As cartas do mestre

Nos arquivos de Gilberto Freyre, a correspondência de
um pensador que ensinou um novo modo de olhar o país

Paulo Moreira Leite, do Recife

Gilberto Freyre morreu em 1987, aos 87 anos, com merecido prestígio intelectual e popularidade relativa para virar tema da Mangueira quando isso ainda não era moda. A maior herança de Gilberto Freyre são as idéias, vizinhas da genialidade. Rompendo o costume de só apontar atraso e pobreza na civilização nascida no Brasil, ele definiu a história de portugueses, índios e negros no país como uma epopéia grandiosa, onde se construiu uma sociedade dinâmica e original. Quando o mundo debatia idéias de superioridade racial, Gilberto Freyre apareceu com a obra-prima Casa Grande & Senzala, publicado em 1933 — o ano em que Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha —, para falar de cultura.

Na mansão colonial de paredes cor-de-rosa do bairro de Apipucos, no Recife, onde viveu por quase cinqüenta anos, o mestre deixou também um grande acervo. Uma biblioteca particular de 40.000 volumes, álbuns de fotografia que formam um belo painel da vida cotidiana neste século. Entre cartas, bilhetes e telegramas, a correspondência é formada por 15.000 documentos, num pacote com lembranças de amigos, confidências de autoridades e relatos da juventude. O escritor José Lins do Rego, autor de Menino de Engenho, surge em 1923 com uma letra pontuda, para contar que rompeu um antigo noivado, casou-se com outra moça e considera-se em "fase de experiência" sentimental. Em papel timbrado do Ministério da Educação e Saúde Pública, o poeta Carlos Drummond de Andrade, funcionário do gabinete de Gustavo Capanema, escreve em 1935 para falar de um curso de sociologia da Faculdade de Direito no Recife. Cinco meses antes da chamada Intentona Comunista, quando militares ligados ao PCB se rebelaram no Nordeste e no Rio de Janeiro, Drummond aproveita o último parágrafo para comentar o momento político: "Sinto que os acontecimentos, mais espertos do que os livros em que nos formamos, estão exigindo de nós uma definição". Em 1964 o cronista Rubem Braga aparece datilografado, com poucas palavras e muito afeto. De Lisboa, ele se queixa que Gilberto Freyre não foi visitá-lo ao passar por Portugal.

Quase doze anos depois da morte do mestre, a maioria de seus livros descansa pela sala de visitas, pela biblioteca e pelos quartos, numa convivência anárquica que espalhou William Shakespeare por toda a parte e ainda colocou Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, a poucos centímetros de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo. É possível encontrar papéis, textos e documentos em qualquer lugar. No mesmo armário do quarto do 2º andar que Gilberto Freyre ocupava com a mulher estão guardados paletós desengonçados, gravatas de estilo psicodélico e 35 caixas de papelão. Acha-se ali quase meia tonelada de teses universitárias e rascunhos. Num quarto ao lado, amarrados com barbante, estão os originais de Ordem e Progresso, a última etapa da trilogia iniciada com Casa Grande e seguida por Sobrados e Mucambos.

A organização da correspondência, promovida pela Fundação Gilberto Freyre, entidade criada pela família, está num estado avançado — a previsão é de que o serviço esteja terminado até o final de 1999, às vésperas do centenário do nascimento do escritor, comemorado no ano 2000. "Ele é um pensador que não pode ser esquecido", afirma José Mário Pereira, da editora Top Books, que negocia o lançamento de nove livros de Gilberto Freyre que se encontram fora de catálogo. As cartas arquivadas já foram separadas e seus autores, identificados. Mais da metade foi lida e resumida em fichas. Como Gilberto Freyre guardava a correspondência dentro de livros, a toda hora surgem novidades, como uma carta de 1963 do professor Fernando Henrique Cardoso, do curso de sociologia da Universidade de São Paulo. Com tinta azul e letra pequena, ele apresenta um colega de Paris interessado em visitar Pernambuco.

Ler cartas alheias é como entrar numa casa de família sem conhecer ninguém mas acabar presenciando cenas de muita intimidade. Como a clareza das idéias não tem relação com a beleza da caligrafia, a primeira tarefa é se acostumar com a letra de cada correspondente, sob o risco de perder o melhor da festa. Também é preciso manter na memória um bom painel da época, com seus acontecimentos e personagens principais. É assim que se entra na conversa que as cartas vão compondo, quando falam de impressões, alegrias e doenças na família, temores e muitas esperanças. "É um trabalho que exige conhecimento prévio", explica Cristina Dantas, que coordena o serviço de outras duas bibliotecárias. Além de conviver com Gilberto Freyre por mais de uma década, ela leu duas biografias e conhece, de memória, o ABC de sua obra. O Gilberto Freyre dos arquivos não é o homem de idéias nem o teórico de sociedades. É o pensador em seu cotidiano, ocupado com a família, o emprego dos amigos, uma viagem ao estrangeiro.

