Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
Artes e Espetáculos Ensaio
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
  A Globo aposta forte com Big Brother
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet
Efeito Colateral, com Arnold Schwarzenegger
O verdadeiro dom João VI
Aventura e tragédia nos vulcões
A velha-guarda do samba
Obras de Albert Eckout pela primeira vez no Brasil

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Roberto Pompeu de Toledo

A candidata
e a cerveja

Considerações em torno de um
anúncio
que casa a "lourinha"
com o voto, a política com a
cevada
e o lúpulo

A número 1!!! A música é a mesma, o mesmo o ritmo febril das imagens que se sucedem, o mesmo o gesto de fazer o número 1 erguendo o dedo indicador. Tudo como no anúncio da cerveja. Só que, em vez da cerveja, o que se tenta vender é a candidata. Sai a Brahma, entra Roseana Sarney. Se o leitor não viu, teve aqui a descrição do anúncio que foi ao ar semanas atrás, na televisão, mais um na série com que o PFL propagandeia sua candidata à Presidência da República. A própria Roseana aparece fazendo o gesto do número 1. O clima todo é de festa. Não aparecem cervejas, mas quem guarda na lembrança o anúncio da Brahma – e quem não guarda? – terá tido a mente invadida por figuras de garrafas se abrindo e copos levantando-se em celebração, goles empurrados com delícia goela abaixo e espuma escorrendo. O anúncio é o apoteótico casamento da política com a cevada e o lúpulo, da "lourinha" com a intenção de voto, do prazer e do barato com a urna. Não se viu, na atual temporada eleitoral, ou pré-temporada eleitoral, peça publicitária mais intrigante. Que estará querendo ela dizer? Será que funciona? Especulemos em torno dessas perguntas.

Sendo o publicitário Nizan Guanaes, um dos mais conhecidos e respeitados do país, o responsável pela campanha de Roseana, e não havendo dúvidas quanto à correção e honestidade desse profissional, é lícito partir da premissa de que ele quis o bem da candidata. Ao inseri-la num ambiente cervejeiro, caracterizado, segundo nos faz crer a cultura publicitária, por biquínis, verão, juventude e ócio, ele quis identificá-la com as alegrias da vida. O ritmo do anúncio leva a idéias semelhantes. Tudo ocorre de forma rápida e entrecortada, dentro do padrão videoclipe de qualidade. A intenção só pode ser mostrar que Roseana é candidata feita sob medida para a era do clipe e do chip, da velocidade, da imagem e do pedacinho. Enfim, há a insistência, nas falas e nos gestos, no número 1, e com isso se transmitem duas mensagens simultâneas. A primeira é a da vitória. O número 1, ou, no caso, a número 1, é a que chega em primeiro lugar, a primeirona, a maior. Na verdade, Roseana não é (ainda) a número 1 nas pesquisas, mas e daí? A Brahma também não é a número 1 entre as cervejas. O verdadeiro número 1 é Lula, no primeiro caso, e a Skol no segundo. O que importa, como em muitas coisas na vida, mas especialmente na publicidade, não é a vitória inequívoca, inconteste, batata. É a sensação de vitória.

A segunda mensagem do gesto de número 1 é a da singularidade. Roseana é uma. Roseana é única. Quanto a esse ponto, chega-se à conclusão de que Roseana é realmente única quando se considera o contexto do anúncio e tenta-se aplicá-lo a outros políticos. Imagine-se Lula no mesmo ambiente cervejeiro, ao som da música da Brahma, o indicador para cima. Ou José Serra, ou Ciro Gomes. Ou, pior ainda, ACM, FHC, Itamar... Não dá. Eles casam mal com a implícita idéia de sol e biquíni, férias e farra, e o formato de clipe. Ficariam ridículos.

Até aqui se ressaltaram os aspectos supostamente positivos do anúncio para os interesses da candidata. O problema é que se pode fazer uma leitura dos mesmos itens ao inverso, daí resultando conclusões opostas. Talvez não seja verdade, mas é nobre dizer, e mais nobre ainda pensar, que cerveja é uma coisa, e política outra. Ou, por outra, que uma coisa é a propaganda comercial, e outra a propaganda política. Que candidata é essa, pensará então o eleitor, que estão querendo me servir estupidamente gelada? E como seria a Presidência dela, uma espécie de Carnaval, o Palácio do Planalto tornado o camarote da Brahma? Tomado pela idéia de cerveja, um eleitor acabará identificando a candidata com aquela parte que fica em cima do copo, branquinha. A espuma. E lhe ocorrerá que espuma é espuma, um pitoresco nada, matéria sem recheio, destinada à autodissolução. Ao deparar a fotografia da candidata, no terminal de computador em que clicará seu voto, outro eleitor estranhará: "Não, essa não. É a moça da cerveja. Que está fazendo aqui? Deve ser engano". Resta que, sim, Roseana é única. Nenhum outro político, como demonstrado acima, ficaria bem em tal papel. Ou melhor seria dizer que nenhum outro se prestaria a tal papel? O eleitor mais crítico, ou mais ranheta, ou mais desconfiado, a esta altura teria chegado à indagação mais devastadora que o anúncio provoca: será que estão tentando desmoralizá-la?

O anúncio tem um lado simpático e outro arrogante. O simpático é que é engraçado. Brinca com a fronteira entre o que se convencionou que é sério e o que se convencionou que não é. O arrogante decorre das indagações que vieram à tona quando Roseana começou a despontar nas pesquisas. A que vem essa candidatura? Quais são suas propostas? Não poucos foram tomados pela suspeita de que, como Fernando Collor, em 1989, ela estaria sendo vendida como sabão em pó. O anúncio veio a seguir, com a resposta mais sarcástica que tais questões suscitavam: "Não é como sabão em pó. É como cerveja".

   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Livraria Nobel
 
Ingressos
Ingresso.com.br
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS