Há
quase dez anos, o comediante Jerry Seinfeld colocou o ponto
final naquela que é a série de televisão
mais fervorosamente cultuada em todo o mundo, Seinfeld.
Não muito depois, casou-se com uma moça, Jessica,
que conheceu quando ela acabava de voltar da lua-de-mel com
o herdeiro de uma família de empresários teatrais
(a fofoca que circulou na ocasião, e ainda não
morreu, é que a noiva trocou um bom partido por um
ótimo partido). Protagonizou um documentário
de lançamento restrito, Comedian, e participou
de um especial da HBO. Teve três filhos, escreveu um
livro infantil e nunca parou de fazer suas apresentações-solo
no palco. Aos olhos do próprio Seinfeld, portanto,
essa foi uma década cheia de acontecimentos. Mas a
percepção do público e da indústria
de entretenimento é diversa: para eles, o comediante
simplesmente saiu de cena. Depois de fazer uma série
sobre o nada (como ele definiu Seinfeld certa vez,
numa frase célebre), ele foi fazer nada, descansando
sobre seus louros e sobre sua fortuna (estima-se que o programa
tenha arrecadado 1 bilhão de dólares com a venda
de direitos de exibição). Não é
casualidade, então, que Seinfeld tenha se atirado à
tarefa de promover Bee Movie A História
de uma Abelha(Bee Movie, Estados Unidos, 2007),
em prol do qual chegou a voar sobre Cannes, dentro de uma
fantasia de abelha. Concebido, supervisionado e estrelado
por ele (ou por sua voz), o desenho animado que estréia
nesta sexta-feira no país virou assunto sério
a aposta cara e calculada de Seinfeld para voltar à
corrente sanguínea da cultura pop.
Durante quase quatro anos, Seinfeld e três redatores trabalharam no roteiro;
a direção foi repartida entre uma dupla com experiência na
Disney e na DreamWorks de Shrek, que bancou o projeto de 150 milhões
de dólares; e, em todo o processo, Jeffrey Katzenberg e Steven Spielberg,
sócios na DreamWorks, ficaram à disposição do comediante
na empreitada que lhe é duplamente nova Seinfeld nunca fez cinema
antes, que dirá animação. Bee Movie representa um
saldo sólido para todo esse esforço. À primeira vista uma
história infantil, sobre uma jovem abelha, Barry B. Benson, que quer conhecer
o mundo antes de se entregar a um mesmo emprego pelo resto da vida, o filme rapidamente
evolui, no ritmo e no tom, para uma espécie de episódio heterodoxo
de Seinfeld, em que a fauna nova-iorquina é tornada mais, digamos,
literal. Barry ganha o céu, sobre o Central Park, e logo cai num inferno
de pequenos sofrimentos para criaturas do seu gênero carros por todo
lado, com pára-brisas ameaçadores; objetos coloridos, que parecem
flores, mas zunem a velocidades espantosas (na verdade, bolas de tênis);
jornais e revistas que, enrolados, são armas mortais contra insetos (a
Vogue italiana, com suas centenas de páginas de anúncios,
é considerada particularmente perigosa); seres humanos tão urbanizados
que entram em modo assassino à vista de uma inofensiva abelha e que
horror dos horrores consomem sem piedade o mel que a colméia se
esfalfa para produzir.
Numa guinada do mais absoluto e delicioso nonsense, Barry se apaixona pelo único
ser humano que não pensa em esmagá-lo a florista Vanessa,
com a voz de Renée Zellweger. (No mundo de Seinfeld, quando os astros se
alinham e um sujeito e uma garota descobrem que têm tudo a ver um com o
outro, ele calha de ser um inseto e ela, uma mulher.) Papo vai papo vem, Vanessa
larga o namorado brucutu para ajudar Barry em sua causa: processar a humanidade
pelo roubo do mel. A essa altura, Bee Movie meio que já se esqueceu
da platéia infantil, a qual dificilmente pegaria referências como
o advogado sulista untuoso e racista, a preocupação da mãe
de Barry com a paixão do filho por uma shiksa (uma moça não-judia,
ou, aqui, não-abelha) ou a diatribe antiautoridade do pernilongo dublado
pelo comediante negro Chris Rock. Embora a animação vertiginosa
seja todo o tempo uma isca eficiente para as crianças, quem está
se divertindo de verdade, nesse ponto, são os adultos. Bee Movie,
como Seinfeld, não é genial no todo. Mas tem lampejos de
genialidade intensos o suficiente para justificar a reputação de
seu criador.