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5 de dezembro de 2007
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O combustível da internet

Três em cada quatro compras on-line
são feitas com cartão de crédito


Anna Lúcia França

 

Getty Images/Royalty Free

As vendas on-line respondem hoje por 2% do total negociado no comércio brasileiro. O porcentual ainda é tímido se comparado aos 5% americanos, mas sua participação tem crescido rapidamente, em uma média de 50% ao ano. O comércio virtual vem atraindo investimentos de redes de varejo que até pouco tempo atrás desprezavam a internet como meio de venda. Um impulso óbvio foi o aumento do número de lares com computadores e acesso à web. Neste ano, os varejistas brasileiros deverão vender, pela primeira vez na história, mais computadores do que aparelhos de televisão. Hoje, cerca de 10 milhões de pessoas fazem compras regularmente em lojas virtuais, número estimado em um quarto do total de usuários de internet. Com o computador em casa fica mais fácil consumir. Esse não é, porém, o único aditivo nesse mecanismo. Um estímulo menos evidente – mas igualmente importante – é o crescimento do uso de meios eletrônicos. "O cartão de crédito é o sistema de pagamento natural em um ambiente eletrônico", afirma Pedro Guasti, diretor da e-bit, empresa de pesquisa e informação sobre comércio na internet. Como o cliente não pode pagar com cheque ou dinheiro vivo, os cartões assumiram o papel de o principal meio de pagamento on-line. Respondem por 75% de todas as compras virtuais.

Montagem sobre fotos de Andy Rogers/AP, Don Farrall/Getty Images/Royalty Free

DINHEIRO VIRTUAL
Jeff Bezos, criador da Amazon: uma idéia, cartões de crédito e logística


A melhora na renda e a crescente facilidade na obtenção de crédito para o consumo deverão sustentar taxas saudáveis de crescimento nas compras virtuais por um bom tempo. Como conseqüência, o papel dos cartões de crédito como meio de pagamento vai ganhar importância. A presença do cartão só não é ainda mais dominante nesse comércio porque muitos brasileiros ainda temem a ação dos piratas de computador e são reticentes em oferecer seus dados cadastrais pela internet. As empresas investiram bastante em segurança, e hoje isso já deixou de ser um grande empecilho. Tanto que as vendas virtuais avançam rapidamente, sobretudo entre os mais jovens, mais afeitos aos computadores.

Essa mudança representa uma rendição do varejo tradicional às novas idéias. Nos primeiros momentos da internet, na segunda metade da década de 90, o comércio virtual era um negócio exclusivo de lojas que não existiam fisicamente. Uma das pioneiras foi a americana Amazon, ainda hoje líder mundial no comércio virtual. Fundada há doze anos por Jeff Bezos, um profissional do mercado financeiro que revolucionou o comércio on-line, a Amazon começou suas atividades vendendo livros. Hoje, oferece de tudo: equipamentos eletrônicos, móveis, vídeo e música, informática, roupas, brinquedos, alimentos, bebidas – além de seu próprio cartão de crédito, claro. Depois de anos no vermelho, ela registrou seu primeiro lucro em 2003 e lucrou 190 milhões de dólares em 2006.

A similar brasileira mais parecida é a B2W, resultado da fusão da Americanas.com, braço virtual da rede de varejo Lojas Americanas, com o portal Submarino, ocorrida há um ano e que criou o maior grupo varejista on-line do Brasil. Seus meios de distribuição são quase que totalmente virtuais: internet e vendas por catálogo na televisão e por telefone representam o grosso do faturamento – e o lucro líquido nos três primeiros trimestres do ano foi de 38,7 milhões de reais. A Amazon e a B2W só puderam nascer e prosperar graças aos cartões de crédito. No caso das operações do Submarino, aliás, os cartões eram uma das únicas formas de pagamento à disposição dos clientes. Mesmo serviços de pagamento on-line como o americano PayPal não existiriam sem os cartões.

 

Roberto Setton

NOVA ECONOMIA
Central de atendimento: os vendedores do século XXI

A crescente importância da internet fez com que lojas tradicionais também aderissem ao novo modelo de negócio. No ano que vem, gigantes do varejo tradicional como Carrefour e Wal-Mart vão estrear suas lojas virtuais. Nem as sempre reticentes Casas Bahia escaparam da febre. O comércio virtual, no entanto, não se restringe aos grandes grupos. Ao contrário, uma miríade de pequenos comerciantes usa a rede para vender mercadorias. A web também é uma ferramenta fantástica para qualquer pessoa que deseje comercializar um produto usado. Esses usuários sustentam os sites de leilões, como o americano eBay e o MercadoLivre. Nessas páginas, milhares de pessoas colocam à venda todo tipo imaginável de mercadoria, de preciosidades únicas a quinquilharias assustadoras, como se a internet fosse um dinâmico e interminável caderno de classificados. Claro, os cartões são a principal ferramenta para pagar as compras.

Negócios como esse são aperfeiçoados constantemente, tornando-se mais ágeis e seguros a cada dia. O site MercadoLivre, por exemplo, criou o MercadoPago. Nesse serviço, não se paga de imediato. O comprador recebe o produto em casa, verifica as condições e só depois libera o pagamento ao vendedor. Com a facilidade, ainda por cima, de parcelar em até doze vezes no cartão. O MercadoPago é atualmente a maior plataforma de pagamentos on-line da América Latina. No ano passado, esse serviço movimentou 90 milhões de dólares – logicamente, quase tudo via cartões magnéticos.

 

 

O BRASIL FORA DO iTUNES

Os brasileiros podem comprar, via internet, o que bem entendem – ou quase. Uma curiosa exceção é o site iTunes, a loja virtual de músicas da Apple lançada em 2003. A fabricante americana de computadores mantém acordos com 22 países em que é possível utilizar o site para baixar as músicas de seu catálogo. O Brasil não está entre eles. Os brasileiros só conseguem comprar músicas do iTunes se tiverem cartões de crédito com endereço nos Estados Unidos. A Apple não comenta o motivo. Especula-se que decorra da proteção de direitos autorais. Isso porque, embora seja fácil revender ilegalmente músicas compradas on-line, é extremamente difícil aplicar punições quando o autor do roubo mora em países sem uma rede de proteção legal adequada. Mas existe um mundo além do iTunes. Há dezenas de sites que aceitam cartões internacionais na compra de músicas. Além das novidades como a fornecida pela banda inglesa Radiohead. Seus fãs não precisam esperar o lançamento do álbum In Rainbows, o último trabalho do grupo, para ouvi-lo. Desde 10 de outubro, eles podem baixá-lo no site da banda. O preço? Basta pagar o que acharem justo com um cartão de crédito internacional. Ou mesmo levar de graça.

Com livros é mais fácil. Desde a criação da Amazon, os brasileiros sentem-se menos distantes dos principais lançamentos literários dos Estados Unidos ou da Europa. No passado eram poucas as livrarias que traziam títulos importados, e o custo era desanimador. Hoje basta entrar no site de uma loja virtual, encomendar o livro, informar os dados do cartão e escolher uma forma de entrega. Não há incidência de impostos de importação no caso dos livros, mas o cliente precisa pagar as despesas do correio. É possível adquirir CDs, roupas, tênis e qualquer outro produto. A importação da maior parte deles, no entanto, exige o pagamento de impostos, o que nem sempre torna o negócio financeiramente interessante.



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