Em 1965, quando a incursão
militar que viria a eclodir na Guerra do Vietnã ainda
estava em seu princípio, o alemão de nascimento
e americano de passaporte Dieter Dengler realizou sua primeira
missão como tenente da Força Aérea dos
Estados Unidos: um sobrevôo sigiloso sobre o Laos. Dengler
foi abatido, resistiu à queda e imediatamente começou
a se esconder, para não ser capturado pelos vietcongues.
Não adiantou: foi parar num campo de prisioneiros primitivo,
onde durante meses sofreu maus-tratos indescritíveis
em companhia de outros americanos e também de asiáticos.
Esse punhado de homens já estava ali havia tempo. Evidentemente,
todos apresentavam danos físicos e psicológicos
profundos. Dengler, porém, chegou ao lugar como uma
ventania, ora revigorando ora perturbando os companheiros
com seu otimismo e seu senso prático. O piloto nunca
se quebrou, como os outros homens, porque desde o primeiro
minuto encarou sua estada naquele lugar de horrores como estritamente
temporária e desde o primeiro instante se pôs
a planejar uma fuga. Também essa viria a ser um calvário.
O qual Dengler, mais uma vez, atravessou porque nunca lhe
ocorreu desistir. Chegou ao fim da aventura esquálido,
ferido, delirante. Mas chegou. Trata-se, enfim, de uma história
sob medida para o temperamento e para as fixações
do diretor alemão Werner Herzog, que com O Sobrevivente
(Rescue Dawn, Estados Unidos, 2006), que estréia
nesta sexta-feira no país, faz seu primeiro filme de
gênero. E um dos melhores de todos os seus filmes.
Com seu instinto para escolher atores, o diretor dá a Christian Bale um
papel tão rico, tão arrebatador e cheio de oportunidades que só
por insensatez será possível ignorá-lo no próximo
Oscar. Como sempre, porém, o verdadeiro astro dos filmes de Herzog é
o próprio Herzog. O cineasta já havia feito um documentário
sobre o protagonista da história, O Pequeno Dieter Precisa Voar (1997).
Retomando o personagem em O Sobrevivente, ele leva um passo adiante a sua
proposta de borrar os limites entre ficção e fato e mostrá-los
como lados de uma única moeda. Mas essa hipótese não vale
para qualquer diretor. Ela vale para Herzog porque todos os seus protagonistas
são desdobramentos dele próprio. Não é um caso de
mera empatia ou compreensão, já que não é o diretor
que se coloca no lugar deles. Eles é que estão ali para se colocar
no lugar do diretor.
Enquanto Herzog
conta a história de Dengler, muito da palpitação que ele
imprime ao filme vem desse processo psicológico fascinante. (Que tem um
quê de egolatria, mas não só: no decorrer de sua carreira,
ele pôs a si mesmo inúmeras vezes no meio da natureza em estado bruto,
com tarefas complexas a realizar dirigir filmes como Aguirre e Fitzcarraldo.)
O Sobrevivente só perde no final, numa passagem de tom meio patriótico
que destoa do conjunto. Herzog é melhor quando é apenas ele mesmo:
inflexível e irredutível.