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5 de dezembro de 2007
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A mesada, agora, vem no cartão

A geração da internet não está nem aí para
o "velho" papel-moeda: jovens já recebem
a mesada diretamente no cartão de crédito


Anna Lúcia França

Lailson Santos

DE OLHO NA FATURA
O empresário paulista Everaldo Bergonzoni diz ter conseguido controlar melhor os gastos do filho Flávio desde que decidiu pagar a mesada do rapaz com o cartão de crédito

Em 2002, o então senador democrata Paul Sarbanes deu início a uma das mais barulhentas investigações parlamentares do setor financeiro americano. Em foco, a estratégia de marketing das administradoras de cartões de crédito para conquistar públicos cada vez mais jovens. Um dos aspectos mais criticados foi o fato de as operadoras emitirem cartões a menores de idade, muitas vezes estudantes do colegial e até mesmo do ginásio, sem exigir nenhuma autorização de algum superior ou responsável. Por trás dessa agressiva campanha comercial estava uma constatação preocupante: com base em pesquisas minuciosas, as administradoras perceberam que os jovens gastam mais se os pais não virem a fatura nem constatarem, por outros meios, o volume de seus gastos. A investigação resultou em programas mais eficientes de orientação aos jovens sobre o que veio a chamar-se "endividamento responsável".

O Brasil ainda não deparou com essa questão. Não ainda. Os jovens estão na mira das operadoras de cartões. A disputa pela conquista de novos clientes já esteve concentrada nas classes A e B, migrou para as faixas de menor poder aquisitivo e, há três anos, chegou aos universitários. Agora, a briga é pelos adolescentes. Por enquanto, os instrumentos dessa disputa são civilizados – permitem aos pais controlar melhor os gastos dos filhos. A última das operadoras é a criação da mesada plastificada. A idéia foi feita sob medida para agradar à garotada: em vez de receber dos pais as anacrônicas cédulas de papel-moeda, a geração da internet, do iPod e do Second Life ganha um cartão de crédito para cobrir eletronicamente as despesas. Para os pais, o principal atrativo é a possibilidade de controlar mais de perto os gastos dos filhos, pois o extrato mensal detalha todas as operações que foram feitas.

Stephen Crowley/The New York Times

ALVO FÁCIL
Nos Estados Unidos, o senador Sarbanes investigou a estratégia dos bancos de empurrar cartões para adolescentes sem o conhecimento dos pais: a ação resultou em campanhas de esclarecimento

O cartão-mesada foi pensado para evitar que os futuros adultos sucumbam, de cara, às tentações do consumo. Ele funciona como um cartão adicional, vinculado ao dos pais, mas com um limite mensal de gastos menor, preestabelecido. "O pai define o valor máximo de que o filho dispõe por mês, e dali não passa. Não é um cartão sem limites", explica Mario Mello, diretor do Banco ABN Amro, um dos mais animados com a nova modalidade de negócio. A maior parte dos pais que optam por pagar a mesada com cartão de crédito fixa limites entre 100 e 200 reais para os filhos gastarem por mês. Há outra diferença importante em relação aos cartões comuns: os de mesada não permitem saques nos caixas eletrônicos. As operadoras apostam que o contato precoce com o crédito portátil pode despertar o senso de responsabilidade. "Não vamos ensinar ninguém a educar seus filhos, mas esse cartão é uma ferramenta que pode ajudar o adolescente a se inserir na sociedade de forma consciente", diz Mello.

O empresário paulista Everaldo Bergonzoni Júnior diz ter adorado o produto, embora mantenha a vigilância sobre os gastos do filho. Quando marcou as passagens para que seu filho Flávio, de 16 anos, viajasse para a Disney, em julho, ele resolveu dar um cartão ao adolescente. "Facilitou muito a viagem, porque ele pôde pagar as coisas sem ter de levar dinheiro. Quando voltou, o cartão assumiu o posto da mesada", conta. Desde então, a experiência tem sido aprovada tanto pelo pai quanto pelo filho. "Quando eu pagava em dinheiro, nem sabia quanto tinha dado no fim do mês. Agora, tenho mais controle e ele também, porque vê na fatura tudo o que gastou", diz Everaldo. O garoto, porém, admite gastar agora mais do que antes.

A pedagoga Cássia D’Aquino, autora do livro Educação Financeira: Como Educar Seu Filho, faz um alerta aos pais que se animaram com essa comodidade. Segundo ela, os jovens são naturalmente impulsivos e o cartão é um instrumento que não ajuda a controlar esse tipo de comportamento. Alguns adolescentes, ao receber dos pais um limite mensal de gastos, podem interpretar a mensagem como se fosse uma autorização para "sair detonando". Isso porque, como identificou o Senado americano, dinheiro virtual na mão de jovens pode resultar em desastre financeiro. Mas isso não chega a ser uma exclusividade dos mais jovens.




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