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Edição 1 737 - 6 de fevereiro de 2002
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De volta aos anos 60

"Ao falar do estado da nação, George Bush o fez como comandante-em-chefe de um país em guerra, com 'o mundo civilizado enfrentando perigos sem precedentes'. Puros anos 60"

 
Ilustração Ale Setti

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, é um homem previsível. Ao comentar aqui seu discurso de posse, em fevereiro de 2001, disse que ele faria um governo ultraconservador e poderia cair no militarismo para compensar suas fragilidades políticas. Na posse, ele reviveu conceitos da Guerra Fria, que reafirmou em seu discurso sobre o "estado da nação", na semana passada. Estava no lugar certo, na hora certa, para ter um álibi perfeito para suas idéias ultrapassadas que fazem da guerra a prioridade de seu país. O ataque às torres do World Trade Center foi um argumento insuperável.

No discurso de posse, mostrou que o mundo para ele se dividia entre "inimigos" e "aliados" dos EUA. O ataque terrorista permitiu-lhe transformar essa divisão em consenso nacional. São poucas as vozes em contrário. As pesquisas mostram que a maioria do povo passou a concordar com ele. Na posse, ao falar de união, tratou de valores pátrios. No "estado da nação", pôde dizer que "a nação está em guerra, a economia em recessão, mas nossa união nunca esteve mais forte". Bush se via, ao entrar na Casa Branca, como o "comandante-em-chefe" da nação, mais que seu presidente civil. Ao falar do estado da nação, ele o fez como comandante-em-chefe de um país em guerra e com "o mundo civilizado enfrentando perigos sem precedentes". Tudo puros anos 60. Só que, no lugar da União Soviética, entraram o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte.

A economia em recessão foi apenas uma referência oportunista em seu discurso. Bush já sabia que a recessão está no fim. Ela serviu apenas para aumentar o clima de crise, no qual poderia justificar o retorno aos déficits fiscais, por causa de sua prioridade militarista e de seus devaneios imperialistas. "Guerra custa caro", disse ele a um Congresso mesmerizado pela ameaça terrorista. A guerra no Afeganistão tem custado mais de 1 bilhão de dólares por mês, informou. São 30 milhões de dólares por dia. Enquanto a ameaça terrorista se sobrepuser às outras preocupações da população, Bush seguirá tendo apoio. Ostenta o maior índice de aprovação com que um presidente chegou ao púlpito de Capitol Hill para fazer o discurso sobre o estado da nação. A média das dez pesquisas de opinião que investigam popularidade presidencial nos Estados Unidos, realizadas neste mês, chega a 80% de aprovação. Seu discurso, segundo o jornal Washington Post, atraiu 12 milhões de telespectadores a mais que o de um ano atrás.

Bush começou seu governo sem um claro mandato. No voto popular, teve 48,1% contra 48,3% para Al Gore. No colégio eleitoral, ficou com 50,5% dos votos. O país continua politicamente dividido: 40% dizem pretender votar, nas eleições intermediárias de novembro, em candidatos republicanos e 39%, em democratas. Quanto à prioridade nacional, 27% acham que deveria ser a economia e a geração de empregos e 25%, a guerra contra o terrorismo e a segurança nacional, segundo pesquisa recente da CBS/New York Times. Outra pesquisa, da Harris, encontrou 32% pedindo mais atenção à economia e 24% ao terrorismo. Bush concorda, mas na ordem inversa: guerra e empregos. Foi essa a tônica de seu discurso.

O presidente defendeu fortemente o serviço cívico voluntário, para engrossar as Freedom Corps, como forças auxiliares da defesa doméstica da pátria e como extensão do poderio dos EUA no mundo. Nada mais anos 60. Falou em "estender a compaixão americana por todo o mundo", revivendo o Peace Corps. Ameaçou: "Todas as nações devem saber que a América fará todo o necessário para garantir sua segurança". Reafirmou o objetivo de hegemonia global: "Temos a grande oportunidade neste tempo de guerra de liderar o mundo na direção de valores que tragam paz duradoura".

O discurso presidencial serviu também de escudo a um problema doméstico da administração Bush que pode tornar-se uma grande ameaça se e quando o espírito guerreiro da população arrefecer: o caso Enron. O uso de "privilégio executivo", para não revelar informações sobre o envolvimento do vice-presidente e de outros altos funcionários com a empresa, gera desconfiança e oposição. Foi utilizado pela última vez no escândalo de Watergate. Pesquisa do Gallup mostrou que 58% desconfiam que ele serve para esconder informação comprometedora. Bush está arriscando demais nessa questão. Se o apoio à guerra esfriar, pode explodir como uma bomba na campanha para a reeleição e ele terminar derrotado como o pai.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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