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5 de dezembro de 2007
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De 20 milhões
para 400 milhões

Em uma década, o mercado brasileiro de cartões
saiu de um padrão de subdesenvolvimento para
patamares próximos aos dos países avançados


Cláudio Gradilone

 

Ian Mckinnell/Getty Images

O executivo americano Frank McNamara, presidente da financeira Hamilton Credit Corporation, jantava com seu advogado e um amigo num luxuoso restaurante em Nova York em 1949. Ao pedir a conta, ele descobriu que havia esquecido a carteira no bolso de outro paletó. Telefonou à mulher para que viesse em seu socorro. Jurando nunca mais passar por outro apuro, ele teve a idéia de criar um produto que o ajudasse a pagar jantares, mesmo que não tivesse dinheiro no bolso. Criou, então, o primeiro cartão de crédito do mundo – o Diners, à época mais uma versão pioneira de um vale-refeição para os abastados. Seis décadas e 1,8 bilhão de cartões de crédito depois, não é possível imaginar a economia americana funcionando sem eles. De tal maneira que a popularização dos cartões confunde-se com a própria evolução da sociedade de consumo da maior e mais ágil nação capitalista do mundo. De uma certa maneira, isso se repete hoje no Brasil. O país detecta um fenômeno de popularização do produto compatível com o dos EUA nas décadas de 60 e de 70. Considerando-se os cartões de crédito (que oferecem financiamento), os de débito (que intermedeiam pagamentos) e os de lojas, existem mais de 430 milhões deles nas carteiras e bolsas de cerca de 58 milhões de consumidores brasileiros. Há dez anos esse número não passava de 20 milhões. No país em que até há pouco tempo se compravam cigarros com cheque, os cartões são aceitos como meio de pagamento por profissionais liberais, engraxates e até pasteleiros.

AP

A IDÉIA FOI DELE
Frank McNamara criou o cartão de
crédito em 1950 apenas para facilitar
o pagamento em restaurantes. No ano passado, versões aperfeiçoadas de sua criação intermediaram negócios de 1,9 trilhão de dólares só nos Estados Unidos


Da mesma forma como nos EUA, a popularização dos cartões tem relação direta com o aumento do crédito viabilizado pela estabilidade econômica e pela elevação da renda da população. "O espaço de crescimento situa-se justamente no mercado de baixa renda", diz Eduardo Gouveia, diretor comercial e de marketing da Visanet, empresa que processa as transações com cartões da Visa do Brasil. Depois que as grandes redes de varejo lançaram seus cartões de marca própria, é a vez das lojas de médio e mesmo de pequeno porte. O total de cartões em circulação pode chegar a 600 milhões nos próximos cinco anos, um volume inédito na história. Esse crescimento pode ser explicado pelo perfil mais recente dos cartões. Há muito tempo eles deixaram de ser um produto exclusivamente de crédito. Hoje, ao contrário, eles são a maneira mais econômica de bancos e empresas de varejo conquistarem novos clientes. A melhor prova disso é o valor médio cada vez menor das transações realizadas com cartões. Em números atualizados, a média de 1991 era de 147 reais, cifra que caiu quase à metade em 2006, para 75 reais. "A redução dos valores é um dos indicadores mais consistentes da popularização dos cartões", diz Murilo Barbosa, diretor de marketing e serviços da Varig.

Varig? O que uma empresa aérea tem a ver com cartões? É justamente disso que se fala aqui. Cartões já não são apenas um meio de pagamento. São a maneira mais eficaz de conectar o maior número possível de consumidores às empresas que lhes vendem produtos e serviços. Após passar quase duas décadas dedicado aos meios de pagamento eletrônicos, Barbosa dedica-se hoje a desenvolver os programas de relacionamento do grupo Gol. Na mira, os quase 7 milhões de usuários do cartão Smiles, com seus programas de milhagem e hábitos de viagem facilmente rastreáveis com cartão. "As informações são um trunfo na hora de desenhar produtos e oferecer promoções", diz Barbosa. "É uma das melhores ferramentas de relacionamento que existem entre empresa e consumidor." O Smiles não é um cartão de crédito propriamente dito, mas associa-se a diversas bandeiras.

 

Fotos Lailson Santos

GRAXA E OBTURAÇÕES
Jaime Pereira, 43 anos, diz ser o primeiro engraxate a aceitar cartão no Brasil. Segundo ele, sua clientela cresceu quando aceitou pagamentos eletrônicos. "O cliente gosta, e não tenho de andar com dinheiro vivo." Para o dentista Perillo, a vantagem é ver-se cada vez mais livre dos calotes dos cheques pré-datados

Esse é apenas mais um dos benefícios que decorrem do crescimento do uso de cartões. Há outros. Um dos pilares de qualquer relação econômica é o simples fato de que quem vende deve receber a quantia acertada no prazo combinado. O uso de cartões torna esse fato corriqueiro mais seguro e mais barato. Tanto que mesmo pequenos empresários do setor de serviços aderiram a eles. Um bom exemplo é o dentista Savério Luiz Perillo. Para livrar-se da inadimplência dos clientes que pagavam em cheque – especialmente os de fora de São Paulo –, ele procurou uma administradora de cartões e passou a receber seus pagamentos por meio eletrônico. A taxa de administração, de cerca de 3% sobre o valor de cada transação, compensa. A decisão melhorou muito seus negócios, segundo ele. "Não ando mais com tanto dinheiro ou cheques no bolso e não preciso me preocupar com os fundos dos pré-datados que ainda faltam cair", conta. Perillo começou a experimentar os cartões no início de 2007 e diz que os resultados foram tão positivos que ele já pensa em instalar maquinetas em suas outras três clínicas onde faz implantes dentários. Dentista com mais de vinte anos de profissão, ele afirma não se preocupar com a possibilidade de rastreamento da Receita Federal. "Não costumo ter caixa dois", diz. O crescimento das transações eletrônicas permitirá à Receita Federal rastrear mais precisamente a circulação de dinheiro da economia, tornando mais transparentes as relações – e mais fácil e justa a cobrança de tributos.

Profissionais muito menos especializados que Perillo também aderiram aos cartões. Jaime Pereira, 43 anos, pode ser considerado um profissional na vanguarda tecnológica. "Sou o primeiro e único engraxate que aceita cartão no país." Ao lado dos pincéis, escovas e latas de graxa, ele carrega um terminal de pagamentos sem fio. Segundo Pereira, os negócios melhoraram bastante desde que ele passou a aceitar o dinheiro de plástico. "Consigo atrair os clientes que querem engraxar seus sapatos, mas estão sem dinheiro no bolso. Existem vários deles." O crescimento dos cartões permitirá a inclusão de milhares de empresários, como Pereira, às vantagens da economia de mercado.




 

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