O
domingo 25 de novembro deveria ter sido dia de festa no estádio da Fonte
Nova, em Salvador. Depois de dois anos na terceira divisão do Campeonato
Brasileiro, o Bahia, uma das maiores torcidas do Nordeste, tinha a chance de subir
para a segunda divisão. Para isso, bastava um empate com o goiano Vila
Nova. Com 60.000 torcedores, o estádio estava lotado. Do lado de fora,
outras 20 000 pessoas esperavam o fim do jogo para pular ao som de trios elétricos.
O placar ainda marcava zero a zero aos 39 minutos do segundo tempo quando um dos
degraus do anel superior da arquibancada cedeu e abriu um buraco de 4 metros de
comprimento por 70 centímetros de largura. Doze torcedores caíram
por esse vão, a 25 metros do solo. Seis morreram na hora. Um não
resistiu aos ferimentos e sucumbiu enquanto era atendido. Cinco escaparam milagrosamente.
A tragédia aconteceu tão rápido que não foi notada
pelos árbitros, jogadores nem pela maior parte da torcida. Quando o jogo
terminou, os torcedores invadiram o campo para comemorar como se nada tivesse
acontecido. Demorou meia hora para que a notícia se espalhasse e a festa
se transformasse em luto.
As causas do desmoronamento são visíveis. O estádio da Fonte
Nova encontra-se em petição de miséria. A manutenção
de sua estrutura é vergonhosa. Entre 2002 e 2003, medições
feitas com sismógrafos descobriram que, quando a torcida pulava, abalava
o concreto das arquibancadas. O governo estadual, dono da Fonte Nova, passou então
a limitar o público a 60.000 pessoas, pouco mais da metade da capacidade
original. Foi uma medida insuficiente. Para garantir a segurança dos torcedores,
era preciso gastar 50.000 reais por mês na manutenção estrutural
do estádio. Mas, em 2006, por exemplo, o governo gastou apenas 10% desse
valor. No começo deste ano, a Fonte Nova estava tão deteriorada
que o governo interditou 75% dos lugares, porque pedaços de cimento da
arquibancada superior caíam sobre os torcedores das cadeiras inferiores.
Toda a armação de concreto precisava ser reparada, mas foram feitos
somente uns remendos. Uma mão de tinta depois, o estádio foi inteiramente
liberado.
Há três
meses, um comitê do Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva
(Sinaenco) fez uma vistoria na Fonte Nova e concluiu que a arena era a mais insegura
do país. Sua estrutura encontrava-se seriamente comprometida. Os vergalhões
de aço que sustentam o concreto armado estavam expostos por todos os lados.
Pontos de infiltração de água brotavam nas arquibancadas.
"Não é preciso ser especialista para fazer o diagnóstico.
Qualquer leigo, a olho nu, veria que o estádio corria risco", diz
o arquiteto Vicente de Castro Mello. O relatório do Sinaenco foi amplamente
divulgado, mas o governo baiano não tomou nenhuma providência. Não
queria interditar o estádio para não prejudicar a campanha do Bahia
e, assim, irritar os torcedores. Além disso, o governador Jaques Wagner
simplesmente não sabia o que fazer com a arena. Salvador é candidata
a ser uma das sedes da Copa de 2014. Para ser confirmada, precisa ter um estádio
decente. Mas Wagner ficou na dúvida se deveria implodir a Fonte Nova e
construir um novo estádio no seu terreno, no centro de Salvador, ou se
era melhor apenas reformá-lo e erguer um campo novo para a Copa em uma
área afastada. Enquanto ele pensava, a arquibancada ruiu. Depois que a
tragédia aconteceu, Wagner decidiu implodir a Fonte Nova, mas não
puniu nenhum dos responsáveis pela manutenção do estádio.
Além
da Fonte Nova, o Sinaenco avaliou a situação de outros 26 estádios
situados nas capitais candidatas a sediar jogos da Copa. Hoje, nenhum deles coloca
os torcedores em risco. Mas a maior parte precisa ser reformada para que possa
ser usada em 2014, mesmo que seja só para os treinos das seleções.
Entre os estádios, o Serra Dourada, de Goiânia, é o que está
em piores condições. Muitos de seus pilares e algumas das vigas
de sustentação estão corroídos. Quando isso acontece,
o aço que sustenta o concreto armado enferruja e o material perde resistência.
Os arquitetos encontraram vários pontos de corrosão também
no anel superior do Mineirão, de Belo Horizonte. O governo mineiro alega
que já está fazendo os reparos necessários. A deterioração
atingiu até o Morumbi, uma das arenas mais bem conservadas do país.
A estrutura de concreto de suas arquibancadas tem pontos de desgaste e outros
em que os vergalhões de aço estão expostos. Repita-se: todos
esses estádios precisam de manutenção, mas são seguros
e não oferecem riscos aos torcedores. "Hoje, esses problemas estão
em fase inicial. Só se tornarão graves se ninguém fizer nada
nos próximos anos, como aconteceu na Fonte Nova", diz o presidente
do Sinaenco, José Roberto Bernasconi.
O
problema, claro, não se resume ao torneio de 2014. Há vários
casos de risco em estádios menores, que recebem jogos de campeonatos regionais
e do Brasileiro. Toda a estrutura do Couto Pereira, do time do Coritiba, no Paraná,
apresenta infiltrações e corrosão. O concreto armado do Olímpico,
do Grêmio de Porto Alegre, também está em franca decomposição.
O Arruda, do Santa Cruz, e a Ilha do Retiro, do Sport, apresentam desgaste na
estrutura de sustentação. Para evitar acidentes como o da Fonte
Nova, o ministro do Esporte, Orlando Silva, decidiu criar uma repartição
para fiscalizar a manutenção das praças esportivas. No Brasil,
sempre precisa morrer gente para que providências sejam tomadas.