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5 de dezembro de 2007
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Cinema
A volta do homem de 1 bilhão

Há quase uma década distante de seu público,
o comediante Jerry Seinfeld retorna à corrente
sanguínea do pop – na forma de uma abelha


Isabela Boscov

Fotos divulgação
A abelha Barry, "interpretada" por Seinfeld, e o pernilongo com voz de Chris Rock: mal cai em Nova York, e ele já fica neurótico

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Trailer do filme

Há quase dez anos, o comediante Jerry Seinfeld colocou o ponto final naquela que é a série de televisão mais fervorosamente cultuada em todo o mundo, Seinfeld. Não muito depois, casou-se com uma moça, Jessica, que conheceu quando ela acabava de voltar da lua-de-mel com o herdeiro de uma família de empresários teatrais (a fofoca que circulou na ocasião, e ainda não morreu, é que a noiva trocou um bom partido por um ótimo partido). Protagonizou um documentário de lançamento restrito, Comedian, e participou de um especial da HBO. Teve três filhos, escreveu um livro infantil e nunca parou de fazer suas apresentações-solo no palco. Aos olhos do próprio Seinfeld, portanto, essa foi uma década cheia de acontecimentos. Mas a percepção do público e da indústria de entretenimento é diversa: para eles, o comediante simplesmente saiu de cena. Depois de fazer uma série sobre o nada (como ele definiu Seinfeld certa vez, numa frase célebre), ele foi fazer nada, descansando sobre seus louros e sobre sua fortuna (estima-se que o programa tenha arrecadado 1 bilhão de dólares com a venda de direitos de exibição). Não é casualidade, então, que Seinfeld tenha se atirado à tarefa de promover Bee Movie – A História de uma Abelha (Bee Movie, Estados Unidos, 2007), em prol do qual chegou a voar sobre Cannes, dentro de uma fantasia de abelha. Concebido, supervisionado e estrelado por ele (ou por sua voz), o desenho animado que estréia nesta sexta-feira no país virou assunto sério – a aposta cara e calculada de Seinfeld para voltar à corrente sanguínea da cultura pop.

Durante quase quatro anos, Seinfeld e três redatores trabalharam no roteiro; a direção foi repartida entre uma dupla com experiência na Disney e na DreamWorks de Shrek, que bancou o projeto de 150 milhões de dólares; e, em todo o processo, Jeffrey Katzenberg e Steven Spielberg, sócios na DreamWorks, ficaram à disposição do comediante na empreitada que lhe é duplamente nova – Seinfeld nunca fez cinema antes, que dirá animação. Bee Movie representa um saldo sólido para todo esse esforço. À primeira vista uma história infantil, sobre uma jovem abelha, Barry B. Benson, que quer conhecer o mundo antes de se entregar a um mesmo emprego pelo resto da vida, o filme rapidamente evolui, no ritmo e no tom, para uma espécie de episódio heterodoxo de Seinfeld, em que a fauna nova-iorquina é tornada mais, digamos, literal. Barry ganha o céu, sobre o Central Park, e logo cai num inferno de pequenos sofrimentos para criaturas do seu gênero – carros por todo lado, com pára-brisas ameaçadores; objetos coloridos, que parecem flores, mas zunem a velocidades espantosas (na verdade, bolas de tênis); jornais e revistas que, enrolados, são armas mortais contra insetos (a Vogue italiana, com suas centenas de páginas de anúncios, é considerada particularmente perigosa); seres humanos tão urbanizados que entram em modo assassino à vista de uma inofensiva abelha e que – horror dos horrores – consomem sem piedade o mel que a colméia se esfalfa para produzir.

Numa guinada do mais absoluto e delicioso nonsense, Barry se apaixona pelo único ser humano que não pensa em esmagá-lo – a florista Vanessa, com a voz de Renée Zellweger. (No mundo de Seinfeld, quando os astros se alinham e um sujeito e uma garota descobrem que têm tudo a ver um com o outro, ele calha de ser um inseto e ela, uma mulher.) Papo vai papo vem, Vanessa larga o namorado brucutu para ajudar Barry em sua causa: processar a humanidade pelo roubo do mel. A essa altura, Bee Movie meio que já se esqueceu da platéia infantil, a qual dificilmente pegaria referências como o advogado sulista untuoso e racista, a preocupação da mãe de Barry com a paixão do filho por uma shiksa (uma moça não-judia, ou, aqui, não-abelha) ou a diatribe antiautoridade do pernilongo dublado pelo comediante negro Chris Rock. Embora a animação vertiginosa seja todo o tempo uma isca eficiente para as crianças, quem está se divertindo de verdade, nesse ponto, são os adultos. Bee Movie, como Seinfeld, não é genial no todo. Mas tem lampejos de genialidade intensos o suficiente para justificar a reputação de seu criador.




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