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Além do glutão
Dom João
VI era uma caricatura
ambulante. Mas não diga isso
perto de um historiador sério
Marcelo Marthe

Imagem
de dom João, a figura histórica: reinado reavaliado
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Toda vez
que dom João VI entra em cena na série O Quinto dos Infernos,
da Rede Globo, a esculhambação atinge um nível
crítico. O personagem é glutão. Além de comer
até nove frangos por dia, carrega coxinhas nos bolsos. Ele é
medroso. Mal sua mulher, a irascível Carlota Joaquina, começa
a falar mais grosso, dom João se esconde debaixo da cama e choraminga
o bordão: "Ai, Jesus!". Ele também é tolo e hesitante
do tipo que se deixa manipular por conselheiros piores que víboras
e é incapaz de tomar decisões. Mas será que o dom
João VI da vida real só tinha mesmo defeitos?
Estereótipos
como esses, cristalizados ao redor da imagem do monarca português,
têm seu fundo de verdade. Em sua biografia, há indícios
de que ele era de fato um governante inseguro. Gostava de se cercar de
figuras autoritárias, que nem sempre lhe prestavam assessoria sincera.
Também não se poderia dizer que fosse um exemplo de elegância.
"Baixo, gordo, sanguíneo, tinha de aristocrático as mãos
e pés muito pequenos, mas de vulgar as coxas e pernas muito grossas
mesmo em relação à corpulência, e sobretudo
um rosto redondo sem majestade nem sequer distinção", descreve
o historiador Oliveira Lima em seu clássico Dom João
VI no Brasil. Hoje, no entanto, sabe-se que esses traços negativos
foram superdimensionados com objetivos políticos. A "difamação"
tem duas fontes de origem. Nasceu em Portugal, onde os liberais que lutavam
contra o absolutismo no século XIX procuraram "sujar" a memória
de tudo que lembrasse o antigo regime. E vem do Brasil, onde as chacotas
coincidem com a campanha pela República, que também procurava
varrer do mapa os valores da realeza.
Divulgação

Dom
João, na série O Quinto dos Infernos: Ai, Jesus!
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Mas
já é tempo de trazer à tona o "outro lado" de sua
majestade. Nos últimos anos, o período que vai do início
de sua regência, em 1792, até sua morte, em 1826, tem despertado
interesse renovado nos acadêmicos portugueses. "Muito disparate
já se disse sobre dom João VI. Chegou a hora de reconhecer
nele um estadista que realizou boas proezas e conduziu com sucesso um
país que passava por momentos conturbadíssimos", diz o historiador
José Subtil, da Universidade de Lisboa, um entusiasta do governo
joanino. Dom João não fora preparado para ser rei. Teve
de assumir o leme devido à morte de seu irmão mais velho,
dom José, e à loucura da mãe, a rainha dona Maria
I. Para complicar, a coroa portuguesa tinha de se equilibrar entre forças
antagônicas. A França de Napoleão Bonaparte ameaçava
invadir o país caso ele não abrisse mão de seus negócios
com a Inglaterra. Isso era impensável na prática, já
que Portugal tinha total dependência dos ingleses. Enquanto isso,
dentro do reino crescia o embate entre absolutistas e defensores do liberalismo,
inspirados pelos ideais da Revolução Francesa. O temperamento
evasivo do monarca caiu à perfeição naqueles tempos
delicados. Parecia pender ora para um lado, ora para o outro, e com isso
continha os ânimos mais exaltados. "Ele tinha inimigos por todos
os lados, mas sabia conduzir bem o jogo", diz Subtil.
Classificar
a vinda da família real para o Brasil de "fuga" como se
viu em O Quinto dos Infernos é também uma
gafe. A operação não teve nada de impensada. No século
XVII, pouco depois de Portugal restaurar sua independência perante
a Espanha, o padre Antônio Vieira defendia idéia parecida.
Cinqüenta anos antes de dom João levá-la a cabo, o
marquês de Pombal também chegou a cogitar a transferência
da sede do reino para o além-mar. Com a vinda dos Bragança
e um séquito de 20.000 pessoas para
o Rio de Janeiro, evitaram-se duas calamidades anunciadas. Dom João
escapou da deposição e do aprisionamento pelas tropas francesas.
Ao mesmo tempo, impediu-se que as colônias ficassem ao deus-dará,
sob risco inclusive de desagregação.
Historiadores
e humoristas concordam num ponto, porém: Carlota Joaquina foi a
maior cruz na vida do rei. Além de traí-lo à luz
do dia, a megera acalentava ambições políticas e
semeava a cizânia. Em 1805, tentou dar um golpe, alegando que dom
João havia enlouquecido. Mais tarde, no Brasil, instigou o plano
expansionista de tomar o poder em Buenos Aires e ser coroada rainha daquela
região. Conta-se que dom João se manteve a princípio
calado se desse certo, não só ampliaria seu território
como se livraria do estorvo conjugal. Devido à pressão inglesa,
no entanto, cortou as asas da mulher. Em 2000, cientistas exumaram as
vísceras de dom João VI e comprovaram uma suspeita antiga:
ao que tudo indica, ele morreu envenenado por arsênico. Não
se exclui a hipótese de que uma certa integrante da família
tenha cometido o crime.
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