Sob o comando do austero general
William Tecumseh Sherman (1820-1891), o exército ianque
empreendeu uma longa travessia de Atlanta, na Geórgia,
até Savannah, já na região litorânea,
e depois rumo à Carolina do Sul e do Norte, estados
confederados. Sherman conhecia bem a motivação
central de seus soldados: a pilhagem. Cidades e fazendas foram
destruídas para enfraquecer os sulistas, mas também
para dividir o butim. Uma das passagens mais terríveis
da Guerra Civil Americana que opôs o norte do
país ao sul escravista, entre 1861 e 1865 , a
campanha arrasadora do general da União é o
tema de um romance histórico exemplar: A Marcha
(tradução de Roberto Muggiati; Record; 416 páginas;
39 reais). Conhecido sobretudo por outra ficção
histórica, Ragtime, que se passa nas primeiras
décadas do século XX, E.L. Doctorow, de 76 anos,
construiu um admirável painel dos dramas humanos precipitados
pela guerra. Seu romance examina os personagens reais
ou fictícios que vivem nas zonas morais ambíguas
próprias do conflito.
Sherman
é uma dessas figuras contraditórias. Embora seja movido pelo desejo
de acabar com a escravidão, ele mesmo é um racista. Os escravos
libertos acompanham seu exército como um peso morto, pois o general não
admite negros na frente de batalha. Outra personagem, a sulista Emily Thompson,
perde o pai e a propriedade na guerra, mas acaba se juntando ao inimigo ianque,
como enfermeira, depois que se apaixona por Wedre Sartorius, médico da
União. Josiah Culp e o negro Calvin vagam pela região do conflito
no exercício de uma nova técnica: a fotografia, pela primeira vez
utilizada extensamente para registrar uma guerra.
Nenhum
personagem é mais emblemático do que Pearl Wilkins. Filha de uma
escrava com o patrão, ela tem a pele branca. Vivendo entre duas raças,
dois mundos, Pearl acompanha o exército em busca da liberdade. Travestida
de menino do tambor, é adotada por um tenente e depois por um general Sherman
atormentado pela perda do filho. Mas logo Pearl retoma sua identidade de mulher
negra, unindo-se a um soldado irlandês que teve uma infância pobre
nas ruas de Nova York união que parece ser um esperançoso
recado de Doctorow aos Estados Unidos de hoje: a miscigenação como
resposta ao racismo. A Marcha, aliás, traz suas alusões subterrâneas
ao atual conflito do Iraque. Para Doctorow, o romance histórico funciona
como uma metáfora do tempo presente. A Marcha leva o leitor à
conclusão de que não existe passado é sempre agora.