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Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
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Um país de diletantes

"No Brasil, ninguém se corrompe
de forma direta, profissional.
Camuflamos nosso mercenarismo
com singelos diminutivos"

O ponto de encontro dos homossexuais cariocas é a Rua Farme de Amoedo, em Ipanema. Com seu sofisticado senso de humor, os cariocas a apelidaram de Farme de Amoaids. Os homossexuais se reúnem sobretudo em dois bares, Bofetada e Sindicato do Chopp. Aos domingos, todos se transferem para a praia, na desembocadura da mesma rua. Como os outros banhantes, tomam sol, jogam frescobol e enchem a cara de caipirinha. A única diferença é que seus guarda-sóis, em vez de serem patrocinados pelo Bradesco ou pela Embratel, anunciam a discoteca Le Boy.

O dono da Le Boy é o francês Gilles Lascar. Fugiu para o Rio de Janeiro em 1983, temendo que os comunistas franceses, aliados do novo governo Mitterrand, começassem a perseguir os homossexuais. Gostou tanto da cidade que resolveu instalar-se por aqui e abrir uma discoteca para homossexuais. Foi sucesso imediato. Hoje, além da Le Boy, Lascar possui uma sauna, uma loja de roupas íntimas e uma academia de ginástica. Também acaba de abrir a discoteca La Girl, para lésbicas. Na Le Boy apresentam-se ícones da cultura homossexual, como Alexandre Frota e Gretchen, a nossa Cher. E é em sua pista de dança que Vera Fischer costuma exibir-se para os fotógrafos.

Lascar acha que o Rio de Janeiro tem tudo para entrar na lucrativa rota do turismo homossexual. Além de seus encantos naturais, a cidade aceita sem problemas as preferências sexuais de cada um. De fato, nenhum padreco de periferia ou dona-de-casa puritana ousou manifestar-se contra a entrega do filho de Cássia Eller a sua companheira lésbica. Pelo contrário: o avô da criança foi submetido a um linchamento público, embora ele tenha toda a legitimidade para pleitear a guarda do neto e sua respectiva herança. O Rio de Janeiro oferece outro importante atrativo aos homossexuais, segundo Lascar: a qualquer hora do dia ou da noite, gastam-se menos de dez minutos para encontrar um parceiro. Ele já fez o teste. É científico. Em Paris, uma caçada semelhante leva no mínimo duas horas. O parceiro a que se refere Lascar é a pagamento, claro. O fato de o Rio de Janeiro ter mais miseráveis que Paris facilita as coisas. Porém há mais um ponto a favor dos garotos de programa cariocas: eles sempre dão a impressão de que é a primeira vez que fazem sexo por dinheiro. Não se comportam como profissionais. Nem têm uma tarifa definida: limitam-se a pedir, no fim do ato, uma "ajudinha".

O mesmo acontece na discoteca Help, em Copacabana. Só que ali não são atendidos os turistas homossexuais, e sim os heterossexuais. Os italianos que freqüentam a Help voltam para casa gabando-se de ter conquistado uma nativa, porque as garotas de programa que ali trabalham fazem de conta que não são prostitutas, uma vez que não negociam antecipadamente o preço de seus serviços, deixando a retribuição por conta da generosidade do cliente, sob a forma de "presentinho". Na verdade, essa é a característica geral do país: camuflamos nosso mercenarismo com singelos diminutivos. O policial, para manter as aparências, nunca cobra um suborno, mas uma "cervejinha". O fiscal da prefeitura leva uma "caixinha". O político dá uma "azeitadinha". Ninguém se corrompe de forma direta, metódica, profissional. A gente é impreciso e diletante até para se vender.

 
 
   
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