Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
Brasil no pelotão dos desenvolvidos
Em
honra ao feito, alguns fatos recentes, uns tantos comentários e, para culminar,
até versos
De acordo com o último relatório
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado
na semana passada, o Brasil avançou para o primeiro dos três grupos
em que se dividem os países segundo o índice de desenvolvimento
humano (IDH). Deixamos o grupo intermediário, o dos países com "médio
desenvolvimento humano", e passamos a integrar, ainda que em septuagésimo
e último lugar, o honroso pelotão do "alto desenvolvimento
humano". O feito vale ser cantado em versos:
De
agora em diante, quando o assunto é ideagá, regozijemo-nos, irmãos:
chegamos lá!
O IDH,
criado pelo indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, é
uma medida que combina riqueza com níveis de escolarização
e expectativa de vida. A promoção do Brasil é atribuída
por um lado ao crescimento da renda proporcionado pelo programa Bolsa Família
e por outro pelo aumento da expectativa de vida, que passou dos 70,8 anos no relatório
do ano passado para os 71,7 anos no de 2007. Com isso, atingimos 0,800, a pontuação
mínima numa escala de zero a 1 para figurar entre os mais
desenvolvidos. O Brasil, se o leitor se recorda, é aquele país em
que, por ordem cronológica...
Segunda-feira
19: um turista italiano de 29 anos é morto em Ipanema ao tentar evitar
que fosse roubado o cordão de ouro de seu pai. Terça 20: os jornais
noticiam que uma menina, identificada como "L.", passou quase um mês
dividindo a mesma cela de delegacia com mais de vinte homens, no Pará.
Quinta 22: onze pessoas são presas, acusadas de pertencer à quadrilha
que, apesar de trancafiado numa cadeia tida como "de segurança máxima",
o notório Fernandinho Beira-Mar continuava a comandar. Sábado 24:
o corpo de uma professora uruguaia, decapitado e com evidências de que sofrera
estupro, é encontrado em Imbassaí, no litoral da Bahia. Domingo
25: uma arquibancada do superlotado Estádio da Fonte Nova, em Salvador,
desaba, causando sete mortes e dezenas de feridos. Ainda bem que...
Tais
probleminhas, um aqui, outro acolá, que são eles, diante de um
alto ideagá?
Domingo 25, "dia
internacional pela eliminação da violência contra a mulher":
a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal,
órgão da ONU) divulga relatório afirmando que três
em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de "violência
extrema". Terça 27: um mendigo é queimado na região
central de São Paulo. Tem 80% do corpo atingido e é internado em
estado desesperador. Mesmo dia: o delegado-geral da polícia do Pará
diz que a menina L., aquela trancafiada com os homens na delegacia, tem "alguma
debilidade mental". A culpa seria portanto dela. Ainda na terça 27:
a Fundação Getulio Vargas divulga estudo informando que 53% dos
brasileiros não contam com saneamento básico nos locais em que moram.
Ao ritmo em que avançam as obras no setor, a cobertura só será
completada, segundo o estudo, no ano de 2122. Ainda bem que, para contrabalançar
projeções tão pessimistas...
Aqui,
segundo atesta nosso ideagá, vigora alto padrão de vida desde
já.
Imagens fortes
são geradas do Brasil para o mundo. A do corpo do italiano morto em Ipanema,
estendido, coberto, no asfalto da Avenida Vieira Souto, enquanto a seu lado, sentado
no meio-fio, o irmão o velava, a cabeça enterrada entre as mãos,
alheio aos carros e às pessoas que passavam. A do Estádio da Fonte
Nova dividido: uma parte comemorando a ascensão do time do Bahia à
série B do Campeonato Brasileiro, aos pulos e gritos, no gramado, enquanto
outra parte, aflita, zonza ou desesperada, se reunia em torno dos mortos e feridos.
A da menina L. fotografada de costas, ao lado de um policial. Baixinha e miúda,
ela não chega ao ombro do acompanhante. É uma criança. Um
cínico poderia concluir:
Se
o ideagá tão bem nos trata em sua prancheta, figure-se como anda
o resto do planeta!
O governo
da Bahia e o do Pará chegaram a conclusões coincidentes quanto aos
desastres que os afligiam. O da Bahia decidiu implodir o estádio em que
ocorreu a tragédia do domingo. O do Pará vai demolir a delegacia
em que a menor L. esteve presa, trocando sexo por comida com os homenzarrões
que lhe faziam companhia. Ainda bem que existe o IDH para lembrar-nos que integramos
o pelotão dos países mais afortunados. Senão até poderíamos
imaginar um "poemeto da solução final":
Vão
pôr abaixo o Fonte Nova na Bahia e no Pará demolirão a
delegacia. Uma consulta, sem maldade ou intenção vil:
Será que dava pra demolir o Brasil?