Monteiro Lobato e "nossa gente muito idiota"


Lobato: "Tenho a impressão
de que encruei o estômago do
país com 1 milhão de exemplares"

Em 1923, no Brasil após cinco anos nos EUA e na Inglaterra, Freyre escreve a Monteiro Lobato, autor de livros adultos e também de O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Os dois nunca foram próximos, mas se escreviam de vez em quando:

"Acabo de chegar a Pernambuco. Estou a fartar-me de água-de-coco e caldo de cana. Há de vir-me amanhã um papagaio. Cercam-me o quarto, além duma pequena árvore gorda e grotesca, canas-de-açúcar, bananeiras, palmeiras adolescentes. Isto encanta. O que é positivamente um horror é o que há aqui de novo: os novos edifícios, os jardins novos, nus, sem árvores, as novas residências, sem caráter, sem gosto".

"Pede-me o Oliveira Lima (diplomata e escritor pernambucano, autor de uma série de palestras em inglês) que lhe escreva a respeito da tradução de suas conferências: deseja v. editar tal tradução? Parecem-me interessantes. Informam-me que v. está com mais de 100 livros contratados — notícia que me espanta e me horroriza."

Lobato responde pela última linha de Gilberto Freyre:

"É verdade. Mais de 100. Cento e tantos! No Brasil, o que falta são leitores. Escritores há a dar com pau. Poetas, então, que castigo! Há cá poeta e meio por quilômetro quadrado. O Lima escreveu-me. Não conheço as conferências. Recebi-as em inglês e corri os olhos — não há tempo para nada. Mas não creio que interessem a nossa gente. A nossa gente é muito mais idiota do que eu tenho dito nos meus livros (isto é cá entre nós). E tenho a impressão de que encruei o estômago do país com o milhão de exemplares que lancei. Estou a refrear o enxurro".

Um mês e meio depois, Gilberto Freyre responde:

"Recebi sua carta. Suas razões de editor, quanto às conferências, acho-as justas e de peso. No seu caso faria o mesmo. Mas meu caro Lobato, v. está sendo muito liberal — too easy — com essa gente besuntada de literatice e atacada da fúria epilética de fazer um livro".

Em 1943 Lobato agradece elogio de Gilberto Freyre a Urupês, seu romance que completava 25 anos:

"Venho agradecer a sua manifestação pelas bodas de prata dos URUPÊS. O tempo passa e com ele vamos passando. Não passam, porém, certas admirações da mocidade. E entre as minhas desse gênero sempre ocupou um dos primeiros lugares aquele que me escrevia naquela época. Obrigado, amigo".

Lins do Rego e o "país sem dinheiro e sem homens"


Lins do Rego: "Não venha
tão cedo ao Brasil. É uma
terra que não merece
as suas saudades"
  Foto: Arquivo Pessoal

Amigo de todas as horas, José Lins do Rego é dono da correspondência mais vasta. Mandou mais de 200 cartas a Gilberto Freyre, recebeu mais de 100. Em 1926 Gilberto Freyre sai do Rio a caminho de Nova York. O navio pára no Recife e ele escreve:

"Meu querido Lins,

Aqui estive de rápida passagem. Sem planos definitivos. Quando nos veremos? Eu devo voltar para o Recife. As saudades me acabarão puxando".

Ex-candidato a senhor de engenho, arruinado, José Lins virou funcionário público. Ele escreveu:

"Tudo indo por água abaixo. O Brasil arredado daquele destino histórico de que tanto gostava você de falar e em toda parte as suas idéias de ordem e estabilidade sofrendo uma crise, como se estivéssemos na virada do século. O Brasil anda em dias de mais perigos. Nem mesmo na Regência esteve a nossa terra tão abalada". Lembrando a crise econômica, José Lins diz que "os entendidos julgam caso perdido. Mandaram buscar um médico inglês, mas penso que o doente precisa mais de um padre confessor. Na Parahyba anda a fome que nem em 1874. Em Alagoas e Pernambuco o açúcar a pedir esmolas ao Banco do Brasil. Tudo uma desgraça de cortar coração".

Falando dos amigos, José Lins prossegue:

"A situação pessoal de cada um é uma catástrofe. O país não tem dinheiro e não tem homens. O nosso amigo José Américo (José Américo de Almeida, um dos grandes políticos do Nordeste), que foi comigo de uma grande gentileza, parece que o destino lhe pregou uma peça: presidir como ministro da Viação uma seca, sem dinheiro para atender aos reclamos de socorro. E sofrendo uma campanha medonha sempre que os recursos não chegam. Voltei, como você deve saber, a um emprego público. Mas, fique certo, se encontrasse qualquer meio de vida, por mais modesto que fosse, deixaria o emprego público. É uma coisa horrível viver assim, cheio de sobressaltos e de intrigas, levando uma dura vida de cachorro. E eu que nada sei fazer, que não sei nada, um homem incapaz para tudo".

Referindo-se à viagem de Freyre, afirma:

"Você é o maior dos brasileiros, mas não deve ter saudade do Brasil. Não venha tão cedo. É uma terra essa que não merece as suas saudades".

