Ele se afastou
do trabalho, voltou atrás, lida com patrulhas e a pressão pelo
ibope. As atribulações de Aguinaldo Silva à frente de
Duas Caras
Sérgio
Martins
Oscar
Cabral
Aguinaldo:
hipertensão e "assassinato cultural"
Desde
Roque Santeiro, de 1985, o noveleiro Aguinaldo Silva repete o mesmo ritual:
a certa altura, interrompe o trabalho no folhetim e tira alguns dias de férias.
Pode se dar ao luxo do descanso porque, como ele mesmo diz, é uma espécie
de operário-padrão, que mantém adiantada a redação
da história de preferência, com 36 capítulos de folga.
Desta vez, no entanto, a escapadela de Aguinaldo, em meio à exibição
da novela Duas Caras, ganhou tons dramáticos. No dia 23, a Rede
Globo divulgou uma nota anunciando que o autor ficaria afastado de seu posto pelo
menos até o fim do ano. Nos dias seguintes, Aguinaldo comentou a notícia
primeiro em seu blog, depois em entrevistas. No blog, ele combateu a idéia
de que a Globo lhe houvesse dado "um pontapé no traseiro". Na
imprensa, disse que havia decidido "sair do foco" por sofrer patrulhamentos:
ele temia ser vítima de um "assassinato cultural". Tudo era um
tanto vago e com isso Aguinaldo acendeu a fogueira de especulações.
O autor virou personagem de uma novela à parte, que teve um desfecho (provisório?,
definitivo?) na quarta-feira passada, quando as férias foram canceladas
e a rotina retomada. "Chega de bancar o garoto mimado", disse Aguinaldo
em seu blog. Ele prometeu ficar alheio a "implicâncias, futricas e
ódios" e, se preciso, "derramar até sangue" pelo
bom andamento da novela. "Sou capaz disso. Já terminei dois casamentos
por causa de trabalho", diz ele.
Sabe-se agora que a causa imediata do afastamento de Aguinaldo, de 63 anos, foi
uma crise de hipertensão. "A pressão estava em 17 por 11",
afirma o noveleiro. "Meu médico disse que eu teria de optar pela novela
ou pela vida." Não é improvável, contudo, que o problema
de saúde tenha sido reflexo de um conjunto de pressões. Para começar,
a pressão pelo sucesso de audiência. Duas Caras tem média
de ibope de 37 pontos. O número não deixa a Globo exultante
nem o próprio Aguinaldo. "Sou detentor do recorde do horário:
63 pontos, com Senhora do Destino. Hoje os tempos são outros, mas
queria que Duas Caras chegasse ao fim com pelo menos 44 pontos", diz
o autor.
Fotos divulgação/TV Globo
Flávia
Alessandra: alguém viu manchas roxas?
Outro
tipo de pressão decorre do fato de Aguinaldo, de maneira inédita,
ter decidido alimentar um blog em paralelo à novela. Boa parte dos escritos
na internet se destina a responder a críticas feitas contra Duas Caras.
Semanas atrás, por exemplo, Aguinaldo saiu em defesa de Marjorie Estiano,
atriz que interpreta a personagem Maria Paula. Ele acusou uma colunista de televisão
de inventar que a atriz não estava agradando no papel. "Futricas"
desse tipo, segundo Aguinaldo, são produto de uma imprensa especializada
que não gosta de novela e teima em desmerecer o gênero. Ele afirma
que defender seu trabalho dia após dia contra esse tipo de crítica
lhe causou a tal sensação de estar sendo vítima de "assassinato
cultural".
