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Chamem
a polícia
O mais experiente
negociador entre
os policiais brasileiros conta como
se deve agir para que um seqüestro
não termine em tragédia
Diogo Schelp
Claudio Rossi
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"A
família não dissocia a negociação do emocional.
Mesmo nos bastidores, a polícia ajuda a salvar a vida do refém"
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Quando
o seqüestrador Fernando Dutra Pinto invadiu a casa do apresentador
Silvio Santos, o capitão da Polícia Militar Diógenes
Viegas Dalle Lucca, de 37 anos, passou quatro horas negociando atrás
de uma porta até obter sua rendição. Em 22 anos de
carreira, os quatro últimos comandando o Grupo de Ações
Táticas Especiais da polícia paulista (Gate), o capitão
Lucca é o mais experiente e bem formado negociador da polícia
brasileira. Especialista em desativação de explosivos, fez
cursos de negociação, invasão e outras técnicas
em Israel e nos Estados Unidos. Formado em direito e em educação
física, é pós-graduando em políticas estratégicas
pela Universidade de São Paulo. Criado em 1988, o Gate é
pioneiro na especialização em ocorrências que envolvem
reféns, além de agir em casos de ameaça de bomba.
No jargão policial, isso é chamado de gerenciamento de crise.
Nesta entrevista, o capitão recorda sua atuação em
várias ocorrências e explica como vítima, parentes
e polícia devem comportar-se para que uma crise envolvendo reféns
não termine em tragédia.
Veja Qual foi o caso mais dramático envolvendo reféns
que o senhor já viveu?
Lucca
Foi em abril passado. Uma mulher teve uma desilusão amorosa e ameaçava
matar o filho na frente do ex-amante, em Osasco, na Grande São
Paulo. Era uma moça pobre, de 28 anos. Depois de quatro horas de
negociação, ela libertou a criança e passou a dizer
que se mataria. Eu estava muito perto dela, a cerca de 1 metro, diante
de uma grade. Falamos por mais uma hora. Eu tentava levantar sua auto-estima.
Até em aspectos religiosos me aventurei, coisa que não costumo
fazer. Mas não teve jeito. Quando achei que a mulher estava prestes
a se entregar, ela disse: "Olha, Lucca, eu vou embora agora". Tirou o
revólver da cintura e apontou contra o próprio peito. Por
causa da grade, eu não tinha como agir. Ela se matou na minha frente,
já estava decidida a isso. Depois encontramos na casa cartas de
despedida e mensagens suicidas escritas nas paredes com batom. Tive um
sentimento intenso de frustração. Depois percebi que havia
recorrido a todos os recursos possíveis para dissuadi-la. Salvamos
o filho, mas perdemos a mulher.
Veja O que deve fazer a família no caso de um seqüestro?
Lucca
Avisar a polícia, de preferência a delegacia anti-seqüestro.
Envolver a polícia não coloca o refém em perigo.
Para a família, é impossível dissociar a negociação
da questão emocional. Já a polícia, mesmo agindo
nos bastidores, sem aparecer, pode dar toda a orientação
para que o refém seja libertado a salvo.
Veja Que tipo de orientação a polícia
dá à família nesses casos?
Lucca
Não seria prudente divulgar as técnicas usadas para ajudar
a família. O sigilo é um dos trunfos da polícia.
O que se pode dizer é que os policiais não vão fazer
nada sem respeitar o temor da família ou que possa colocar a pessoa
seqüestrada em risco. A família é sempre ouvida. Infelizmente,
nem todas recorrem à polícia. Algumas preferem resolver
o assunto por conta própria ou contratam um negociador particular.
Mas mesmo esses profissionais, quando são sérios, avisam
a polícia, para que ela atue em paralelo. Nos seqüestros,
a família fica muito vulnerável emocionalmente e acaba cedendo
a todas as pressões dos seqüestradores sem negociar garantias.
Isso é totalmente compreensível. Não é fácil
receber uma foto do parente em cativeiro e conseguir manter a serenidade
para negociar. Se avisada, a polícia vai estar presente nessas
horas. É ela que conhece a dinâmica de uma negociação
e o modo de agir do seqüestrador e que vai poder trazer racionalidade
à operação.
Veja Como a família pode obter a garantia de que receberá
o parente de volta depois de pagar o resgate?
Lucca
Aí, mais uma vez, está a importância de avisar a polícia
tão logo os seqüestradores entrem em contato. A polícia
pode identificar entre os familiares aquele que está mais preparado
para fazer a negociação. O mais preparado é aquele
que tem mais condições de atuar sob pressão emocional
sem perder a capacidade de negociar. E a polícia vai orientá-lo
para evitar, por exemplo, o que a gente chama de "repique", que é
quando a família cede ao pagamento do resgate de forma tão
fácil e rápida que os seqüestradores, em vez de soltar
o refém, resolvem pedir mais dinheiro. A polícia explica
também como fazer o pagamento aos seqüestradores de forma
segura. E orienta para evitar que se negocie o pagamento de resgate por
uma pessoa que já está morta, por exemplo.
