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Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
Entrevista: Diógenes Viegas Dalle Lucca

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Chamem a polícia

O mais experiente negociador entre
os policiais brasileiros conta como
se deve agir para que um seqüestro
não termine em tragédia

Diogo Schelp

 
Claudio Rossi
"A família não dissocia a negociação do emocional. Mesmo nos bastidores, a polícia ajuda a salvar a vida do refém"


Acesso rápido
Páginas amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

Quando o seqüestrador Fernando Dutra Pinto invadiu a casa do apresentador Silvio Santos, o capitão da Polícia Militar Diógenes Viegas Dalle Lucca, de 37 anos, passou quatro horas negociando atrás de uma porta até obter sua rendição. Em 22 anos de carreira, os quatro últimos comandando o Grupo de Ações Táticas Especiais da polícia paulista (Gate), o capitão Lucca é o mais experiente e bem formado negociador da polícia brasileira. Especialista em desativação de explosivos, fez cursos de negociação, invasão e outras técnicas em Israel e nos Estados Unidos. Formado em direito e em educação física, é pós-graduando em políticas estratégicas pela Universidade de São Paulo. Criado em 1988, o Gate é pioneiro na especialização em ocorrências que envolvem reféns, além de agir em casos de ameaça de bomba. No jargão policial, isso é chamado de gerenciamento de crise. Nesta entrevista, o capitão recorda sua atuação em várias ocorrências e explica como vítima, parentes e polícia devem comportar-se para que uma crise envolvendo reféns não termine em tragédia.

Veja – Qual foi o caso mais dramático envolvendo reféns que o senhor já viveu?
Lucca – Foi em abril passado. Uma mulher teve uma desilusão amorosa e ameaçava matar o filho na frente do ex-amante, em Osasco, na Grande São Paulo. Era uma moça pobre, de 28 anos. Depois de quatro horas de negociação, ela libertou a criança e passou a dizer que se mataria. Eu estava muito perto dela, a cerca de 1 metro, diante de uma grade. Falamos por mais uma hora. Eu tentava levantar sua auto-estima. Até em aspectos religiosos me aventurei, coisa que não costumo fazer. Mas não teve jeito. Quando achei que a mulher estava prestes a se entregar, ela disse: "Olha, Lucca, eu vou embora agora". Tirou o revólver da cintura e apontou contra o próprio peito. Por causa da grade, eu não tinha como agir. Ela se matou na minha frente, já estava decidida a isso. Depois encontramos na casa cartas de despedida e mensagens suicidas escritas nas paredes com batom. Tive um sentimento intenso de frustração. Depois percebi que havia recorrido a todos os recursos possíveis para dissuadi-la. Salvamos o filho, mas perdemos a mulher.

Veja – O que deve fazer a família no caso de um seqüestro?
Lucca – Avisar a polícia, de preferência a delegacia anti-seqüestro. Envolver a polícia não coloca o refém em perigo. Para a família, é impossível dissociar a negociação da questão emocional. Já a polícia, mesmo agindo nos bastidores, sem aparecer, pode dar toda a orientação para que o refém seja libertado a salvo.

Veja – Que tipo de orientação a polícia dá à família nesses casos?
Lucca – Não seria prudente divulgar as técnicas usadas para ajudar a família. O sigilo é um dos trunfos da polícia. O que se pode dizer é que os policiais não vão fazer nada sem respeitar o temor da família ou que possa colocar a pessoa seqüestrada em risco. A família é sempre ouvida. Infelizmente, nem todas recorrem à polícia. Algumas preferem resolver o assunto por conta própria ou contratam um negociador particular. Mas mesmo esses profissionais, quando são sérios, avisam a polícia, para que ela atue em paralelo. Nos seqüestros, a família fica muito vulnerável emocionalmente e acaba cedendo a todas as pressões dos seqüestradores sem negociar garantias. Isso é totalmente compreensível. Não é fácil receber uma foto do parente em cativeiro e conseguir manter a serenidade para negociar. Se avisada, a polícia vai estar presente nessas horas. É ela que conhece a dinâmica de uma negociação e o modo de agir do seqüestrador e que vai poder trazer racionalidade à operação.

Veja – Como a família pode obter a garantia de que receberá o parente de volta depois de pagar o resgate?
Lucca – Aí, mais uma vez, está a importância de avisar a polícia tão logo os seqüestradores entrem em contato. A polícia pode identificar entre os familiares aquele que está mais preparado para fazer a negociação. O mais preparado é aquele que tem mais condições de atuar sob pressão emocional sem perder a capacidade de negociar. E a polícia vai orientá-lo para evitar, por exemplo, o que a gente chama de "repique", que é quando a família cede ao pagamento do resgate de forma tão fácil e rápida que os seqüestradores, em vez de soltar o refém, resolvem pedir mais dinheiro. A polícia explica também como fazer o pagamento aos seqüestradores de forma segura. E orienta para evitar que se negocie o pagamento de resgate por uma pessoa que já está morta, por exemplo.

