Roberto Pompeu de Toledo
Recomeços passados e presentes
"A noção de
que se está reinaugurando o país traz o duplo prejuízo
de
poder ser interpretada como um embuste, de um lado, e induzir
ao autoengano,
de outro"
Em
2010 completam-se 100 anos da morte de Joaquim Nabuco e Brasília faz cinquenta
anos. São duas efemérides que dizem dos destinos da pátria
de forma semelhante ambas têm a ver com recomeços, ou tentativas
de recomeço. Lembrar de Nabuco é lembrar da abolição
da escravatura, movimento do qual ele foi talvez o principal dos agentes, e com
certeza o mais elegante. Com a abolição pretendeu-se um recomeço.
Com Brasília, 72 anos depois da abolição, pretendeu-se outro.
Era a aurora de um país destemido, porque avançava por sertões
ignotos; dinâmico, porque ousara um empreendimento que só em sonho
outros ousariam; justo, porque na nova capital as diferenças de classe
e de hierarquia se dissolveriam na homogeneidade das superquadras e das vias expressas;
e moderno, porque os terrenos baldios daquele naco do Planalto Central seriam
preenchidos por uma arquitetura de riscos deslumbrantemente avançados.
Joaquim
Nabuco (1849-1910) forma, com José Bonifácio, o Patriarca da Independência
(1763-1838), a dupla de maiores estadistas da história do Brasil. Eles
merecem esse título não só pelo que fizeram, mas também
pela ideia geral que os movia a ideia rara, lúcida e generosa de
construção de uma nação. José Bonifácio
está fora das datas redondas que serão lembradas neste ano, mas
é outro que personifica um recomeço merece uma carona neste
texto, por isso. Ele personifica a independência, assim como Nabuco personifica
a abolição. Ambos venceram, no sentido de que, em grande parte pelas
manobras de Bonifácio, o Brasil em 1822 se tornou independente, assim como,
em grande parte pela pregação de Nabuco, a escravidão foi
legalmente abolida em 1888. Ambos perderam, porém, no que propunham como
sequên-cia necessária de tais objetivos.
Bonifácio
ousou querer dotar o jovem estado brasileiro de um povo. Ora, um povo não
podia ser formado por uma sociedade dividida entre senhores e escravos. Daí
que, três gerações antes de Nabuco, ele já propusesse
a abolição da escravidão. Falaram mais alto os interesses
dos traficantes e dos senhores de escravos. Nabuco, se pegou a fortaleza escravista
já mais desgastada, pronta para o assalto final, não teve êxito
na segunda parte de sua pregação: a distribuição de
terras entre os antigos escravos (ele dizia que a questão da "democratização
do solo" era inseparável da emancipação) e o investimento
num sistema de educação abrangente o bastante para abrigá-los.
Tal qual o de José Bonifácio, o recomeço pretendido por Nabuco
ficou pela metade.
Que dizer do recomeço representado
por Brasília? Há versões segundo as quais, entre os motivos
que levaram o presidente Juscelino Kubitschek a projetá-la, estaria a estratégia
de fugir da pressão popular presente numa metrópole como o Rio de
Janeiro. Uma espúria síndrome de Versalhes contaminaria, desse modo,
as nobres razões oficiais para a mudança da capital. Mais perverso
que a even-tual mancha de origem, no entanto, é o destino que estava reservado
à "capital da esperança". Meros quatro anos depois de
inaugurada, ela viraria, com seu isolamento dos grandes centros e suas avenidas
tão propícias à investida dos tanques, a capital dos sonhos
da ditadura militar. Hoje, é identificada com a corrupção
e a tramoia. Pode ser injusto. Falta demonstrar que, em outra cidade, a corrupção
e a tramoia teriam curso menos desimpedido. Não importa. Para a desgraça
de Brasília, o estigma grudou-lhe na pele.
"Falo,
falo, e não digo o essencial", costumava escrever Nelson Rodrigues.
O essencial é o seguinte: nunca antes neste país houve um governo
tão imbuído da ideia de que veio para recomeçar a história.
Embalado por um lado em seus próprios mitos, e por outro em festivos, se
não interesseiros, louvores internacionais, chega a esta quadra acreditando
que preside a uma inédita mudança de estruturas, na ordem interna,
ao mesmo tempo em que é premiado com uma promoção pela comunidade
internacional. Assim como ocorreu pelo menos duas vezes, em décadas recentes
com o "desenvolvimentismo" de JK e com o "milagre econômico"
dos militares , propaga-se a ideia de que "desta vez vai". A noção
de que se está reinaugurando o país traz o duplo prejuízo
de poder ser interpretada como um embuste, de um lado, e induzir ao autoengano,
de outro. Não há refundação possível. Raras
são as oportunidades de recomeço. O poder das continuidades é
sempre maior.
P.S.: É ano novo. Bom recomeço,
para quem acredita neles.
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