Em março
deste ano, após passar 65 horas num avião da
Força Aérea durante uma missão de nove
dias por vários países, o vice-presidente dos
Estados Unidos, Dick Cheney, deu entrada numa clínica
em Washington com dores na perna esquerda. Seu quadro, aparentemente,
não era grave, mas a internação pode
ter salvado sua vida. Um exame de ultra-sonografia detectou
que um coágulo sanguíneo havia se formado numa
perna de Cheney. Sem tratamento, o nódulo poderia viajar
pelo corpo, entupir a artéria do pulmão e levar
o vice-presidente à morte. Cheney foi vítima
do que se chama de síndrome da classe econômica
a trombose causada depois de vôos nos quais o
passageiro fica praticamente imóvel durante muitas
horas. Desde os anos 50 se associam os vôos longos à
incidência de trombose, mas só agora se conseguiu
descobrir o verdadeiro tamanho do risco que espreita os passageiros.
Uma pesquisa feita pelo centro médico da Universidade
Leiden, na Holanda, concluiu que os passageiros de vôos
com mais de quatro horas de duração têm
três vezes mais probabilidade de desenvolver um coágulo
sanguíneo do que quem não viaja de avião.
Carol
Carquejeiro
Thiago Soares: desmaio e
internação num hospital após
um vôo entre Paris e São Paulo
Para realizarem
o estudo, durante quatro anos os cientistas acompanharam a
rotina de 9 000 funcionários de empresas multinacionais.
Descobriram que a possibilidade de obstrução
parcial ou total de suas veias aumentava quanto maior a freqüência
com que faziam viagens aéreas, especialmente de longa
distância. A ameaça se potencializa em vôos
na classe econômica, nos quais há menos espaço
entre as poltronas para movimentar as pernas. A trombose venosa
profunda, ou TVP, ocorre quando um coágulo sanguíneo
se forma nas veias profundas do corpo, no interior dos músculos,
geralmente das pernas. O coágulo prejudica a circulação
normal do sangue, o que provoca dor e inchaço. Mas
pode ser fatal quando se desloca pelo sistema circulatório
e entope a artéria pulmonar. A esse quadro se dá
o nome de embolia. "De cada 4.500 pessoas que fazem viagens
aéreas, uma terá TVP em até oito semanas
após o vôo", explica o holandês Frits
Rosendaal, coordenador do estudo da Universidade Leiden.
O consultor de sistemas
paulista Thiago Soares, de 28 anos, é um dos passageiros
que engrossam essa estatística. Após um vôo
de onze horas entre Paris e São Paulo, ele desembarcou
sentindo dores e inchaço numa perna. Os sintomas se
agravaram ao longo dos dias, até que Thiago começou
a mancar. Ele só procurou um médico depois de
desmaiar ao subir uma escada. "Quando fui levado ao hospital,
descobri que tinha sofrido uma embolia pulmonar", ele
recorda. Thiago foi tratado com drogas trombolíticas
e medicamentos anticoagulantes e hoje leva vida normal. Explica
o médico Cyrillo Cavalheiro Filho, chefe do serviço
de hemostasia e trombose do Instituto do Coração
do Hospital das Clínicas de São Paulo: "Em
viagens longas nas quais o passageiro não pode se movimentar,
o sangue circula mais lentamente e as pernas não realizam
as contrações musculares que ajudam a empurrá-lo
dos membros inferiores para cima. A circulação
sanguínea mais lenta favorece a formação
de coágulos nas veias".
Esse mesmo processo
pode ocorrer em quem passa muitas horas sentado no trabalho
ou em viagens de carro, ônibus ou trem. Nos aviões,
a situação é especialmente crítica
porque não há paradas que permitam aos viajantes
esticar o corpo e caminhar. As companhias aéreas exigem
que os passageiros permaneçam nos assentos a maior
parte do tempo. Como se isso não bastasse, para evitar
a corrosão nas partes metálicas das cabines,
o ar que se respira dentro das aeronaves é muito seco,
o que deixa o corpo desidratado e o sangue mais viscoso, aumentando
o risco de coagulação. Esse fator agravante
deve desaparecer no novo avião da Boeing, o 787 Dreamliner,
o primeiro cuja fuselagem é construída em grande
parte de fibra de carbono. Com a troca do metal pelo carbono,
um material menos sujeito à corrosão, a aeronave
poderá ter um ar mais úmido em seu interior.
Por enquanto, o que há a fazer é adotar medidas
preventivas contra a trombose (veja
o quadro) e levar em conta o espaço
entre as poltronas do avião na hora de escolher a companhia
aérea.