Veja – É importante deixar a negociação na mão de uma pessoa só?
Lucca – Sim. É o mesmo procedimento que adotamos quando estamos negociando com um criminoso que pega um refém depois de um assalto frustrado, por exemplo. Nesse caso, concentramos a negociação em um único policial. Isso é importante para criar uma situação de confiança entre o negociador e o criminoso. Só trocamos de negociador quando percebemos que ele não conseguiu empatia com o bandido e a negociação não está avançando, ou quando há quebra de confiança nessa relação. No caso de um seqüestro longo, o princípio é o mesmo.

Veja – O senhor foi negociador no seqüestro de Silvio Santos. Como foi aquela situação?
Lucca – O Silvio simplesmente assumiu o controle da negociação. O criminoso, Fernando Dutra Pinto, se deixou envolver sem perceber. O Silvio fez isso sabendo que existia um risco real, que estava sob ameaça. Ele usou muito bem sua ferramenta clássica, que é a inteligência verbal. Não é todo mundo que pode fazer isso, que tem essa habilidade. Para se ter uma idéia, eu falei muito mais com o Silvio do que com o Dutra Pinto. Ele me dizia, por exemplo, que só ia sair dali com a presença do governador. Tentei protelar ao máximo esse tipo de coisa porque é uma ocorrência para ser resolvida por policiais, não por autoridades do Executivo. Nesse caso, foi uma exceção que considerei uma quebra de doutrina admissível, porque antecipou a resolução da crise.

Veja – Há algo que o refém possa fazer para melhorar sua condição enquanto está na mão do bandido?
Lucca – Existe um fenômeno chamado síndrome de Estocolmo, que é quando o refém simpatiza ou fica com pena do criminoso que o mantém sob ameaça. A expressão vem de um assalto que ocorreu na Suécia, em que a polícia negociou, durante dias, a libertação dos reféns. A situação de tensão e medo acabou criando uma intimidade entre os bandidos e os reféns, que passaram a exigir mais garantias da polícia. Ou seja, o quadro se inverteu. Às vezes é interessante que aconteça a síndrome de Estocolmo porque ela pode ter mão dupla. Quando há um vínculo emocional entre refém e seqüestrador, o risco de o bandido cometer um ato intempestivo e violento fica menor. Só que isso, em situações extremas, acaba atrapalhando. O refém não pode interferir nos diálogos entre o negociador e o criminoso.

Veja – O senhor já negociou uma rendição em que o refém atrapalhou?
Lucca – Sim. Foi depois de uma tentativa de assalto a um banco. Na fuga, os dois assaltantes refugiaram-se dentro do banheiro do prédio da Secretaria da Fazenda de São Paulo. Conseguimos entrar no banheiro e no fim ficaram os dois assaltantes e seis reféns espremidos dentro de um boxe de 2 metros quadrados. O assaltante subia no vaso sanitário para negociar conosco. Uma das reféns incomodou tanto, insistindo para que a polícia atendesse logo às exigências dos bandidos, que tive de chamar a atenção dela: "Você, por favor, não interfira mais. Acredite no que estamos fazendo aqui! Somos treinados para isso!" Ficou uma situação meio esquisita com os criminosos, mas depois consegui retomar o curso da negociação.

Veja – Como a pessoa deve reagir se for vítima de um seqüestro?
Lucca – Além da orientação óbvia de tentar manter a calma, há pouco que o seqüestrado possa fazer para resolver o problema. Ainda mais do jeito que os seqüestros são feitos hoje. Muitas vezes a vítima nem tem contato com o criminoso responsável pela negociação. É tudo terceirizado. Tem aquele sujeito que é contratado para fazer a captura. Ele pega a pessoa e a entrega em determinado lugar. Tem o negociador, que faz contato com a família. E tem o carcereiro, que fica tomando conta da pessoa no cativeiro. Às vezes, um não conhece o outro. Tudo acontece por telefone. E o carcereiro, que na maioria das vezes nem sabe a quantas anda a negociação, é o único seqüestrador com quem a vítima acaba tendo algum contato. Por isso, um dos poucos cuidados que se podem tomar é não ficar fixando os olhos no rosto do bandido. Só que o carcereiro geralmente toma essa precaução por conta própria, usando máscara. O que a vítima deve ter em mente é que, em geral, o seqüestrador não quer matar ninguém. Ele quer o dinheiro. Conhece a lei e sabe que seqüestro é crime hediondo. Se for seguido de morte, a pena é severíssima.

