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5 de dezembro de 2007
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Cinema
Diretor & personagem

O brilho de O Sobrevivente está em que todos os
protagonistas de Herzog são o próprio Herzog


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Em 1965, quando a incursão militar que viria a eclodir na Guerra do Vietnã ainda estava em seu princípio, o alemão de nascimento e americano de passaporte Dieter Dengler realizou sua primeira missão como tenente da Força Aérea dos Estados Unidos: um sobrevôo sigiloso sobre o Laos. Dengler foi abatido, resistiu à queda e imediatamente começou a se esconder, para não ser capturado pelos vietcongues. Não adiantou: foi parar num campo de prisioneiros primitivo, onde durante meses sofreu maus-tratos indescritíveis em companhia de outros americanos e também de asiáticos. Esse punhado de homens já estava ali havia tempo. Evidentemente, todos apresentavam danos físicos e psicológicos profundos. Dengler, porém, chegou ao lugar como uma ventania, ora revigorando ora perturbando os companheiros com seu otimismo e seu senso prático. O piloto nunca se quebrou, como os outros homens, porque desde o primeiro minuto encarou sua estada naquele lugar de horrores como estritamente temporária – e desde o primeiro instante se pôs a planejar uma fuga. Também essa viria a ser um calvário. O qual Dengler, mais uma vez, atravessou porque nunca lhe ocorreu desistir. Chegou ao fim da aventura esquálido, ferido, delirante. Mas chegou. Trata-se, enfim, de uma história sob medida para o temperamento e para as fixações do diretor alemão Werner Herzog, que com O Sobrevivente (Rescue Dawn, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, faz seu primeiro filme de gênero. E um dos melhores de todos os seus filmes.

Com seu instinto para escolher atores, o diretor dá a Christian Bale um papel tão rico, tão arrebatador e cheio de oportunidades que só por insensatez será possível ignorá-lo no próximo Oscar. Como sempre, porém, o verdadeiro astro dos filmes de Herzog é o próprio Herzog. O cineasta já havia feito um documentário sobre o protagonista da história, O Pequeno Dieter Precisa Voar (1997). Retomando o personagem em O Sobrevivente, ele leva um passo adiante a sua proposta de borrar os limites entre ficção e fato e mostrá-los como lados de uma única moeda. Mas essa hipótese não vale para qualquer diretor. Ela vale para Herzog porque todos os seus protagonistas são desdobramentos dele próprio. Não é um caso de mera empatia ou compreensão, já que não é o diretor que se coloca no lugar deles. Eles é que estão ali para se colocar no lugar do diretor.

Enquanto Herzog conta a história de Dengler, muito da palpitação que ele imprime ao filme vem desse processo psicológico fascinante. (Que tem um quê de egolatria, mas não só: no decorrer de sua carreira, ele pôs a si mesmo inúmeras vezes no meio da natureza em estado bruto, com tarefas complexas a realizar – dirigir filmes como Aguirre e Fitzcarraldo.) O Sobrevivente só perde no final, numa passagem de tom meio patriótico que destoa do conjunto. Herzog é melhor quando é apenas ele mesmo: inflexível e irredutível.




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