Veja É importante deixar a negociação
na mão de uma pessoa só?
Lucca
Sim. É o mesmo procedimento que adotamos quando estamos negociando
com um criminoso que pega um refém depois de um assalto frustrado,
por exemplo. Nesse caso, concentramos a negociação em um
único policial. Isso é importante para criar uma situação
de confiança entre o negociador e o criminoso. Só trocamos
de negociador quando percebemos que ele não conseguiu empatia com
o bandido e a negociação não está avançando,
ou quando há quebra de confiança nessa relação.
No caso de um seqüestro longo, o princípio é o mesmo.
Veja O senhor foi negociador no seqüestro de Silvio
Santos. Como foi aquela situação?
Lucca
O Silvio simplesmente assumiu o controle da negociação.
O criminoso, Fernando Dutra Pinto, se deixou envolver sem perceber. O
Silvio fez isso sabendo que existia um risco real, que estava sob ameaça.
Ele usou muito bem sua ferramenta clássica, que é a inteligência
verbal. Não é todo mundo que pode fazer isso, que tem essa
habilidade. Para se ter uma idéia, eu falei muito mais com o Silvio
do que com o Dutra Pinto. Ele me dizia, por exemplo, que só ia
sair dali com a presença do governador. Tentei protelar ao máximo
esse tipo de coisa porque é uma ocorrência para ser resolvida
por policiais, não por autoridades do Executivo. Nesse caso, foi
uma exceção que considerei uma quebra de doutrina admissível,
porque antecipou a resolução da crise.
Veja Há algo que o refém possa fazer para melhorar
sua condição enquanto está na mão do bandido?
Lucca
Existe um fenômeno chamado síndrome de Estocolmo, que é
quando o refém simpatiza ou fica com pena do criminoso que o mantém
sob ameaça. A expressão vem de um assalto que ocorreu na
Suécia, em que a polícia negociou, durante dias, a libertação
dos reféns. A situação de tensão e medo acabou
criando uma intimidade entre os bandidos e os reféns, que passaram
a exigir mais garantias da polícia. Ou seja, o quadro se inverteu.
Às vezes é interessante que aconteça a síndrome
de Estocolmo porque ela pode ter mão dupla. Quando há um
vínculo emocional entre refém e seqüestrador, o risco
de o bandido cometer um ato intempestivo e violento fica menor. Só
que isso, em situações extremas, acaba atrapalhando. O refém
não pode interferir nos diálogos entre o negociador e o
criminoso.
Veja O senhor já negociou uma rendição
em que o refém atrapalhou?
Lucca
Sim.
Foi depois de uma tentativa de assalto a um banco. Na fuga, os dois assaltantes
refugiaram-se dentro do banheiro do prédio da Secretaria da Fazenda
de São Paulo. Conseguimos entrar no banheiro e no fim ficaram os
dois assaltantes e seis reféns espremidos dentro de um boxe de
2 metros quadrados. O assaltante subia no vaso sanitário para negociar
conosco. Uma das reféns incomodou tanto, insistindo para que a
polícia atendesse logo às exigências dos bandidos,
que tive de chamar a atenção dela: "Você, por favor,
não interfira mais. Acredite no que estamos fazendo aqui! Somos
treinados para isso!" Ficou uma situação meio esquisita
com os criminosos, mas depois consegui retomar o curso da negociação.
Veja Como a pessoa deve reagir se for vítima de um
seqüestro?
Lucca
Além da orientação óbvia de tentar manter
a calma, há pouco que o seqüestrado possa fazer para resolver
o problema. Ainda mais do jeito que os seqüestros são feitos
hoje. Muitas vezes a vítima nem tem contato com o criminoso responsável
pela negociação. É tudo terceirizado. Tem aquele
sujeito que é contratado para fazer a captura. Ele pega a pessoa
e a entrega em determinado lugar. Tem o negociador, que faz contato com
a família. E tem o carcereiro, que fica tomando conta da pessoa
no cativeiro. Às vezes, um não conhece o outro. Tudo acontece
por telefone. E o carcereiro, que na maioria das vezes nem sabe a quantas
anda a negociação, é o único seqüestrador
com quem a vítima acaba tendo algum contato. Por isso, um dos poucos
cuidados que se podem tomar é não ficar fixando os olhos
no rosto do bandido. Só que o carcereiro geralmente toma essa precaução
por conta própria, usando máscara. O que a vítima
deve ter em mente é que, em geral, o seqüestrador não
quer matar ninguém. Ele quer o dinheiro. Conhece a lei e sabe que
seqüestro é crime hediondo. Se for seguido de morte, a pena
é severíssima.
Veja Adianta tentar conversar com o seqüestrador ou,
se for o caso, com o responsável pelo cativeiro?