Veja – Adianta tentar conversar com o seqüestrador ou, se for o caso, com o responsável pelo cativeiro?
Lucca – Isso pode talvez aliviar a situação psicológica do seqüestrado. Conheci uma história absurda, de um empresário que ficou 24 dias num cubículo, recebendo uma única refeição por dia e indo ao banheiro a cada três. Acorrentado pela perna e com um radinho ligado constantemente, era ali que ele ficava. É uma situação deprimente, hedionda. Essa pessoa disse que rezava todo o dia, tentava manter a esperança e a calma. Uma das únicas coisas que tinha para fazer era tentar conversar com o carcereiro, ver como estavam indo as coisas. Mas o carcereiro não costuma ter nenhum poder de negociação ou de persuasão. Não há, por exemplo, a menor chance de suborná-lo. Ele simplesmente seria morto, depois, por seus parceiros de crime se aceitasse isso.

Veja – Se surgir a oportunidade, deve-se tentar fugir?
Lucca – Não. Mesmo que a pessoa ache que a fuga é possível, sempre há a possibilidade de algo dar errado. E, daí, pode não ter mais volta.

Veja – Como é a ação da polícia quando descobre o cativeiro de uma quadrilha de seqüestradores?
Lucca – Para estourar um cativeiro, a polícia mapeia, normalmente com helicóptero, as rotas de fuga do lugar, para que sejam bloqueadas. Usamos tropa ostensiva para cercar o local. Depois convidamos as pessoas que estão lá dentro a sair. Isso é feito mediante negociação. Mas também é muito comum a polícia chegar ao local e os criminosos já terem fugido, deixando somente o refém para trás. É que eles costumam ter olheiros que avisam da chegada da polícia.

Veja – Como a polícia descobre os cativeiros?
Lucca – Por meio de informantes, normalmente criminosos dissidentes daquela quadrilha ou que têm alguma desavença com o grupo. E também por meio de denúncia anônima, de pessoas comuns que ficam sabendo de algo suspeito. É que tem muito criminoso que é falastrão, gosta de contar vantagem no bar, por exemplo. Alguém ali ouve alguma coisa e faz a denúncia.

Veja – Além das recomendações sobre vidros fechados e portas travadas, vale a pena, por exemplo, um cidadão usar vidros escuros no carro para tentar evitar um seqüestro?
Lucca – Sim, não apenas usar filme escuro no vidro, mas também óculos escuros durante o dia. É que, desse jeito, o criminoso não sabe para onde a pessoa está olhando. Ele quer o fator surpresa a favor dele, não da vítima.

Veja – Até que ponto veículos blindados ajudam a evitar seqüestros?
Lucca – É um instrumento muito eficaz, desde que se saiba como utilizá-lo. A blindagem por si só não resolve o problema. Permite que a pessoa engate a primeira e fuja se alguém bate à janela com uma arma. Mas se ficar parado não adianta. Muitos tiros no mesmo lugar acabam atravessando o vidro. Se o carro não tem blindagem, não dá tempo nem de tentar engatar a marcha e fugir. A partir do momento em que o criminoso tem você sob a mira da arma, acabou a prevenção. Daí para a frente a única coisa a fazer é não reagir e obedecer ao bandido.

Veja – No ano passado surgiu em São Paulo uma nova modalidade de seqüestro, com o uso de explosivos. Como é isso?
Lucca – Atendemos a cinco casos desse tipo. O mais dramático foi quando os bandidos pegaram uma gerente de banco, o marido e os filhos como reféns. Amarraram uma cinta com explosivos em seu corpo, na qual estava acoplada uma microcâmara. Eles acompanhavam seus movimentos a distância. Ela tinha de ir à agência em que trabalhava para retirar dinheiro. Caso contrário, os bandidos matariam o marido e os filhos e acionariam o explosivo. Só que o sistema de segurança da agência detectou o objeto por baixo da roupa da gerente e o Gate foi chamado para desativar a bomba. Por sorte, assim que perceberam que a extorsão tinha sido frustrada, os criminosos fugiram e largaram os reféns.

Veja – Qual a principal característica de um bandido que acaba tomando reféns ao ser surpreendido pela polícia?
Lucca – O que esse tipo de criminoso quer, na verdade, é sair dali preso, com vida e com a garantia de que nenhuma violência será cometida contra ele. Só que não é isso que ele deixa transparecer na negociação. Quando percebe que está chamando a atenção, esse sujeito começa a fazer exigências absurdas. Exige carro-forte, grandes somas em dinheiro, armas. O negociador não deve nem pensar em atender a esses pedidos, porque sabe que o bandido quer mesmo é se entregar. Muitas vezes, isso demora para acontecer porque ele tem medo, não confia na palavra do negociador. Falta à polícia brasileira credibilidade. Precisamos reverter isso. O policial tem de ser o herói de seu microcontexto, da área em que atua. Precisamos de heróis.

 
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