A
medicina psicossomática deixou de ser um ramo de segunda classe. A
influência dos sentimentos sobre a saúde física nunca
foi tão pesquisada e o controle das perturbações psíquicas
entrou para os receituários clínicos
Anna
Paula Buchalla
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O perfil dos somatizadores
20%
da população mundial é afetada pelos transtornos de somatização
O
distúrbio é mais comum em mulheres
e entre elas os sintomas costumam ser mais severos
42,6
anos é a idade média dos somatizadores
40%
deles têm depressão
20%
apresentam transtorno do pânico ou ansiedade
Os
somatizadores estão entre os principais usuários do sistema de saúde:
60% das consultas médicas referem-se
a pacientes com queixas sem nenhuma causa orgânica
As
principais reclamações são: Dor no peito Fadiga
Tontura Dor de cabeça Dor nas costas Falta de ar
Insônia Dor abdominal
É quase certo que, ao demonstrar
um desconforto físico, você já tenha ouvido que está
"somatizando". Mas o que é exatamente somatização?
Trata-se de um processo pelo qual distúrbios de origem psíquica,
emocional, traduzem-se em mal-estar, com ou sem causa orgânica definida.
Os dez problemas mais relatados pelos somatizadores são dor no peito, fadiga,
tontura, dor de cabeça, inchaço, dor nas costas, falta de ar, insônia,
dor abdominal e torpor. Não faz tanto tempo assim, a esmagadora maioria
dos médicos ocidentais relegava tais pacientes ao limbo de um ramo até
então pouco prestigiado da psiquiatria o da medicina psicossomática.
Mas esse quadro começa a mudar.
Muitos
clínicos estão dando mais atenção aos quadros de somatização.
Eles, agora, procuram escutar os somatizadores da forma preconizada por Maimônides,
um médico mouro do século XII: "Uma consulta deve durar uma
hora. Durante dez minutos, ausculte os órgãos do paciente. Nos cinqüenta
minutos restantes, sonde-lhe a alma". Com isso, passaram a oferecer meios
de tratar o seu padecimento atual e evitar os futuros, em vez de se apressarem
em livrar-se dos "neuróticos". Além disso, equipes de
pesquisadores dedicam-se a tentar desvendar os mecanismos pelos quais as emoções
podem resultar em afecções. Vários deles, inclusive, já
foram descobertos (veja quadro).
Pode-se dizer que a medicina ocidental está revendo o dogma de que sintomas
só são passíveis de tratamento se originados em problemas
físicos descritos cientificamente. Nesse caminho, segue a trilha da antiga
medicina oriental, segundo a qual um sintoma, mesmo sem causa orgânica suficientemente
identificada, é, em si, um desequilíbrio a ser curado.
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Convivência
pacífica Cientistas japoneses criaram
um rato que não tem medo de gato. Essa experiência representa um
passo rumo à descoberta de fórmulas para o controle farmacêutico
das emoções que causam problemas físicos
Embora desde o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina ocidental,
haja registros de processos de somatização, o fenômeno só
ganhou um nome no início do século XX. O médico austríaco
Wilhelm Stekel, um dos pioneiros da psicanálise, lançou a expressão
alemã organsprache ("fala dos órgãos") para
denominar sintomas físicos associados precipuamente ao lado psíquico.
Na versão para o inglês, o termo foi traduzido como somatization,
palavra criada a partir do radical grego "soma", corpo. Atualmente,
os médicos fazem uma distinção entre transtorno somatoforme
e somatização. O primeiro caracteriza-se por queixas físicas
recorrentes, mas sem causas detectáveis por exames clínicos ou de
imagem. É o caso, por exemplo, de um paciente que reclama de dores de estômago,
mas, submetido a uma endoscopia, não apresenta nenhuma lesão nesse
órgão. Para que a doença seja diagnosticada como um transtorno
somatoforme, é preciso que a pessoa exiba um ou mais sintomas por um período
mínimo de seis meses. De acordo com a Organização Mundial
de Saúde, 20% da população do planeta manifesta quadros da
doença. "Os sintomas são reais. O sofrimento desses pacientes
não é menor do que o daqueles que apresentam problemas com causas
orgânicas bem definidas", disse a VEJA a psiquiatra americana Lesley
Allen, especialista no assunto.