Lucca
Isso pode talvez aliviar a situação psicológica do
seqüestrado. Conheci uma história absurda, de um empresário
que ficou 24 dias num cubículo, recebendo uma única refeição
por dia e indo ao banheiro a cada três. Acorrentado pela perna e
com um radinho ligado constantemente, era ali que ele ficava. É
uma situação deprimente, hedionda. Essa pessoa disse que
rezava todo o dia, tentava manter a esperança e a calma. Uma das
únicas coisas que tinha para fazer era tentar conversar com o carcereiro,
ver como estavam indo as coisas. Mas o carcereiro não costuma ter
nenhum poder de negociação ou de persuasão. Não
há, por exemplo, a menor chance de suborná-lo. Ele simplesmente
seria morto, depois, por seus parceiros de crime se aceitasse isso.
Veja Se surgir a oportunidade, deve-se tentar fugir?
Lucca
Não.
Mesmo que a pessoa ache que a fuga é possível, sempre há
a possibilidade de algo dar errado. E, daí, pode não ter
mais volta.
Veja Como é a ação da polícia
quando descobre o cativeiro de uma quadrilha de seqüestradores?
Lucca
Para estourar um cativeiro, a polícia mapeia, normalmente com helicóptero,
as rotas de fuga do lugar, para que sejam bloqueadas. Usamos tropa ostensiva
para cercar o local. Depois convidamos as pessoas que estão lá
dentro a sair. Isso é feito mediante negociação.
Mas também é muito comum a polícia chegar ao local
e os criminosos já terem fugido, deixando somente o refém
para trás. É que eles costumam ter olheiros que avisam da
chegada da polícia.
Veja Como a polícia descobre os cativeiros?
Lucca
Por meio de informantes, normalmente criminosos dissidentes daquela quadrilha
ou que têm alguma desavença com o grupo. E também
por meio de denúncia anônima, de pessoas comuns que ficam
sabendo de algo suspeito. É que tem muito criminoso que é
falastrão, gosta de contar vantagem no bar, por exemplo. Alguém
ali ouve alguma coisa e faz a denúncia.
Veja Além das recomendações sobre vidros
fechados e portas travadas, vale a pena, por exemplo, um cidadão
usar vidros escuros no carro para tentar evitar um seqüestro?
Lucca
Sim,
não apenas usar filme escuro no vidro, mas também óculos
escuros durante o dia. É que, desse jeito, o criminoso não
sabe para onde a pessoa está olhando. Ele quer o fator surpresa
a favor dele, não da vítima.
Veja Até que ponto veículos blindados ajudam
a evitar seqüestros?
Lucca
É um instrumento muito eficaz, desde que se saiba como
utilizá-lo. A blindagem por si só não resolve o problema.
Permite que a pessoa engate a primeira e fuja se alguém bate à
janela com uma arma. Mas se ficar parado não adianta. Muitos tiros
no mesmo lugar acabam atravessando o vidro. Se o carro não tem
blindagem, não dá tempo nem de tentar engatar a marcha e
fugir. A partir do momento em que o criminoso tem você sob a mira
da arma, acabou a prevenção. Daí para a frente a
única coisa a fazer é não reagir e obedecer ao bandido.
Veja No ano passado surgiu em São Paulo uma nova modalidade
de seqüestro, com o uso de explosivos. Como é isso?
Lucca
Atendemos a cinco casos desse tipo. O mais dramático foi quando
os bandidos pegaram uma gerente de banco, o marido e os filhos como reféns.
Amarraram uma cinta com explosivos em seu corpo, na qual estava acoplada
uma microcâmara. Eles acompanhavam seus movimentos a distância.
Ela tinha de ir à agência em que trabalhava para retirar
dinheiro. Caso contrário, os bandidos matariam o marido e os filhos
e acionariam o explosivo. Só que o sistema de segurança
da agência detectou o objeto por baixo da roupa da gerente e o Gate
foi chamado para desativar a bomba. Por sorte, assim que perceberam que
a extorsão tinha sido frustrada, os criminosos fugiram e largaram
os reféns.
Veja Qual a principal característica de um bandido
que acaba tomando reféns ao ser surpreendido pela polícia?
Lucca
O que esse tipo de criminoso quer, na verdade, é sair dali preso,
com vida e com a garantia de que nenhuma violência será cometida
contra ele. Só que não é isso que ele deixa transparecer
na negociação. Quando percebe que está chamando a
atenção, esse sujeito começa a fazer exigências
absurdas. Exige carro-forte, grandes somas em dinheiro, armas. O negociador
não deve nem pensar em atender a esses pedidos, porque sabe que
o bandido quer mesmo é se entregar. Muitas vezes, isso demora para
acontecer porque ele tem medo, não confia na palavra do negociador.
Falta à polícia brasileira credibilidade. Precisamos reverter
isso. O policial tem de ser o herói de seu microcontexto, da área
em que atua. Precisamos de heróis.

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