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Roberto
Pompeu de Toledo
A candidata
e a cerveja
Considerações
em torno
de um
anúncio que casa a "lourinha"
com o voto, a política com a
cevada e o lúpulo
A número
1!!! A música é a mesma, o mesmo o ritmo febril das imagens
que se sucedem, o mesmo o gesto de fazer o número 1 erguendo o
dedo indicador. Tudo como no anúncio da cerveja. Só que,
em vez da cerveja, o que se tenta vender é a candidata. Sai a Brahma,
entra Roseana Sarney. Se o leitor não viu, teve aqui a descrição
do anúncio que foi ao ar semanas atrás, na televisão,
mais um na série com que o PFL propagandeia sua candidata à
Presidência da República. A própria Roseana aparece
fazendo o gesto do número 1. O clima todo é de festa. Não
aparecem cervejas, mas quem guarda na lembrança o anúncio
da Brahma e quem não guarda? terá tido a mente
invadida por figuras de garrafas se abrindo e copos levantando-se em celebração,
goles empurrados com delícia goela abaixo e espuma escorrendo.
O anúncio é o apoteótico casamento da política
com a cevada e o lúpulo, da "lourinha" com a intenção
de voto, do prazer e do barato com a urna. Não se viu, na atual
temporada eleitoral, ou pré-temporada eleitoral, peça publicitária
mais intrigante. Que estará querendo ela dizer? Será que
funciona? Especulemos em torno dessas perguntas.
Sendo o
publicitário Nizan Guanaes, um dos mais conhecidos e respeitados
do país, o responsável pela campanha de Roseana, e não
havendo dúvidas quanto à correção e honestidade
desse profissional, é lícito partir da premissa de que ele
quis o bem da candidata. Ao inseri-la num ambiente cervejeiro, caracterizado,
segundo nos faz crer a cultura publicitária, por biquínis,
verão, juventude e ócio, ele quis identificá-la com
as alegrias da vida. O ritmo do anúncio leva a idéias semelhantes.
Tudo ocorre de forma rápida e entrecortada, dentro do padrão
videoclipe de qualidade. A intenção só pode ser mostrar
que Roseana é candidata feita sob medida para a era do clipe e
do chip, da velocidade, da imagem e do pedacinho. Enfim, há a insistência,
nas falas e nos gestos, no número 1, e com isso se transmitem duas
mensagens simultâneas. A primeira é a da vitória.
O número 1, ou, no caso, a número 1, é a que
chega em primeiro lugar, a primeirona, a maior. Na verdade, Roseana não
é (ainda) a número 1 nas pesquisas, mas e daí? A
Brahma também não é a número 1 entre as cervejas.
O verdadeiro número 1 é Lula, no primeiro caso, e a Skol
no segundo. O que importa, como em muitas coisas na vida, mas especialmente
na publicidade, não é a vitória inequívoca,
inconteste, batata. É a sensação de vitória.
A segunda
mensagem do gesto de número 1 é a da singularidade. Roseana
é uma. Roseana é única. Quanto a esse ponto, chega-se
à conclusão de que Roseana é realmente única
quando se considera o contexto do anúncio e tenta-se aplicá-lo
a outros políticos. Imagine-se Lula no mesmo ambiente cervejeiro,
ao som da música da Brahma, o indicador para cima. Ou José
Serra, ou Ciro Gomes. Ou, pior ainda, ACM, FHC, Itamar... Não dá.
Eles casam mal com a implícita idéia de sol e biquíni,
férias e farra, e o formato de clipe. Ficariam ridículos.
Até
aqui se ressaltaram os aspectos supostamente positivos do anúncio
para os interesses da candidata. O problema é que se pode fazer
uma leitura dos mesmos itens ao inverso, daí resultando conclusões
opostas. Talvez não seja verdade, mas é nobre dizer, e mais
nobre ainda pensar, que cerveja é uma coisa, e política
outra. Ou, por outra, que uma coisa é a propaganda comercial, e
outra a propaganda política. Que candidata é essa, pensará
então o eleitor, que estão querendo me servir estupidamente
gelada? E como seria a Presidência dela, uma espécie de Carnaval,
o Palácio do Planalto tornado o camarote da Brahma? Tomado pela
idéia de cerveja, um eleitor acabará identificando a candidata
com aquela parte que fica em cima do copo, branquinha. A espuma. E lhe
ocorrerá que espuma é espuma, um pitoresco nada, matéria
sem recheio, destinada à autodissolução. Ao deparar
a fotografia da candidata, no terminal de computador em que clicará
seu voto, outro eleitor estranhará: "Não, essa não.
É a moça da cerveja. Que está fazendo aqui? Deve
ser engano". Resta que, sim, Roseana é única. Nenhum outro
político, como demonstrado acima, ficaria bem em tal papel. Ou
melhor seria dizer que nenhum outro se prestaria a tal papel? O
eleitor mais crítico, ou mais ranheta, ou mais desconfiado, a esta
altura teria chegado à indagação mais devastadora
que o anúncio provoca: será que estão tentando desmoralizá-la?
O anúncio
tem um lado simpático e outro arrogante. O simpático é
que é engraçado. Brinca com a fronteira entre o que se convencionou
que é sério e o que se convencionou que não é.
O arrogante decorre das indagações que vieram à tona
quando Roseana começou a despontar nas pesquisas. A que vem essa
candidatura? Quais são suas propostas? Não poucos foram
tomados pela suspeita de que, como Fernando Collor, em 1989, ela estaria
sendo vendida como sabão em pó. O anúncio veio a
seguir, com a resposta mais sarcástica que tais questões
suscitavam: "Não é como sabão em pó. É
como cerveja".
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