A palavra
somatização, por sua vez, hoje é usada especificamente para
as doenças identificáveis por meio de exames, desencadeadas por
sobrecarga emocional. Certas doenças têm um componente fortemente
somático. É o caso de asma, úlceras, fibromialgia, gastrite,
alergias e herpes, principalmente. As situações que mais deflagram
respostas somáticas são as de stress decorrente de um luto ou de
uma separação conjugal. Para não falar da onipresente depressão,
é claro. "Na verdade, não existe um só sentimento que
não tenha uma repercussão física. O que varia é a
intensidade da emoção e a vulnerabilidade do corpo", afirma
o psiquiatra Geraldo Ballone, de Campinas.
É
freqüente confundir somatização com hipocondria. São
coisas completamente diferentes. O hipocondríaco é alguém
preocupado em excesso com a própria morte. Seu medo é tanto que
ele freqüentemente interpreta um mal-estar passageiro como um sinal de doença
grave. O exemplo perfeito é o do personagem de Woody Allen no filme Hannah
e Suas Irmãs, que tinha certeza de que suas dores de cabeça
eram um sintoma de um tumor no cérebro e, por isso, submetia-se a tomografias
da cabeça como quem tira pressão arterial. O que somatizadores
e hipocondríacos têm em comum são as idas freqüentes
ao médico. "As somatizações são responsáveis
por um número muito alto de consultas", diz o psiquiatra José
Atilio Bombana, da Universidade Federal de São Paulo. Calcula-se que até
a metade de todos os gastos do sistema público de saúde deva-se
a somatizações.
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Sentimentos
revelados Comportamentos histriônicos
ou contidos demais favorecem as doenças psicossomáticas. Entender
e expressar as emoções é a melhor forma de se proteger
Do ponto de vista fisiológico, já se sabe que o processo de somatização
ocorre no eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal (veja
quadro). Com o auxílio da medicina molecular e exames de imagem
de altíssima precisão, está-se conseguindo mapear em detalhes
os canais de comunicação entre o cérebro e os sistemas imunológico
e endócrino. A interação entre corpo e mente se dá
por meio de uma intrincada rede de hormônios, proteínas e neurotransmissores
que não cessam de interagir. Os cientistas querem definir o que ocorre
ao certo quando há um descompasso entre o cérebro e esses sistemas,
especialmente nos momentos emocionais mais críticos. Apesar de haver uma
longa estrada a ser percorrida, ao entender em parte como os sentimentos afetam
o organismo, a medicina deu um passo adiante rumo à prevenção
e à cura de doenças típicas da somatização.
No plano estatístico, as evidências da relação entre
o psicológico e o físico sempre foram elusivas. Não são
mais. Dois estudos publicados neste ano, um no Jornal da Associação
Médica Americana (Jama) e outro no Archives of Internal Medicine,
atestam a conexão. No primeiro deles, rea-lizado com quase 1.000 pacientes,
entre 35 e 59 anos, vítimas de infarto que exerciam funções
com grande demanda emocional mostraram-se duas vezes mais predispostas a sofrer
um novo evento cardíaco. No segundo estudo, o professor de psicologia Sheldon
Cohen, da Universidade Carnegie Mellon, analisou 319 artigos médicos que
relacionavam emoções intensas com falhas do sistema imunológico.
Ele concluiu que tais emoções podem acelerar a progressão
até mesmo de males associados à aids. Há também uma
pesquisa notável, levada a cabo por médicos ingleses do London College.
Depois de acompanharem 9.000 pessoas durante doze anos, eles descobriram que os
que tinham relacionamentos íntimos marcados por brigas e conflitos sofriam
34% mais risco de apresentar um distúrbio cardiovascular.
Não se pode incorrer no simplismo de afirmar, como fazem alguns psicólogos,
que toda e qualquer doença tem origem nos sentimentos. "Mas é
provável que, por determinação genética, haja pessoas
mais propensas a ficar doentes por causa de emoções excessivas",
diz o psiquiatra Mario Alfredo De Marco, da Universidade Federal de São
Paulo. A mesma situação pode ser mais desgastante para uma pessoa
e menos para outra, não apenas pelo perfil psicológico de cada uma,
mas por efeito de uma tendência genética para reações
hormonais mais ou menos fortes. Fatores culturais também são relevantes.
