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5 de dezembro de 2007
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Tragédia
A ruína também
atinge os estádios

Arquibancada desmorona em Salvador, mata
sete torcedores e expõe a péssima conservação
dos campos de futebol brasileiros


Fábio Portela

Welton/AG. O Globo
Corpos de torcedores que caíram de uma altura de 25 metros na Fonte Nova: a festa do Bahia virou luto


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Quadro: Outros estádios com problemas

O domingo 25 de novembro deveria ter sido dia de festa no estádio da Fonte Nova, em Salvador. Depois de dois anos na terceira divisão do Campeonato Brasileiro, o Bahia, uma das maiores torcidas do Nordeste, tinha a chance de subir para a segunda divisão. Para isso, bastava um empate com o goiano Vila Nova. Com 60.000 torcedores, o estádio estava lotado. Do lado de fora, outras 20 000 pessoas esperavam o fim do jogo para pular ao som de trios elétricos. O placar ainda marcava zero a zero aos 39 minutos do segundo tempo quando um dos degraus do anel superior da arquibancada cedeu e abriu um buraco de 4 metros de comprimento por 70 centímetros de largura. Doze torcedores caíram por esse vão, a 25 metros do solo. Seis morreram na hora. Um não resistiu aos ferimentos e sucumbiu enquanto era atendido. Cinco escaparam milagrosamente. A tragédia aconteceu tão rápido que não foi notada pelos árbitros, jogadores nem pela maior parte da torcida. Quando o jogo terminou, os torcedores invadiram o campo para comemorar como se nada tivesse acontecido. Demorou meia hora para que a notícia se espalhasse e a festa se transformasse em luto.

As causas do desmoronamento são visíveis. O estádio da Fonte Nova encontra-se em petição de miséria. A manutenção de sua estrutura é vergonhosa. Entre 2002 e 2003, medições feitas com sismógrafos descobriram que, quando a torcida pulava, abalava o concreto das arquibancadas. O governo estadual, dono da Fonte Nova, passou então a limitar o público a 60.000 pessoas, pouco mais da metade da capacidade original. Foi uma medida insuficiente. Para garantir a segurança dos torcedores, era preciso gastar 50.000 reais por mês na manutenção estrutural do estádio. Mas, em 2006, por exemplo, o governo gastou apenas 10% desse valor. No começo deste ano, a Fonte Nova estava tão deteriorada que o governo interditou 75% dos lugares, porque pedaços de cimento da arquibancada superior caíam sobre os torcedores das cadeiras inferiores. Toda a armação de concreto precisava ser reparada, mas foram feitos somente uns remendos. Uma mão de tinta depois, o estádio foi inteiramente liberado.

Há três meses, um comitê do Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez uma vistoria na Fonte Nova e concluiu que a arena era a mais insegura do país. Sua estrutura encontrava-se seriamente comprometida. Os vergalhões de aço que sustentam o concreto armado estavam expostos por todos os lados. Pontos de infiltração de água brotavam nas arquibancadas. "Não é preciso ser especialista para fazer o diagnóstico. Qualquer leigo, a olho nu, veria que o estádio corria risco", diz o arquiteto Vicente de Castro Mello. O relatório do Sinaenco foi amplamente divulgado, mas o governo baiano não tomou nenhuma providência. Não queria interditar o estádio para não prejudicar a campanha do Bahia e, assim, irritar os torcedores. Além disso, o governador Jaques Wagner simplesmente não sabia o que fazer com a arena. Salvador é candidata a ser uma das sedes da Copa de 2014. Para ser confirmada, precisa ter um estádio decente. Mas Wagner ficou na dúvida se deveria implodir a Fonte Nova e construir um novo estádio no seu terreno, no centro de Salvador, ou se era melhor apenas reformá-lo e erguer um campo novo para a Copa em uma área afastada. Enquanto ele pensava, a arquibancada ruiu. Depois que a tragédia aconteceu, Wagner decidiu implodir a Fonte Nova, mas não puniu nenhum dos responsáveis pela manutenção do estádio.

Além da Fonte Nova, o Sinaenco avaliou a situação de outros 26 estádios situados nas capitais candidatas a sediar jogos da Copa. Hoje, nenhum deles coloca os torcedores em risco. Mas a maior parte precisa ser reformada para que possa ser usada em 2014, mesmo que seja só para os treinos das seleções. Entre os estádios, o Serra Dourada, de Goiânia, é o que está em piores condições. Muitos de seus pilares e algumas das vigas de sustentação estão corroídos. Quando isso acontece, o aço que sustenta o concreto armado enferruja e o material perde resistência. Os arquitetos encontraram vários pontos de corrosão também no anel superior do Mineirão, de Belo Horizonte. O governo mineiro alega que já está fazendo os reparos necessários. A deterioração atingiu até o Morumbi, uma das arenas mais bem conservadas do país. A estrutura de concreto de suas arquibancadas tem pontos de desgaste e outros em que os vergalhões de aço estão expostos. Repita-se: todos esses estádios precisam de manutenção, mas são seguros e não oferecem riscos aos torcedores. "Hoje, esses problemas estão em fase inicial. Só se tornarão graves se ninguém fizer nada nos próximos anos, como aconteceu na Fonte Nova", diz o presidente do Sinaenco, José Roberto Bernasconi.

O problema, claro, não se resume ao torneio de 2014. Há vários casos de risco em estádios menores, que recebem jogos de campeonatos regionais e do Brasileiro. Toda a estrutura do Couto Pereira, do time do Coritiba, no Paraná, apresenta infiltrações e corrosão. O concreto armado do Olímpico, do Grêmio de Porto Alegre, também está em franca decomposição. O Arruda, do Santa Cruz, e a Ilha do Retiro, do Sport, apresentam desgaste na estrutura de sustentação. Para evitar acidentes como o da Fonte Nova, o ministro do Esporte, Orlando Silva, decidiu criar uma repartição para fiscalizar a manutenção das praças esportivas. No Brasil, sempre precisa morrer gente para que providências sejam tomadas.




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