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Home  »  Revistas  »  Edição 2146 / 6 de janeiro de 2010


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Saúde

Enxugou, tem que esticar

O obeso que reduz o estômago e emagrece precisa encarar
uma nova e demorada empreitada: dar fim ao excesso de pele
e conviver com as cicatrizes. Na maioria dos casos, compensa plenamente


Suzana Villaverde

Fotos Arquivo Pessoal e Leo Frumond/Nitro
OUTRA VIDA
Cristiane e as cicatrizes da cirurgia bariátrica e da plástica: tudo vale quando o manequim baixa de 62 para 38


Para os obesos mórbidos que tomam a decisão de enfrentar a cirurgia bariátrica, a redução do tamanho do estômago produz resultados impressionantes: em alguns meses, a pessoa perde, em média, um terço do peso excessivo que prejudicava gravemente a saúde, o convívio social e o amor-próprio. Mas os muitos quilos a menos não são garantia de corpo em forma. Na maioria dos pacientes operados, as sobras de pele depois do emagrecimento radical chegam a formar um "avental" sobre a barriga, além de dobras nos braços e pernas, o que prejudica os movimentos e causa irritações. Só desaparecem com uma série de cirurgias plásticas que sempre deixam extensas cicatrizes. "Tudo o que o obeso quer é ficar magro. Mesmo alertada pelo médico, a maioria não pensa no que acontece depois de uma drástica perda de peso. Só quando consegue eliminar o excesso e vê o corpo todo flácido é que percebe que tem um novo problema", diz José Tariki, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Os especialistas calculam que em 90% dos casos é necessária alguma cirurgia reparadora depois da redução de estômago. "A necessidade varia conforme a idade, a genética, o sedentarismo. Mas, de um modo geral, trata-se de uma pele que foi submetida a estiramento exagerado e perdeu as propriedades elásticas para voltar ao lugar", explica o cirurgião plástico Rodrigo Gimenez. A auxiliar administrativa Cristiane Brites, 30 anos, de Belo Horizonte, removeu 1,5 quilo de pele da barriga, relativamente pouco para o padrão habitual das intervenções bariátricas, considerando-se que há casos de retirada de até 10 quilos. Estômago reduzido em 2007, em um ano ela baixou do manequim 62 para o 38. Com a ajuda da juventude, da pele de boa elasticidade e do bisturi, alcançou um resultado estético excelente. "Sempre fui gorda. Aos 15 anos, cheguei a pesar 145 quilos. Tinha vergonha de sair de casa", conta. Quando seu peso se estabilizou – hoje, com 1,73 metro, pesa 58 quilos –, Cristiane submeteu-se à plástica para esticar e remodelar a barriga e os seios. Dos implantes de 285 mililitros de silicone restou uma cicatriz em forma de T invertido na parte inferior, similar à das cirurgias do gênero. No abdômen, a marca da plástica reparadora aparece mais: um corte vertical que risca a região de alto a baixo e outro, horizontal, de um lado a outro dos quadris. "Depois que você fica magra e não tem mais do que reclamar, a cicatriz incomoda um pouco, sim. Mas não troco este corpo pelo outro de jeito nenhum", diz Cristiane, que já planeja a próxima plástica, nos braços. "É outra vida", comemora ela, que vai passar o verão na praia, de maiozinho engana-mamãe, aquele modelo com uma tira unindo a parte de baixo à de cima, ideal para esconder a cicatriz abdominal.

O roteiro da remoção das sobras de pele é demorado. Só começa quando, com avaliação médica, a perda de peso completa o ciclo. Uma vez iniciado, recomenda-se um intervalo de cerca de seis meses entre cada cirurgia de grandes dimensões. As obras de retirada de pele costumam começar no abdômen (preço: de 10.000 a 30.000 reais), e o corte deixa, na maioria dos casos, a extensa cicatriz em forma de âncora que se nota em Cristiane. "O excesso ocorre na região por inteiro. Para acinturar e dar forma, é preciso fazer um corte horizontal e um vertical, do meio do peito até a linha do biquíni", explica o cirurgião Gimenez. Em casos mais extremos, que apresentam flacidez no torso inteiro, a indicação é a cirurgia chamada de dermolipectomia circular, na qual um corte em 360 graus na altura dos quadris remove de uma só vez o excesso de pele na barriga, nas costas e nas nádegas. Para as mulheres, é quase obrigatório reconstituir os seios. "Com o emagrecimento radical, a mama perde boa parte de sua sustentação. Fica apenas um saquinho de pele vazio", diz Gimenez, que preenche o conteúdo com silicone ou tecido do próprio paciente. A braquioplastia retira pele dos braços, num corte que, conforme o caso, desce pela parte interna da axila até o cotovelo. Quando a flacidez é nas pernas, a cicatriz se esconde na virilha, mas o corte pode se estender na parte interna da coxa, de tamanho variável, e sempre fica aparente. Em raros casos, sobra pele no tornozelo, a qual é erguida e removida com uma incisão na altura do joelho. Se fossem intervenções feitas a partir de intuitos estéticos, custariam no total entre 35 000 e 80 000 reais. Mas tanto planos de saúde quanto o sistema público, o SUS, cobrem as cirurgias reparadoras. Quem não faz, em geral, é por medo de se submeter a mais cirurgias ou por desalento diante da fila de espera. Das 3 660 cirurgias bariátricas realizadas pelo SUS em 2008, somente 505 foram seguidas de plásticas, a maioria de abdômen. "Para um obeso mórbido com sérios problemas de saúde, perder peso vai além das questões estéticas", enfatiza o gastroenterologista Arthur Garrido, que já realizou 8 000 reduções de estômago em seu instituto. Antes da operação, seus pacientes assistem a uma palestra informativa de três horas, quando são mostrados casos extremos de flacidez e as marcas que resultam das cirurgias plásticas. "São raros os que desistem por causa dessas conse-quên-cias", informa Garrido.

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