O convite de Florestan


Florestan: convite a Freyre
para a banca de exame do
aluno Fernando Henrique
Foto: Carlos Namba  

Em 1961, o professor Florestan Fernandes, da Universidade de São Paulo, tenta convencer Gilberto Freyre a participar da banca examinadora de dois alunos seus — Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso.

Explicando que não participa mais dessas atividades, Gilberto Freyre diz que não aceita o convite, mas ressalva. "Tenho em muito apreço os candidatos. Vejo ótimas possibilidades, já meio realizadas, aliás, no Octavio Ianni — que conheço melhor."

Numa terceira carta, Florestan diz que a USP poderá pagar passagem e hospedagem a Gilberto Freyre e família, além de um pró-labore respeitável, na época. Lembrando a distância entre os mundos acadêmicos do Recife e São Paulo, argumenta que "devemos quebrar velhas barreiras". Não convenceu.

Lacerda encara a vaidade do mestre

Em 1973, Gilberto Freyre descobriu que na enciclopédia Século XX, dirigida pelo ex-governador Carlos Lacerda, recebeu verbete mais curto que o de Jorge Amado. Não gostou, o que levou Lacerda a escrever, explicando que "a importância dada a um autor não se mede pelo número de linhas. As 24 linhas que lhe são dedicadas são excedidas em 8 linhas pelo verbete Jorge Amado porque a lista de obras de Jorge é mais numerosa do que a sua. Em nenhuma linha está dito que ele escreveu obra fundamental. No verbete Gilberto Freyre está dito: "Renovador do estudo da sociedade no Brasil com Casa Grande & Senzala, obra fundamental da sociologia brasileira". Num PS, o ex-comunista Lacerda fala do acordo entre Stalin e Hitler em 1938: "Não me dou com o Jorge desde os tempos do pacto teuto-soviético".

Passarinho fala sobre o SNI

Fora bilhetes e telegramas formais, o ex-ministro Jarbas Passarinho enviou só uma carta a Freyre. Em 1974, ao deixar o Ministério da Educação, no governo Médici, escreve para tratar de um assunto espinhoso: o veto do SNI à permanência de Marcos Vilaça, hoje ministro do Tribunal de Contas da União, na Fundação Joaquim Nabuco, estatal cultural do Recife.

"Como o senhor sabe, todo ato privativo do presidente Médici só era a ele submetido depois do "agreement" do SNI. Para surpresa minha, foi negada a concordância (para a permanência de Vilaça)." O chefe do SNI da época, João Figueiredo, futuro presidente da República, tentava negar qualquer influência do órgão no veto, mas Passarinho explica: "Dou-lhe minha palavra de homem que tem grande zelo por sua honra que tentei sem êxito a recondução do doutor Vilaça. Tenho testemunhos, aliás, do Recife". Passarinho cita três oficiais da área de informações que acompanharam o caso. "Devo a um homem vivido e notável como o senhor essa informação", escreve, fazendo tais revelações, por carta, numa época em que o sigilo de correspondência nem sempre era respeitado. Aposentado em Brasília, Passarinho conta: "O próprio Vilaça sabe que eu dizia a verdade. Tanto que hoje sou padrinho de casamento de seu filho".

A amizade que a vida separou

Sérgio Buarque:
"Visão lírica"
Foto: Unicamp/Acervo
S. B. de Hollanda
 

Amigos de boemia no Rio, que passavam noites inteiras ouvindo a boa música de Pixinguinha, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda atravessaram o século XX como os grandes pensadores do país. Gilberto Freyre em função de Casa Grande & Senzala, Sérgio Buarque por causa de Raízes do Brasil, obras escritas na mesma década de 30. Numa carta de 1926, Gilberto Freyre conta que Sérgio Buarque é uma pessoa "interessante", colega de bebedeira e de visitas ao poeta Manuel Bandeira. Quem procurar rastros dessa amizade nos arquivos, contudo, ficará decepcionado. Na Universidade de Campinas, que guarda a correspondência de Sérgio Buarque, encontra-se um bilhete de Gilberto Freyre, de 1934, comunicando a publicação de Casa Grande & Senzala — e só. Em Apipucos, foram achadas, até agora, duas cartas, curtas e formais, de Sérgio Buarque. A primeira, de 1942, cumprimenta a família pelo nascimento de Sonia Maria, a filha de Gilberto Freyre — com dois meses de atraso. A segunda é de 1961. Presidente da Comissão Nacional de Filosofia, História e Ciências Sociais, encarregada de zelar pelo padrão de ensino, Sérgio Buarque assina um comunicado cobrando a presença de Freyre nas reuniões. Na verdade, os dois pensadores se afastaram em função das próprias idéias e diferenças políticas. Em 1951, Sérgio Buarque publicou uma série de artigos dizendo que, embora possuísse uma obra de muitos méritos, Gilberto Freyre apresentava apenas uma "visão lírica", isto é, bonita demais, da sociedade brasileira. Nos anos 70, Gilberto Freyre era um intelectual que apoiava o regime militar. Sérgio Buarque, que no fim da vida se divertia ao descobrir que se tornara mais conhecido como pai do compositor Chico Buarque, foi um dos fundadores do PT.




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