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5 de dezembro de 2007
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De passagens a pastéis

O uso de cartões se espalha pelo varejo
e estimula os negócios


Altair Silva

Fotos Lailson Santos e Daniela Picoral
O AVANÇO DO PLÁSTICO
Já se pode usar cartão para parcelar viagens aéreas em 36 vezes ou até nas feiras livres

Os colegas de Hélio Massaaki Teruya, proprietário de uma barraca de pastéis em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, estranharam quando terminais de cartões de pagamento surgiram ao lado do fogareiro e dos tambores de óleo. Teruya talvez tenha se tornado o primeiro pasteleiro a crédito do Brasil. Graças à inovação, as vendas cresceram 20%, segundo sua própria contabilidade. "O pastel custa 1,70 real, mas o comprador não quer passar uma quantia tão baixa no cartão. Aí ele decide comer mais", diz Teruya, que trabalha na feira há dezessete anos. Guardadas as devidas proporções, Constantino de Oliveira Junior, presidente da companhia aérea Gol, também percebeu que os cartões estimulam o consumidor a gastar mais. Há dois anos, a empresa lançou um que permite ao passageiro parcelar sua compra em até 36 meses. Com isso, a Gol multiplicou as viagens por consumidor e agregou novos passageiros. Neste ano, por exemplo, dos 17 milhões de clientes, cerca de 1 milhão foi conquistado graças ao novo cartão. Muitos deles nunca haviam deixado antes a terra firme. "O cartão é um instrumento excepcional para ampliar o universo de clientes", diz Murilo Barbosa, diretor de marketing e serviços da Varig, empresa aérea comprada pela Gol em março.

Não há atividade comercial hoje que dispense cartões, sejam de crédito, sejam de débito. Eles se transformaram no principal meio de pagamento de todas as classes. Para o consumidor, é uma forma de contar com um dinheiro que ele não possui naquele dia – no bolso ou na conta bancária. Mas nem sempre foi fácil assim consumir. Diversas empresas nem deixavam os clientes pagar contas com cartão. Isso porque não queriam ceder parte de suas receitas (cerca de 4%) para as administradoras. O clamor da clientela foi tão intenso que convenceu até os mais avessos, como o empresário Michael Klein, o principal executivo das Casas Bahia, a maior rede de venda de eletrodomésticos do Brasil. Klein tinha uma cláusula pétrea: o cliente que comprasse parcelado – ou seja, quase todos – teria de voltar à loja para honrar seus carnês. De preferência, para ser abordado por outro vendedor e adquirir um novo produto. No entanto, a empresa vinha notando que seus clientes tradicionais já pos-suíam cartão e que os consumidores com maior renda, justamente os que compram produtos mais caros, como TVs de plasma, detestavam a idéia de se deslocar até uma loja para pagar o carnê. Em setembro de 2002, as Casas Bahia passaram a aceitar pagamentos com cartão de crédito. Em 2005, a rede não só se rendeu ao cartão eletrônico como foi além. Associou-se ao maior banco varejista, o Bradesco, para oferecer cartões que levam seu nome, os chamados cartões de marca própria, aos clientes que ainda não possuem o plástico. Resultado: já existem 3,6 milhões de cartões das Casas Bahia em circulação. Todos os dias, as lojas de Klein emitem 10.000 novos plásticos.

Robson Fernandjes/AE

DISPUTA PELA RECEITA
Loja do Carrefour: a rede vai dividir o ganho de alguns de seus 7,1 milhões de cartões com as administradoras

Os cartões de marca própria têm várias finalidades. Em primeiro lugar, fidelizam o cliente. Ou seja: mantêm a clientela cativa. Depois, permitem aos varejistas ficar com parte do ganho financeiro que, com o uso de cartões normais, iria integralmente para as instituições financeiras. E o mais importante: cartões próprios são um dos melhores instrumentos disponíveis para conhecer o cliente, segundo Murilo Barbosa, da Varig, comprada pela Gol. "Um cartão possibilita que o emissor conheça hábitos de consumo e preferências do cliente, o que permite lançar campanhas de marketing com uma precisão cirúrgica", diz ele. Por isso as empresas emitem cada vez mais cartões com marca própria. Em média, cada brasileiro que tem cartões possui sete plásticos em seu nome, mas nem todos são usados. Na hora de decidir qual deles vai pagar suas compras, contam vantagens financeiras – como taxas de juro mais baixas e prazos de pagamento mais elásticos – e facilidades. O varejo agora está lançando os cartões de marca própria híbridos, que funcionam como cartões de crédito normais e podem ser utilizados em qualquer estabelecimento. Com isso, a loja abre mão de parte da receita, mas ganha duas vezes: pelo aumento dos negócios e pelo acesso a dados mais amplos da vida dos clientes. Um bom exemplo é o do Carrefour. A rede de supermercados, que recentemente reconquistou a liderança no Brasil, possui 7,1 milhões de cartões próprios. No fim de novembro, lançou o cartão Carrefour Visa Internacional, administrado pelo próprio banco da rede, que tem o nome de Carrefour Soluções Financeiras. No primeiro momento foram emitidos 100.000 cartões a clientes selecionados, e só após uma fase de testes, que deve seguir até o fim deste ano, a rede passará a fornecer o produto em todas as lojas. "Queremos oferecer mais de uma opção ao cliente", afirma Caíque Mello, presidente do Carrefour Soluções Financeiras. Com mais clientes usando o cartão, haverá mais informações de mercado para os profissionais de marketing do Carrefour analisarem.

Essa tendência se espalha por supermercados bem menores que o Carrefour. A rede Sonda, que tem catorze lojas e é a quinta maior no estado de São Paulo, lançou seus cartões de marca própria há catorze anos. Hoje há 60.000 deles ativos. Há alguns meses, a direção da empresa decidiu que, para conseguir novos clientes e manter fiéis os já conquistados, era preciso aumentar as transações com seu cartão. A empresa lançou então o cartão Sonda Mastercard, um private label híbrido que garante benefícios nas lojas do Sonda e também é aceito em mais de 1 milhão de estabelecimentos filiados à bandeira Mastercard. "Nossos clientes vinham pedindo um cartão assim", diz Roberto Longo Moreno, diretor executivo do Sonda Supermercados. Em 45 dias, a rede já havia emitido 20 000 deles. "Nossa expectativa é chegar a 60 000 até o fim do ano."

Por isso, a tendência de crescimento dos cartões no varejo é irreversível. Todos ganham. O consumidor passa a ter mais um meio de pagamento e uma fonte de crédito para aquisição de produtos. A loja vende mais, sem riscos de inadimplência, e ainda tem acesso a informações cada vez mais detalhadas sobre seus clientes. A Receita Federal consegue fiscalizar melhor os gastos dos contribuintes. Só perdem mesmo os sonegadores.

Com reportagem de Anna Lúcia França

 

 




 

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