A geração
da internet não está nem aí para o "velho"
papel-moeda: jovens já recebem a mesada diretamente no cartão
de crédito
Anna
Lúcia França
Lailson
Santos
DE
OLHO NA FATURA O empresário paulista
Everaldo Bergonzoni diz ter conseguido controlar melhor os gastos do filho Flávio
desde que decidiu pagar a mesada do rapaz com o cartão de crédito
Em
2002, o então senador democrata Paul Sarbanes deu início a uma das
mais barulhentas investigações parlamentares do setor financeiro
americano. Em foco, a estratégia de marketing das administradoras de cartões
de crédito para conquistar públicos cada vez mais jovens. Um dos
aspectos mais criticados foi o fato de as operadoras emitirem cartões a
menores de idade, muitas vezes estudantes do colegial e até mesmo do ginásio,
sem exigir nenhuma autorização de algum superior ou responsável.
Por trás dessa agressiva campanha comercial estava uma constatação
preocupante: com base em pesquisas minuciosas, as administradoras perceberam que
os jovens gastam mais se os pais não virem a fatura nem constatarem, por
outros meios, o volume de seus gastos. A investigação resultou em
programas mais eficientes de orientação aos jovens sobre o que veio
a chamar-se "endividamento responsável".
O
Brasil ainda não deparou com essa questão. Não ainda. Os
jovens estão na mira das operadoras de cartões. A disputa pela conquista
de novos clientes já esteve concentrada nas classes A e B, migrou para
as faixas de menor poder aquisitivo e, há três anos, chegou aos universitários.
Agora, a briga é pelos adolescentes. Por enquanto, os instrumentos dessa
disputa são civilizados permitem aos pais controlar melhor os gastos
dos filhos. A última das operadoras é a criação da
mesada plastificada. A idéia foi feita sob medida para agradar à
garotada: em vez de receber dos pais as anacrônicas cédulas de papel-moeda,
a geração da internet, do iPod e do Second Life ganha um
cartão de crédito para cobrir eletronicamente as despesas. Para
os pais, o principal atrativo é a possibilidade de controlar mais de perto
os gastos dos filhos, pois o extrato mensal detalha todas as operações
que foram feitas.
Stephen
Crowley/The New York Times
ALVO
FÁCIL Nos Estados Unidos, o senador
Sarbanes investigou a estratégia dos bancos de empurrar cartões
para adolescentes sem o conhecimento dos pais: a ação resultou em
campanhas de esclarecimento
O
cartão-mesada foi pensado para evitar que os futuros adultos sucumbam,
de cara, às tentações do consumo. Ele funciona como um cartão
adicional, vinculado ao dos pais, mas com um limite mensal de gastos menor, preestabelecido.
"O pai define o valor máximo de que o filho dispõe por mês,
e dali não passa. Não é um cartão sem limites",
explica Mario Mello, diretor do Banco ABN Amro, um dos mais animados com a nova
modalidade de negócio. A maior parte dos pais que optam por pagar a mesada
com cartão de crédito fixa limites entre 100 e 200 reais para os
filhos gastarem por mês. Há outra diferença importante em
relação aos cartões comuns: os de mesada não permitem
saques nos caixas eletrônicos. As operadoras apostam que o contato precoce
com o crédito portátil pode despertar o senso de responsabilidade.
"Não vamos ensinar ninguém a educar seus filhos, mas esse cartão
é uma ferramenta que pode ajudar o adolescente a se inserir na sociedade
de forma consciente", diz Mello.
O
empresário paulista Everaldo Bergonzoni Júnior diz ter adorado o
produto, embora mantenha a vigilância sobre os gastos do filho. Quando marcou
as passagens para que seu filho Flávio, de 16 anos, viajasse para a Disney,
em julho, ele resolveu dar um cartão ao adolescente. "Facilitou muito
a viagem, porque ele pôde pagar as coisas sem ter de levar dinheiro. Quando
voltou, o cartão assumiu o posto da mesada", conta. Desde então,
a experiência tem sido aprovada tanto pelo pai quanto pelo filho. "Quando
eu pagava em dinheiro, nem sabia quanto tinha dado no fim do mês. Agora,
tenho mais controle e ele também, porque vê na fatura tudo o que
gastou", diz Everaldo. O garoto, porém, admite gastar agora mais do
que antes.
A pedagoga Cássia DAquino,
autora do livro Educação Financeira: Como Educar Seu Filho, faz
um alerta aos pais que se animaram com essa comodidade. Segundo ela, os jovens
são naturalmente impulsivos e o cartão é um instrumento que
não ajuda a controlar esse tipo de comportamento. Alguns adolescentes,
ao receber dos pais um limite mensal de gastos, podem interpretar a mensagem como
se fosse uma autorização para "sair detonando". Isso porque,
como identificou o Senado americano, dinheiro virtual na mão de jovens
pode resultar em desastre financeiro. Mas isso não chega a ser uma exclusividade
dos mais jovens.