certamente na pauta da campanha presidencial brasileira. Mas é
fundamental extrair também outras lições da tragédia
argentina, como "exemplo do que não devemos fazer".
No plano
político, é necessário apontar a disfunção
do sistema político do país e, em particular, do federalismo.
O descompasso entre a política do governo central e a administração
dos governadores provinciais, tradicional na história argentina,
acirrou-se no novo quadro internacional. Na verdade, o malabarismo da
gestão cambial e financeira excluía o entendimento institucional
interno. Daí os superpoderes do ministro Cavallo, daí o
escanteio dos parlamentares e dos governadores. Desresponsabilizados de
aspectos essenciais da gestão pública, os governadores e
o Congresso tornaram-se irresponsáveis.
Em outra
escala, essa mesma disfunção do federalismo também
assola o Brasil. O pavoroso aumento da violência que já
data de mais de uma década está sendo objeto de uma
querela grotesca sobre as responsabilidades respectivas do governo federal
e dos governadores nesse destrambelho. Simultaneamente, a epidemia de
dengue hemorrágica no Rio de Janeiro anunciada há
tempos pelos sanitaristas dá lugar a uma querela entre o
prefeito da cidade e o governador do Estado a respeito da obrigação
municipal ou estadual de combater a praga. Como mostra o caso argentino,
as autoridades que se descarregam de suas responsabilidades são
indignas do exercício das funções públicas.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris - Sorbonne (lfa@workmail.com)
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