Um levantamento aponta que os brasileiros estão entre os campeões
de somatização (veja o mapa na pág. 164). "Comportamentos
histriônicos ou contidos demais podem resultar no aparecimento de afecções",
diz o psiquiatra Bombana.
Estudos
mostram que um bom suporte afetivo e determinados tipos de terapia psicológica
são capazes de melhorar a resposta imunológica até mesmo
em pacientes de câncer. Uma das linhas de pesquisa mais avançadas
nessa área é a da professora americana Lesley Allen. Ela defende
a terapia cognitivo-comportamental, associada a técnicas de relaxamento,
exercícios moderados e uso de antidepressivos, para diminuir a severidade
dos sintomas entre os somatizadores. Os antidepressivos, aliás, têm
fornecido resultados surpreendentes. Pacientes tratados com esses remédios
apresentaram uma redução considerável nas idas ao médico,
especialmente aqueles que sofriam da síndrome da fadiga crônica,
distúrbio recorrente entre os somatizadores. Outra linha de pesquisa também
começa a esboçar-se. No início de novembro passado, a equipe
do pesquisador Hitoshi Sakano, da Universidade de Tóquio, criou em laboratório
ratos que não têm medo de gatos. Por meio de alterações
genéticas, os cientistas conseguiram remover determinadas células
do sistema olfativo dos roedores, responsáveis por detectar a presença
de ameaças. Ao terem esse grupo de células desligado, as cobaias
aproximaram-se de um gato sem manifestar pavor. Essa experiência representa
um avanço na direção de remédios próprios para
o controle de emoções que podem causar problemas físicos.
Não se trata, é claro,
de demonizar o lado sentimental. De sugerir que todos sejamos robôs gélidos.
Tanto os sentimentos bons quanto os ruins foram e são fundamentais
para a preservação da espécie, como demonstrou o naturalista
inglês Charles Darwin, o primeiro a estudar de forma abrangente a influência
das emoções instintivas no processo evolutivo. Se elas nos trouxeram
até aqui, compreendê-las pode nos levar ainda mais longe do ponto
de vista da saúde física. Na falta da pílula mágica
que tudo amenize ou controle (e com a qual sonhava até mesmo Sigmund Freud,
o pai da psicanálise), cabe a todos nós tentar evitar que sejamos
possuídos por sentimentos que redundem em sofrimento físico. Expressá-los
sem medo é uma boa medida. Dito assim, parece simples. Não
é. Até mesmo os pacientes mais articulados encontram dificuldades
ao traduzir seus sentimentos em palavras. O escritor americano William Styron,
um dos que melhor expressaram a tristeza e a melancolia, descreveu sua dor psíquica
constante como "algo tão misteriosamente doloroso que não é
possível nem por meio de mediação intelectual chegar perto
de uma descrição". Sim, as palavras nem sempre alcançam
a alma.
Por uma vida mais serena
As
alternativas que comprovadamente ajudam a amenizar os sintomas da somatização,
ao aliviar o sofrimento emocional
Meditação Acredita-se
que a meditação modula a resposta do sistema nervoso ao stress.
Consegue-se isso por meio do controle da ansiedade. O estudo mais recente nesse
campo submeteu pacientes cardíacos à meditação e comprovou
que eles tiveram uma redução da pressão arterial
Terapias
cognitivo-comportamentais O objetivo do método é fazer o
paciente aprender a controlar os sintomas. Ou seja, ensiná-lo a evitar
a cadeia de reações emocionais que leva o corpo a responder com
sinais físicos. Também chamado de terapia breve, é especialmente
eficaz para aplacar sintomas clássicos, como taquicardia, tontura e falta
de ar
Psicanálise Ainda
que nunca tenha criado uma teoria psicossomática, Sigmund Freud, o pai
da psicanálise, foi um dos seus mais importantes precursores. Ao iniciar
a prática clínica, Freud percebeu que as manifestações
da histeria correspondiam a uma anatomia imaginária. Ao contrário
das outras duas técnicas, a psicanálise age na raiz do problema.
Nesse caso, faz toda a diferença saber se os sintomas de uma somatização
são fruto da história pessoal do paciente. É uma abordagem
profunda e complexa, que demanda tempo e disposição para que o paciente
se aventure no autoconhecimento. Os resultados desse tipo de terapia para a melhora
da saúde, embora mais demorados, já foram provados cientificamente