Os
cartões de afinidade ganham novo impulso ao se associar a causas ecológicas
e oferecer vantagens financeiras
Fernanda Galvão
Os cartões de afinidade,
emitidos por bancos com o logotipo ou o símbolo de empresas, clubes esportivos
e instituições, fizeram grande sucesso na década passada.
Havia cartões de crédito de partidos políticos, de associações
ambientais, de lojas e até de igrejas. A primeira versão do produto
tinha apenas caráter filantrópico ou associativo. O titular não
recebia nenhuma vantagem financeira. Ao optar por ele, além de pagar as
taxas normais às administradoras, o portador concordava em ajudar financeiramente
seu time de futebol ou entidade assistencial de preferência. Cada vez que
um torcedor utilizava o cartão, por exemplo, seu time mordia uma fatia
do valor da compra, ou uma parte da anuidade e da taxa de renovação.
Após um sucesso inicial, a idéia fracassou. O cartão do Partido
dos Trabalhadores, lançado em 1995 com a promessa de arrebatar o coração
da militância, atualmente não conta com mais do que 100 associados.
Hoje são pouquíssimas as pessoas que carregam cartões de
times. Segundo o diretor de marketing do Palmeiras, Rogério Dezembro, a
receita conseguida com os cartões agora é próxima de zero.
"Eles caíram no esquecimento", diz.
A
que se deve o fracasso? Não à falta de vontade dos consumidores,
mas à ausência de benefícios aos usuários e à
obsolescência dos motivos associados aos cartões. Num mercado cada
vez mais competitivo, até os mais aguerridos torcedores e fiéis
passaram a exigir algo em troca. Sem vantagens, não havia jogo. As administradoras
tiraram lições de erros passados. Agora, compartilham ganhos, financeiros
ou coletivos. A distribuidora de combustíveis Ipiranga, por exemplo, lançou
um produto ecologicamente correto. O recém-lançado Carbono Zero
é um cartão de crédito que, segundo a empresa que
vende a poluente gasolina e outros combustíveis fósseis ,
direciona parte dos valores gastos pelo usuário para ações
de neutralização da emissão de gás carbônico
na atmosfera.
Cristiano Mascaro
Culto evangélico: parceria entre o Bradesco
e igrejas pode render até isenção de anuidade no primeiro ano
Para isso, a Ipiranga adquiriu 5 000 toneladas de créditos de carbono da
companhia MaxAmbiental, que administra florestas no Paraná. A cada transação
realizada pelo usuário do cartão em um dos postos Ipiranga, a empresa
divide o valor da compra pelo preço médio do litro do combustível
e calcula, para cada tipo de combustível, o porcentual de emissões
que será neutralizado (a gasolina, por exemplo, emite 1,2 quilo de CO2
por litro). Outro cartão associado a causas ambientais é o da SOS
Mata Atlântica. A entidade tem em sua base cerca de 200 000 cartões
e a quantidade emitida supera a taxa de cancelamentos. Lançado em 1994,
o cartão já reverteu cerca de 30 milhões de reais para a
entidade.
Segundo o Bradesco,
o maior administrador de cartões de afinidade do país, apenas neste
ano já foram transferidos 200 milhões de reais para as setenta entidades
envolvidas. Ainda assim, a participação desses cartões é
ínfima se comparada ao total de cartões. Nos primeiros nove meses
de 2007, o Bradesco alcançou a marca de 16,3 milhões de cartões
de crédito, com uma movimentação de 23,5 bilhões de
reais. Os cartões de afinidade não passam de 300.000 menos
de 2% do total operado pelo banco. O Bradesco concentra boa parte das parcerias
com igrejas no país: são oito cartões de quatro entidades
Assembléia de Deus, Convenção Batista Brasileira,
Fundação Renascer e Solidariedade Católica. O fiel consumidor
pode receber, além da satisfação espiritual, alguns mimos,
como a isenção da anuidade no primeiro ano. Como no caso dos cartões
de times, aqui não há milagres. Trazer novos compradores ao rebanho
é justamente a meta dos bancos, que querem usar a proximidade emocional
como uma ferramenta de comunicação junto a um nicho de consumidores
que não seria atendido de outra forma.
Isso faz com que os cartões de afinidade tenham de enfrentar várias
dificuldades em sua expansão. A primeira é a concorrência
dos plásticos dos próprios bancos. O HSBC, por exemplo, só
lançou seu primeiro cartão de afinidade em 2005, quando colocou
na praça o HSBC Solidariedade. Inicialmente, os recursos obtidos eram todos
repassados para a Pastoral da Criança, que recebeu cerca de 6 milhões
de reais. O sucesso foi tanto que o banco quis reparti-lo com outras entidades
e criou o Instituto HSBC, que, além da Pastoral, busca atender outras cerca
de 120 organizações filantrópicas no país. "Agora,
o instituto é responsável por dividir e destinar todos os recursos
recebidos pelo cartão, que já soma 200.000 clientes", diz Henrique
Frayha, diretor executivo de cartões de crédito do HSBC. O banco
destina cerca de 0,6% da taxa recebida sobre as transações realizadas
com o cartão e ainda repassa as doações dos usuários,
que variam de 10 a 30 reais por mês. O doador ganha a primeira anuidade.
Há outra disputa, entre os próprios cartões de afinidade.
Isso porque é impossível achar alguém disposto a ter, ao
mesmo tempo, um cartão de um time de futebol, de uma igreja, de uma entidade
ambiental e de uma instituição de caridade. Nem sempre há
tanto amor assim por uma boa causa nem tanto dinheiro para gastar.
No entanto, apesar das mudanças radicais nesse segmento, ainda há
aqueles cartões que conseguem sobreviver sem dar nenhum tipo de retorno
financeiro a seus usuários. Eles se sustentam apenas em razão da
marca positiva das entidades afins e do apelo das causas que defendem. Nesse sentido,
um dos mais bem-sucedidos é o que leva o logotipo do Instituto Ayrton Senna,
que se dedica à melhoria da educação no país. Ele
já está no mercado há onze anos e tem baixo índice
de cancelamento dos usuários um terço de seus 200.000 clientes
atuais o possui desde o lançamento. Emitido pela Credicard, há versões
nacional e internacional das bandeiras Visa e Mastercard. Toda operação
efetuada com o cartão resulta em recursos para a entidade. Desde que foi
criado, em 1996, o cartão já levantou 30 milhões de reais
para o instituto. O impacto no orçamento é grande: anualmente, o
Instituto Ayrton Senna investe 18 milhões de reais em seus projetos educacionais.
A receita para o sucesso do cartão, segundo Margareth Goldenberg, diretora
executiva da entidade, baseia-se em dois pilares. O primeiro deles é a
transparência nos resultados. A cada dois meses, o titular do cartão
recebe um relatório, junto com sua fatura mensal, que descreve todas as
ações realizadas pela entidade e, no fim do ano, é enviado
um balanço financeiro completo da instituição. O segundo
pilar, obviamente, é a credibilidade do ídolo Ayrton Senna. "O
mais espantoso é que não realizamos investimentos na marca ou na
valorização da imagem do Ayrton", diz Margareth. "Nossas
campanhas publicitárias são inteiramente voluntárias, desde
as personalidades que delas participam, a agência de propaganda que as desenvolve
até o espaço oferecido pela mídia. Tudo é gratuito",
afirma ela. Para entidades que não têm um personagem tão carismático
como o piloto brasileiro, a solução é acrescentar uma parcela
de pragmatismo ao idealismo e abrir mão de parte dos resultados.