Três
em cada quatro compras on-line são feitas com cartão de crédito
Anna Lúcia França
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As vendas
on-line respondem hoje por 2% do total negociado no comércio brasileiro.
O porcentual ainda é tímido se comparado aos 5% americanos, mas
sua participação tem crescido rapidamente, em uma média de
50% ao ano. O comércio virtual vem atraindo investimentos de redes de varejo
que até pouco tempo atrás desprezavam a internet como meio de venda.
Um impulso óbvio foi o aumento do número de lares com computadores
e acesso à web. Neste ano, os varejistas brasileiros deverão vender,
pela primeira vez na história, mais computadores do que aparelhos de televisão.
Hoje, cerca de 10 milhões de pessoas fazem compras regularmente em lojas
virtuais, número estimado em um quarto do total de usuários de internet.
Com o computador em casa fica mais fácil consumir. Esse não é,
porém, o único aditivo nesse mecanismo. Um estímulo menos
evidente mas igualmente importante é o crescimento do uso
de meios eletrônicos. "O cartão de crédito é o
sistema de pagamento natural em um ambiente eletrônico", afirma Pedro
Guasti, diretor da e-bit, empresa de pesquisa e informação sobre
comércio na internet. Como o cliente não pode pagar com cheque ou
dinheiro vivo, os cartões assumiram o papel de o principal meio de pagamento
on-line. Respondem por 75% de todas as compras virtuais.
Montagem sobre
fotos de Andy Rogers/AP, Don Farrall/Getty Images/Royalty Free
DINHEIRO VIRTUAL Jeff Bezos, criador da Amazon: uma idéia,
cartões de crédito e logística
A melhora na
renda e a crescente facilidade na obtenção de crédito para
o consumo deverão sustentar taxas saudáveis de crescimento nas compras
virtuais por um bom tempo. Como conseqüência, o papel dos cartões
de crédito como meio de pagamento vai ganhar importância. A presença
do cartão só não é ainda mais dominante nesse comércio
porque muitos brasileiros ainda temem a ação dos piratas de computador
e são reticentes em oferecer seus dados cadastrais pela internet. As empresas
investiram bastante em segurança, e hoje isso já deixou de ser um
grande empecilho. Tanto que as vendas virtuais avançam rapidamente, sobretudo
entre os mais jovens, mais afeitos aos computadores.
Essa
mudança representa uma rendição do varejo tradicional às
novas idéias. Nos primeiros momentos da internet, na segunda metade da
década de 90, o comércio virtual era um negócio exclusivo
de lojas que não existiam fisicamente. Uma das pioneiras foi a americana
Amazon, ainda hoje líder mundial no comércio virtual. Fundada há
doze anos por Jeff Bezos, um profissional do mercado financeiro que revolucionou
o comércio on-line, a Amazon começou suas atividades vendendo livros.
Hoje, oferece de tudo: equipamentos eletrônicos, móveis, vídeo
e música, informática, roupas, brinquedos, alimentos, bebidas
além de seu próprio cartão de crédito, claro. Depois
de anos no vermelho, ela registrou seu primeiro lucro em 2003 e lucrou 190 milhões
de dólares em 2006.
A
similar brasileira mais parecida é a B2W, resultado da fusão da
Americanas.com, braço virtual da rede de varejo Lojas Americanas, com o
portal Submarino, ocorrida há um ano e que criou o maior grupo varejista
on-line do Brasil. Seus meios de distribuição são quase que
totalmente virtuais: internet e vendas por catálogo na televisão
e por telefone representam o grosso do faturamento e o lucro líquido
nos três primeiros trimestres do ano foi de 38,7 milhões de reais.
A Amazon e a B2W só puderam nascer e prosperar graças aos cartões
de crédito. No caso das operações do Submarino, aliás,
os cartões eram uma das únicas formas de pagamento à disposição
dos clientes. Mesmo serviços de pagamento on-line como o americano PayPal
não existiriam sem os cartões.
Roberto Setton
NOVA ECONOMIA Central de atendimento: os vendedores do século
XXI
A
crescente importância da internet fez com que lojas tradicionais também
aderissem ao novo modelo de negócio. No ano que vem, gigantes do varejo
tradicional como Carrefour e Wal-Mart vão estrear suas lojas virtuais.
Nem as sempre reticentes Casas Bahia escaparam da febre. O comércio virtual,
no entanto, não se restringe aos grandes grupos. Ao contrário, uma
miríade de pequenos comerciantes usa a rede para vender mercadorias. A
web também é uma ferramenta fantástica para qualquer pessoa
que deseje comercializar um produto usado. Esses usuários sustentam os
sites de leilões, como o americano eBay e o MercadoLivre. Nessas páginas,
milhares de pessoas colocam à venda todo tipo imaginável de mercadoria,
de preciosidades únicas a quinquilharias assustadoras, como se a internet
fosse um dinâmico e interminável caderno de classificados. Claro,
os cartões são a principal ferramenta para pagar as compras.
Negócios
como esse são aperfeiçoados constantemente, tornando-se mais ágeis
e seguros a cada dia. O site MercadoLivre, por exemplo, criou o MercadoPago. Nesse
serviço, não se paga de imediato. O comprador recebe o produto em
casa, verifica as condições e só depois libera o pagamento
ao vendedor. Com a facilidade, ainda por cima, de parcelar em até doze
vezes no cartão. O MercadoPago é atualmente a maior plataforma de
pagamentos on-line da América Latina. No ano passado, esse serviço
movimentou 90 milhões de dólares logicamente, quase tudo
via cartões magnéticos.
O BRASIL FORA DO iTUNES
Os
brasileiros podem comprar, via internet, o que bem entendem ou quase. Uma
curiosa exceção é o site iTunes, a loja virtual de músicas
da Apple lançada em 2003. A fabricante americana de computadores mantém
acordos com 22 países em que é possível utilizar o site para
baixar as músicas de seu catálogo. O Brasil não está
entre eles. Os brasileiros só conseguem comprar músicas do iTunes
se tiverem cartões de crédito com endereço nos Estados Unidos.
A Apple não comenta o motivo. Especula-se que decorra da proteção
de direitos autorais. Isso porque, embora seja fácil revender ilegalmente
músicas compradas on-line, é extremamente difícil aplicar
punições quando o autor do roubo mora em países sem uma rede
de proteção legal adequada. Mas existe um mundo além do iTunes.
Há dezenas de sites que aceitam cartões internacionais na compra
de músicas. Além das novidades como a fornecida pela banda inglesa
Radiohead. Seus fãs não precisam esperar o lançamento do
álbum In Rainbows, o último trabalho do grupo, para ouvi-lo.
Desde 10 de outubro, eles podem baixá-lo no site da banda. O preço?
Basta pagar o que acharem justo com um cartão de crédito internacional.
Ou mesmo levar de graça.
Com
livros é mais fácil. Desde a criação da Amazon, os
brasileiros sentem-se menos distantes dos principais lançamentos literários
dos Estados Unidos ou da Europa. No passado eram poucas as livrarias que traziam
títulos importados, e o custo era desanimador. Hoje basta entrar no site
de uma loja virtual, encomendar o livro, informar os dados do cartão e
escolher uma forma de entrega. Não há incidência de impostos
de importação no caso dos livros, mas o cliente precisa pagar as
despesas do correio. É possível adquirir CDs, roupas, tênis
e qualquer outro produto. A importação da maior parte deles, no
entanto, exige o pagamento de impostos, o que nem sempre torna o negócio
financeiramente interessante.