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De
volta aos anos 60
"Ao
falar do estado da nação, George Bush o fez como comandante-em-chefe
de um país
em guerra, com 'o
mundo civilizado enfrentando perigos
sem precedentes'. Puros anos 60"
Ilustração Ale Setti
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O presidente
dos Estados Unidos, George W. Bush, é um homem previsível.
Ao comentar aqui seu discurso de posse, em fevereiro de 2001, disse que
ele faria um governo ultraconservador e poderia cair no militarismo para
compensar suas fragilidades políticas. Na posse, ele reviveu conceitos
da Guerra Fria, que reafirmou em seu discurso sobre o "estado da nação",
na semana passada. Estava no lugar certo, na hora certa, para ter um álibi
perfeito para suas idéias ultrapassadas que fazem da guerra a prioridade
de seu país. O ataque às torres do World Trade Center foi
um argumento insuperável.
No discurso
de posse, mostrou que o mundo para ele se dividia entre "inimigos" e "aliados"
dos EUA. O ataque terrorista permitiu-lhe transformar essa divisão
em consenso nacional. São poucas as vozes em contrário.
As pesquisas mostram que a maioria do povo passou a concordar com ele.
Na posse, ao falar de união, tratou de valores pátrios.
No "estado da nação", pôde dizer que "a nação
está em guerra, a economia em recessão, mas nossa união
nunca esteve mais forte". Bush se via, ao entrar na Casa Branca, como
o "comandante-em-chefe" da nação, mais que seu presidente
civil. Ao falar do estado da nação, ele o fez como comandante-em-chefe
de um país em guerra e com "o mundo civilizado enfrentando perigos
sem precedentes". Tudo puros anos 60. Só que, no lugar da União
Soviética, entraram o Iraque, o Irã e a Coréia do
Norte.
A economia
em recessão foi apenas uma referência oportunista em seu
discurso. Bush já sabia que a recessão está no fim.
Ela serviu apenas para aumentar o clima de crise, no qual poderia justificar
o retorno aos déficits fiscais, por causa de sua prioridade militarista
e de seus devaneios imperialistas. "Guerra custa caro", disse ele a um
Congresso mesmerizado pela ameaça terrorista. A guerra no Afeganistão
tem custado mais de 1 bilhão de dólares por mês, informou.
São 30 milhões de dólares por dia. Enquanto a ameaça
terrorista se sobrepuser às outras preocupações da
população, Bush seguirá tendo apoio. Ostenta o maior
índice de aprovação com que um presidente chegou
ao púlpito de Capitol Hill para fazer o discurso sobre o estado
da nação. A média das dez pesquisas de opinião
que investigam popularidade presidencial nos Estados Unidos, realizadas
neste mês, chega a 80% de aprovação. Seu discurso,
segundo o jornal Washington Post, atraiu 12 milhões de telespectadores
a mais que o de um ano atrás.
Bush começou
seu governo sem um claro mandato. No voto popular, teve 48,1% contra 48,3%
para Al Gore. No colégio eleitoral, ficou com 50,5% dos votos.
O país continua politicamente dividido: 40% dizem pretender votar,
nas eleições intermediárias de novembro, em candidatos
republicanos e 39%, em democratas. Quanto à prioridade nacional,
27% acham que deveria ser a economia e a geração de empregos
e 25%, a guerra contra o terrorismo e a segurança nacional, segundo
pesquisa recente da CBS/New York Times. Outra pesquisa, da Harris,
encontrou 32% pedindo mais atenção à economia e 24%
ao terrorismo. Bush concorda, mas na ordem inversa: guerra e empregos.
Foi essa a tônica de seu discurso.
O presidente
defendeu fortemente o serviço cívico voluntário,
para engrossar as Freedom Corps, como forças auxiliares da defesa
doméstica da pátria e como extensão do poderio dos
EUA no mundo. Nada mais anos 60. Falou em "estender a compaixão
americana por todo o mundo", revivendo o Peace Corps. Ameaçou:
"Todas as nações devem saber que a América fará
todo o necessário para garantir sua segurança". Reafirmou
o objetivo de hegemonia global: "Temos a grande oportunidade neste tempo
de guerra de liderar o mundo na direção de valores que tragam
paz duradoura".
O discurso
presidencial serviu também de escudo a um problema doméstico
da administração Bush que pode tornar-se uma grande ameaça
se e quando o espírito guerreiro da população arrefecer:
o caso Enron. O uso de "privilégio executivo", para não
revelar informações sobre o envolvimento do vice-presidente
e de outros altos funcionários com a empresa, gera desconfiança
e oposição. Foi utilizado pela última vez no escândalo
de Watergate. Pesquisa do Gallup mostrou que 58% desconfiam que ele serve
para esconder informação comprometedora. Bush está
arriscando demais nessa questão. Se o apoio à guerra esfriar,
pode explodir como uma bomba na campanha para a reeleição
e ele terminar derrotado como o pai.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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