Em fevereiro de 1982, o trio
inglês The Police fez duas únicas apresentações
no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro,
para uma platéia de roqueiros abnegados que
esnobaram o Carnaval a fim de prestigiar um grupo em carreira
ascendente. "Foi um bom show, mas a viagem nem tanto.
Minha lembrança mais clara é de uns sujeitos
de sunga e chinelo roubando nosso equipamento enquanto gravávamos
um clipe na praia", disse o baterista Stewart Copeland,
em entrevista a VEJA. Vinte e cinco anos depois, o Police
está de volta ao Rio. Eles tocam no sábado 8,
no Maracanã, para cerca de 80 000 pessoas. Se
na visita inicial boa parte da platéia desconhecia
o repertório, o público de hoje conhece de cor
as letras de clássicos como Every Breath You Take,King of Pain e Message in a Bottle. A única
semelhança entre o Police de 1982 e o de 2007 é
a relação, nem sempre cordial, entre Copeland,
Sting (baixo e vocais) e Andy Summers (guitarra). Ela é
feita de admiração e ódio, de reconhecimento
do talento alheio e de inveja criativa. A mistura desses elementos
foi vital para pôr o Police entre as principais bandas
de rock de todos os tempos. Mas também transformou
muitas vezes o relacionamento deles com perdão
do trocadilho em caso de polícia.
Brigas fazem parte da mitologia do rock (veja o quadro). São provocadas
por drogas, dinheiro, egos inflados ou pelo simples "desgaste do relacionamento"
entre músicos. As principais brigas no Police aconteceram entre Sting e
Copeland. São duas personalidades fortes o baixista é egocêntrico,
Copeland é explosivo e detém os direitos do nome da banda. O sucesso
e os milhões na conta bancária agiram como catalisadores. Uma das
piores brigas da dupla aconteceu em 1983, quando Copeland teria quebrado duas
costelas do companheiro com uma cadeirada. "Uma cadeira? Nada disso, no máximo
uma banqueta", diz Copeland. O trio se separou definitivamente três
anos depois e seus integrantes juraram nunca mais dividir um palco.
O Police surgiu em 1977, sob o apadrinhamento do empresário Miles Copeland,
irmão de Stewart. Sting, Copeland e Summers (que substituiu o francês
Henry Padovani, um mestre na arte da guitarra mal tocada) eram artistas de rock
progressivo, jazz e blues. Aderiram ao punk porque era o ritmo da moda. "Qualquer
melodia mais elaborada fazia Miles espumar de raiva", lembrou Sting, numa
entrevista recente. Foi a qualidade instrumental do trio que fez com se destacasse.
Canções como Roxanne, Walking on the Moon e So Lonely,
presentes nos dois primeiros discos, têm influências de bossa nova
e reggae, gêneros que não faziam parte do cardápio musical
dos punks. Além disso, Sting possuía uma habilidade rara para criar
canções de apelo pop, com letras inteligentes e refrãos eficientes.
Copeland e Summers estão longe de ser virtuoses, mas influenciaram duas
gerações de instrumentistas.
No início do ano passado, Sting ligou para Copeland e propôs o retorno
do Police para uma turnê mundial. "Ele gosta de sofrer. Não
há nada mais doloroso que tocar ao meu lado", diz o baterista. É
claro que todos levaram em conta os lucros que o retorno do Police iria gerar.
A turnê rendeu até agora 171 milhões de dólares, tornando-se
a mais lucrativa de 2007. Boa parte do público comparece aos shows movida
pela nostalgia. Uns poucos ficam atentos às provocações entre
os músicos por onde a banda passou, houve relatos de "momentos
de tensão". Segundo Copeland, não se deve esperar nada dramático.
"Todo mundo reclama de quanto Sting é chato, com aquela conversa de
ecologia e sexo tântrico. Sim, é verdade. E às vezes eu mando
ele se mexer um pouco mais no palco. Mas sinto prazer em tocar ao seu lado",
diz Copeland.
Bandas de rock que não se toleram
Eagles Principais
brigas: nos tribunais. São processados por ex-companheiros de
banda por causa de demissões injustas e calotes de turnê
Black
Sabbath Principais brigas: no estúdio. Ronnie
Dio, cantor do grupo, costuma aumentar sua voz em detrimento dos outros instrumentos
e o grupo se enfrenta a tapas
The
Who Principais brigas: no palco. Alterados pelo excesso
de substâncias químicas, os integrantes do quarteto tinham o péssimo
costume de se atracar no palco
Michael
Ochs Archives/Getty Images
Ramones Principais
brigas: no palco, no estúdio, no banheiro... O guitarrista Johnny
Ramone roubou a namorada do vocalista Joey Ramone e os dois morreram sem voltar
a se falar