Na TV e na internet,
o autor também se enredou em brigas ideológicas. Seu blog está
repleto de mensagens malcriadas. "É uma gente que me chama de fascista
e nem sabe o significado da palavra. Escrevem facista, sem s!" Os
ataques decorrem do aspecto mais surpreendente de Duas Caras: trata-se
de uma novela que deixou de lado o politicamente correto e a reverência
ao esquerdismo embolorado (veja o quadro). Idéias e personagens
da esquerda recebem farpas na novela. O vilão da trama, Adalberto Rangel
(interpretado pelo ator Dalton Vigh), tem uma incômoda semelhança
bio-gráfica com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (os dois
recorreram à cirurgia plástica para mudar de identidade). A invasão
da reitoria da Universidade de São Paulo, ocorrida em meados deste ano,
teve sua contraparte na ficção e a simpatia do noveleiro
não recaiu sobre os alunos que lutavam contra o capitalismo. Num registro
mais cômico, a personagem Gioconda, interpretada por Marília Pêra,
responde a qualquer contratempo com uma frase irônica: "É a
globalização, meu bem, é o neoliberalismo".
Aguinaldo reconhe-ce que talvez tenha dado rédeas demais a suas ansiedades
nos últimos tempos. "Eu sou um pouco paranóico. Há dias
em que acho que estão lendo os meus e-mails." No futuro, é
bem provável que Duas Caras seja lembrada por seu corajoso abandono
do politicamente correto. De maneira mais imediata, ele pode se consolar com a
idéia de que a novela está há dois meses no ar. Ou seja,
seu ibope não é uma maravilha, mas há tempo para que ele
cresça até maio de 2008, quando a história se encerra. Há
duas semanas, a novela atingiu a marca de 45 pontos graças a uma dança
erótica da atriz Flávia Alessandra. Flávia sempre foi abençoada
com um corpão, que mantém enxuto com a ajuda de um "escultor
corporal" um novo nome para personal trainer. Sua personagem na novela
não desperdiça esses dotes físicos: Alzira faz "pole
dancing" num inferninho, ou seja, provoca marmanjos requebrando em torno
de uma haste de metal, protegida tão-somente por um tapa-sexo. Há
um mês e meio, Flávia se aprimora nesse gênero de "apresentação
artística" (as palavras são dela). A atriz instalou um "pole"
no quintal de casa e ensaia com uma professora particular. Não é
fácil. "No início eu me machuquei e agora já estou toda
roxa de novo atrás do joelho, no quadril, na costela, embaixo dos
braços", diz ela. Viu só, Aguinaldo? Ânimo. Tem mais
gente disposta a dar o sangue pela sua novela.
PÉROLAS DE INCORREÇÃO
Aguinaldo
Silva surpreendeu em Duas Caras, ao zombar do esquerdismo embolorado e rejeitar
o politicamente correto. Abaixo, algumas de suas farpas:
"Se
ser a favor da lei e da ordem é ser de direita, então eu sou de
direita." Branca, quando resolve chamar a polícia
e expulsar os estudantes que invadiram sua universidade
A
faculdade da novela é invadida: imitação da realidade
"Bagulho!
Tão vendo só? É esse o combustível dos vagabundos!
Caramba, eu não suporto nem o cheiro disso! Detesto quem vende... E também
não passo a mão na cabeça de quem usa: para mim, são
todos da mesma quadrilha!" Juvenal Antena, depois de achar
droga no bolso de um dos seqüestradores de Branca que ele conseguiu prender
Marília:
"Culpa da globalização"
GIOCONDA:
Porque é rico! E essa é a pior coisa que alguém pode
ser neste país do pobrismo. Você está correndo perigo Barreto!
Pode ser linchado em praça pública por ostentar o seu dinheiro! BARRETÃO: Até posso. Mas não perco a elegância.
Diálogo sobre o perigo de sair às ruas vestido elegantemente
LENIR:
Eles também chamaram para invadir a universidade o Movimento dos
Sem Casa! GIOCONDA: Sem casa, sem educação, sem
cultura, sem vergonha na cara... Gioconda, quando sabe que a universidade
da cunhada foi invadida por estudantes junto com um movimento dito social
"É
a globalização, meu bem, o neoliberalismo... A culpa é
do Fernando Henrique." Frase que Gioconda diz a propósito
de tudo, até do arroz que queimou na panela