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5 de dezembro de 2007
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Uma novela à parte

Ele se afastou do trabalho, voltou atrás, lida com
patrulhas e a pressão pelo ibope. As atribulações
de Aguinaldo Silva à frente de Duas Caras


Sérgio Martins

Oscar Cabral
Aguinaldo: hipertensão e "assassinato cultural"


Desde Roque Santeiro, de 1985, o noveleiro Aguinaldo Silva repete o mesmo ritual: a certa altura, interrompe o trabalho no folhetim e tira alguns dias de férias. Pode se dar ao luxo do descanso porque, como ele mesmo diz, é uma espécie de operário-padrão, que mantém adiantada a redação da história – de preferência, com 36 capítulos de folga. Desta vez, no entanto, a escapadela de Aguinaldo, em meio à exibição da novela Duas Caras, ganhou tons dramáticos. No dia 23, a Rede Globo divulgou uma nota anunciando que o autor ficaria afastado de seu posto pelo menos até o fim do ano. Nos dias seguintes, Aguinaldo comentou a notícia primeiro em seu blog, depois em entrevistas. No blog, ele combateu a idéia de que a Globo lhe houvesse dado "um pontapé no traseiro". Na imprensa, disse que havia decidido "sair do foco" por sofrer patrulhamentos: ele temia ser vítima de um "assassinato cultural". Tudo era um tanto vago – e com isso Aguinaldo acendeu a fogueira de especulações. O autor virou personagem de uma novela à parte, que teve um desfecho (provisório?, definitivo?) na quarta-feira passada, quando as férias foram canceladas e a rotina retomada. "Chega de bancar o garoto mimado", disse Aguinaldo em seu blog. Ele prometeu ficar alheio a "implicâncias, futricas e ódios" e, se preciso, "derramar até sangue" pelo bom andamento da novela. "Sou capaz disso. Já terminei dois casamentos por causa de trabalho", diz ele.

Sabe-se agora que a causa imediata do afastamento de Aguinaldo, de 63 anos, foi uma crise de hipertensão. "A pressão estava em 17 por 11", afirma o noveleiro. "Meu médico disse que eu teria de optar pela novela ou pela vida." Não é improvável, contudo, que o problema de saúde tenha sido reflexo de um conjunto de pressões. Para começar, a pressão pelo sucesso de audiência. Duas Caras tem média de ibope de 37 pontos. O número não deixa a Globo exultante – nem o próprio Aguinaldo. "Sou detentor do recorde do horário: 63 pontos, com Senhora do Destino. Hoje os tempos são outros, mas queria que Duas Caras chegasse ao fim com pelo menos 44 pontos", diz o autor.

Fotos divulgação/TV Globo
Flávia Alessandra: alguém viu manchas roxas?


Outro tipo de pressão decorre do fato de Aguinaldo, de maneira inédita, ter decidido alimentar um blog em paralelo à novela. Boa parte dos escritos na internet se destina a responder a críticas feitas contra Duas Caras. Semanas atrás, por exemplo, Aguinaldo saiu em defesa de Marjorie Estiano, atriz que interpreta a personagem Maria Paula. Ele acusou uma colunista de televisão de inventar que a atriz não estava agradando no papel. "Futricas" desse tipo, segundo Aguinaldo, são produto de uma imprensa especializada que não gosta de novela e teima em desmerecer o gênero. Ele afirma que defender seu trabalho dia após dia contra esse tipo de crítica lhe causou a tal sensação de estar sendo vítima de "assassinato cultural".

