Em uma década, o mercado
brasileiro de cartões saiu de um padrão de subdesenvolvimento
para patamares próximos aos dos países avançados
Cláudio Gradilone
Ian Mckinnell/Getty Images
O
executivo americano Frank McNamara, presidente da financeira Hamilton Credit Corporation,
jantava com seu advogado e um amigo num luxuoso restaurante em Nova York em 1949.
Ao pedir a conta, ele descobriu que havia esquecido a carteira no bolso de outro
paletó. Telefonou à mulher para que viesse em seu socorro. Jurando
nunca mais passar por outro apuro, ele teve a idéia de criar um produto
que o ajudasse a pagar jantares, mesmo que não tivesse dinheiro no bolso.
Criou, então, o primeiro cartão de crédito do mundo
o Diners, à época mais uma versão pioneira de um vale-refeição
para os abastados. Seis décadas e 1,8 bilhão de cartões de
crédito depois, não é possível imaginar a economia
americana funcionando sem eles. De tal maneira que a popularização
dos cartões confunde-se com a própria evolução da
sociedade de consumo da maior e mais ágil nação capitalista
do mundo. De uma certa maneira, isso se repete hoje no Brasil. O país detecta
um fenômeno de popularização do produto compatível
com o dos EUA nas décadas de 60 e de 70. Considerando-se os cartões
de crédito (que oferecem financiamento), os de débito (que intermedeiam
pagamentos) e os de lojas, existem mais de 430 milhões deles nas carteiras
e bolsas de cerca de 58 milhões de consumidores brasileiros. Há
dez anos esse número não passava de 20 milhões. No país
em que até há pouco tempo se compravam cigarros com cheque, os cartões
são aceitos como meio de pagamento por profissionais liberais, engraxates
e até pasteleiros.
AP
A IDÉIA FOI DELE Frank McNamara criou o cartão de crédito
em 1950 apenas para facilitar o pagamento em restaurantes. No ano passado,
versões aperfeiçoadas de sua criação intermediaram
negócios de 1,9 trilhão de dólares só nos Estados
Unidos
Da mesma forma como nos EUA, a popularização dos cartões
tem relação direta com o aumento do crédito viabilizado pela
estabilidade econômica e pela elevação da renda da população.
"O espaço de crescimento situa-se justamente no mercado de baixa renda",
diz Eduardo Gouveia, diretor comercial e de marketing da Visanet, empresa que
processa as transações com cartões da Visa do Brasil. Depois
que as grandes redes de varejo lançaram seus cartões de marca própria,
é a vez das lojas de médio e mesmo de pequeno porte. O total de
cartões em circulação pode chegar a 600 milhões nos
próximos cinco anos, um volume inédito na história. Esse
crescimento pode ser explicado pelo perfil mais recente dos cartões. Há
muito tempo eles deixaram de ser um produto exclusivamente de crédito.
Hoje, ao contrário, eles são a maneira mais econômica de bancos
e empresas de varejo conquistarem novos clientes. A melhor prova disso é
o valor médio cada vez menor das transações realizadas com
cartões. Em números atualizados, a média de 1991 era de 147
reais, cifra que caiu quase à metade em 2006, para 75 reais. "A redução
dos valores é um dos indicadores mais consistentes da popularização
dos cartões", diz Murilo Barbosa, diretor de marketing e serviços
da Varig.
Varig? O que
uma empresa aérea tem a ver com cartões? É justamente disso
que se fala aqui. Cartões já não são apenas um meio
de pagamento. São a maneira mais eficaz de conectar o maior número
possível de consumidores às empresas que lhes vendem produtos e
serviços. Após passar quase duas décadas dedicado aos meios
de pagamento eletrônicos, Barbosa dedica-se hoje a desenvolver os programas
de relacionamento do grupo Gol. Na mira, os quase 7 milhões de usuários
do cartão Smiles, com seus programas de milhagem e hábitos de viagem
facilmente rastreáveis com cartão. "As informações
são um trunfo na hora de desenhar produtos e oferecer promoções",
diz Barbosa. "É uma das melhores ferramentas de relacionamento que
existem entre empresa e consumidor." O Smiles não é um cartão
de crédito propriamente dito, mas associa-se a diversas bandeiras.
Fotos Lailson
Santos
GRAXA E OBTURAÇÕES Jaime Pereira, 43 anos, diz ser o primeiro engraxate
a aceitar cartão no Brasil. Segundo ele, sua clientela cresceu quando aceitou
pagamentos eletrônicos. "O cliente gosta, e não tenho de andar
com dinheiro vivo." Para o dentista Perillo, a vantagem é ver-se cada
vez mais livre dos calotes dos cheques pré-datados
Esse é apenas mais
um dos benefícios que decorrem do crescimento do uso de cartões.
Há outros. Um dos pilares de qualquer relação econômica
é o simples fato de que quem vende deve receber a quantia acertada no prazo
combinado. O uso de cartões torna esse fato corriqueiro mais seguro e mais
barato. Tanto que mesmo pequenos empresários do setor de serviços
aderiram a eles. Um bom exemplo é o dentista Savério Luiz Perillo.
Para livrar-se da inadimplência dos clientes que pagavam em cheque
especialmente os de fora de São Paulo , ele procurou uma administradora
de cartões e passou a receber seus pagamentos por meio eletrônico.
A taxa de administração, de cerca de 3% sobre o valor de cada transação,
compensa. A decisão melhorou muito seus negócios, segundo ele. "Não
ando mais com tanto dinheiro ou cheques no bolso e não preciso me preocupar
com os fundos dos pré-datados que ainda faltam cair", conta. Perillo
começou a experimentar os cartões no início de 2007 e diz
que os resultados foram tão positivos que ele já pensa em instalar
maquinetas em suas outras três clínicas onde faz implantes dentários.
Dentista com mais de vinte anos de profissão, ele afirma não se
preocupar com a possibilidade de rastreamento da Receita Federal. "Não
costumo ter caixa dois", diz. O crescimento das transações
eletrônicas permitirá à Receita Federal rastrear mais precisamente
a circulação de dinheiro da economia, tornando mais transparentes
as relações e mais fácil e justa a cobrança
de tributos.
Profissionais
muito menos especializados que Perillo também aderiram aos cartões.
Jaime Pereira, 43 anos, pode ser considerado um profissional na vanguarda tecnológica.
"Sou o primeiro e único engraxate que aceita cartão no país."
Ao lado dos pincéis, escovas e latas de graxa, ele carrega um terminal
de pagamentos sem fio. Segundo Pereira, os negócios melhoraram bastante
desde que ele passou a aceitar o dinheiro de plástico. "Consigo atrair
os clientes que querem engraxar seus sapatos, mas estão sem dinheiro no
bolso. Existem vários deles." O crescimento dos cartões permitirá
a inclusão de milhares de empresários, como Pereira, às vantagens
da economia de mercado.