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Um
país de diletantes
"No
Brasil, ninguém se corrompe
de forma direta, profissional.
Camuflamos nosso mercenarismo
com
singelos diminutivos"
O ponto
de encontro dos homossexuais cariocas é a Rua Farme de Amoedo,
em Ipanema. Com seu sofisticado senso de humor, os cariocas a apelidaram
de Farme de Amoaids. Os homossexuais se reúnem sobretudo em dois
bares, Bofetada e Sindicato do Chopp. Aos domingos, todos se transferem
para a praia, na desembocadura da mesma rua. Como os outros banhantes,
tomam sol, jogam frescobol e enchem a cara de caipirinha. A única
diferença é que seus guarda-sóis, em vez de serem
patrocinados pelo Bradesco ou pela Embratel, anunciam a discoteca Le Boy.
O dono da
Le Boy é o francês Gilles Lascar. Fugiu para o Rio de Janeiro
em 1983, temendo que os comunistas franceses, aliados do novo governo
Mitterrand, começassem a perseguir os homossexuais. Gostou tanto
da cidade que resolveu instalar-se por aqui e abrir uma discoteca para
homossexuais. Foi sucesso imediato. Hoje, além da Le Boy, Lascar
possui uma sauna, uma loja de roupas íntimas e uma academia de
ginástica. Também acaba de abrir a discoteca La Girl, para
lésbicas. Na Le Boy apresentam-se ícones da cultura homossexual,
como Alexandre Frota e Gretchen, a nossa Cher. E é em sua pista
de dança que Vera Fischer costuma exibir-se para os fotógrafos.
Lascar acha
que o Rio de Janeiro tem tudo para entrar na lucrativa rota do turismo
homossexual. Além de seus encantos naturais, a cidade aceita sem
problemas as preferências sexuais de cada um. De fato, nenhum padreco
de periferia ou dona-de-casa puritana ousou manifestar-se contra a entrega
do filho de Cássia Eller a sua companheira lésbica. Pelo
contrário: o avô da criança foi submetido a um linchamento
público, embora ele tenha toda a legitimidade para pleitear a guarda
do neto e sua respectiva herança. O Rio de Janeiro oferece outro
importante atrativo aos homossexuais, segundo Lascar: a qualquer hora
do dia ou da noite, gastam-se menos de dez minutos para encontrar um parceiro.
Ele já fez o teste. É científico. Em Paris, uma caçada
semelhante leva no mínimo duas horas. O parceiro a que se refere
Lascar é a pagamento, claro. O fato de o Rio de Janeiro ter mais
miseráveis que Paris facilita as coisas. Porém há
mais um ponto a favor dos garotos de programa cariocas: eles sempre dão
a impressão de que é a primeira vez que fazem sexo por dinheiro.
Não se comportam como profissionais. Nem têm uma tarifa definida:
limitam-se a pedir, no fim do ato, uma "ajudinha".
O mesmo
acontece na discoteca Help, em Copacabana. Só que ali não
são atendidos os turistas homossexuais, e sim os heterossexuais.
Os italianos que freqüentam a Help voltam para casa gabando-se de
ter conquistado uma nativa, porque as garotas de programa que ali trabalham
fazem de conta que não são prostitutas, uma vez que não
negociam antecipadamente o preço de seus serviços, deixando
a retribuição por conta da generosidade do cliente, sob
a forma de "presentinho". Na verdade, essa é a característica
geral do país: camuflamos nosso mercenarismo com singelos diminutivos.
O policial, para manter as aparências, nunca cobra um suborno, mas
uma "cervejinha". O fiscal da prefeitura leva uma "caixinha". O político
dá uma "azeitadinha". Ninguém se corrompe de forma direta,
metódica, profissional. A gente é impreciso e diletante
até para se vender.
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