Na TV e na internet, o autor também se enredou em brigas ideológicas. Seu blog está repleto de mensagens malcriadas. "É uma gente que me chama de fascista e nem sabe o significado da palavra. Escrevem facista, sem s!" Os ataques decorrem do aspecto mais surpreendente de Duas Caras: trata-se de uma novela que deixou de lado o politicamente correto e a reverência ao esquerdismo embolorado (veja o quadro). Idéias e personagens da esquerda recebem farpas na novela. O vilão da trama, Adalberto Rangel (interpretado pelo ator Dalton Vigh), tem uma incômoda semelhança bio-gráfica com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (os dois recorreram à cirurgia plástica para mudar de identidade). A invasão da reitoria da Universidade de São Paulo, ocorrida em meados deste ano, teve sua contraparte na ficção – e a simpatia do noveleiro não recaiu sobre os alunos que lutavam contra o capitalismo. Num registro mais cômico, a personagem Gioconda, interpretada por Marília Pêra, responde a qualquer contratempo com uma frase irônica: "É a globalização, meu bem, é o neoliberalismo".

Aguinaldo reconhe-ce que talvez tenha dado rédeas demais a suas ansiedades nos últimos tempos. "Eu sou um pouco paranóico. Há dias em que acho que estão lendo os meus e-mails." No futuro, é bem provável que Duas Caras seja lembrada por seu corajoso abandono do politicamente correto. De maneira mais imediata, ele pode se consolar com a idéia de que a novela está há dois meses no ar. Ou seja, seu ibope não é uma maravilha, mas há tempo para que ele cresça até maio de 2008, quando a história se encerra. Há duas semanas, a novela atingiu a marca de 45 pontos graças a uma dança erótica da atriz Flávia Alessandra. Flávia sempre foi abençoada com um corpão, que mantém enxuto com a ajuda de um "escultor corporal" – um novo nome para personal trainer. Sua personagem na novela não desperdiça esses dotes físicos: Alzira faz "pole dancing" num inferninho, ou seja, provoca marmanjos requebrando em torno de uma haste de metal, protegida tão-somente por um tapa-sexo. Há um mês e meio, Flávia se aprimora nesse gênero de "apresentação artística" (as palavras são dela). A atriz instalou um "pole" no quintal de casa e ensaia com uma professora particular. Não é fácil. "No início eu me machuquei e agora já estou toda roxa de novo – atrás do joelho, no quadril, na costela, embaixo dos braços", diz ela. Viu só, Aguinaldo? Ânimo. Tem mais gente disposta a dar o sangue pela sua novela.

PÉROLAS DE INCORREÇÃO

Aguinaldo Silva surpreendeu em Duas Caras, ao zombar do esquerdismo embolorado e rejeitar o politicamente correto. Abaixo, algumas de suas farpas:

"Se ser a favor da lei e da ordem é ser de direita, então eu sou de direita."
Branca, quando resolve chamar a polícia e expulsar os estudantes que invadiram sua universidade

A faculdade da novela é invadida: imitação da realidade

"Bagulho! Tão vendo só? É esse o combustível dos vagabundos! Caramba, eu não suporto nem o cheiro disso! Detesto quem vende... E também não passo a mão na cabeça de quem usa: para mim, são todos da mesma quadrilha!"
Juvenal Antena, depois de achar droga no bolso de um dos seqüestradores de Branca que ele conseguiu prender

Marília: "Culpa da globalização"

GIOCONDA: Porque é rico! E essa é a pior coisa que alguém pode ser neste país do pobrismo. Você está correndo perigo Barreto! Pode ser linchado em praça pública por ostentar o seu dinheiro!
BARRETÃO: Até posso. Mas não perco a elegância.
Diálogo sobre o perigo de sair às ruas vestido elegantemente

LENIR: Eles também chamaram para invadir a universidade o Movimento dos Sem Casa!
GIOCONDA: Sem casa, sem educação, sem cultura, sem vergonha na cara...
Gioconda, quando sabe que a universidade da cunhada foi invadida por estudantes junto com um movimento dito social

"É a globalização, meu bem, o neoliberalismo...
A culpa é do Fernando Henrique.
"

Frase que Gioconda diz a propósito de tudo, até do arroz que queimou na panela

 

Com reportagem de Bel Moherdaui




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