Parente mais refinado
da pichação, o grafite migra para as galerias de arte e já
começa a ser visto até mesmo como investimento
Luiz
Fukushiro
Fotos
Oscar Cabral e divulgação
Claudio
Manoel com seu mural de osgemeos, Szwarcwald com quadro de Nina e castelo escocês
grafitado por diversos brasileiros: reconhecimento
Na
última década, o grafite brasileiro começou a se desvincular
de sua irmã pobre e inconveniente, a pichação, e conquistou
algum reconhecimento cultural. Agora, um novo passo: o grafite está migrando
para galerias de arte. A dupla mais famosa de grafiteiros, formada pelos irmãos
Gustavo e Otavio Pandolfo (codinome osgemeos), de 33 anos, já tem seu nome
no catálogo de uma galeria tradicional de São Paulo, a Fortes Vilaça.
Suas obras podem ser vendidas por até 100 000 reais. Mas nomes menos conhecidos,
como Zezão e Titi Freak, também já não precisam contar
exclusivamente com muros desprotegidos para usar seus tubos de spray. Com duas
dezenas de colegas, eles são representados pela igualmente paulistana Choque
Cultural. Como "grafiteiros de galeria", tanto podem pintar em paredes
quanto fazer telas, num formato tradicional. Há pouco, Titi Freak comemorou
a venda de uma tela por 4 000 libras (cerca de 15 000 reais) para
um colecionador inglês.
Até
recentemente, a principal razão para alguém comprar grafite era
a identificação com essa linguagem jovem e "descolada".
Foi assim com o apresentador de televisão Zeca Camargo e com o humorista
Claudio Manoel, do grupo Casseta & Planeta. Manoel tem duas obras pintadas
diretamente nas paredes do seu apartamento no Rio de Janeiro, de autoria de osgemeos.
"Minha mulher queria uma obra de grafite, e acabei conhecendo os dois. Isso
faz uns cinco anos. Na época, paguei 3 000 reais", diz o humorista.
Aos poucos, porém, torna-se possível adquirir uma tela como forma
de investimento. É o que faz o economista carioca Fábio Szwarcwald,
de 35 anos. Ele afirma dedicar de 10% a 15% de sua renda mensal a obras de arte.
Já tem em sua coleção 170 peças, das quais quinze
são assinadas por grafiteiros. "Compro aquilo de que eu gosto e aquilo
que acredito ser um bom investimento", afirma.
O
grande centro do grafite brasileiro é São Paulo. Os artistas de
maior renome, como osgemeos, Nina e Nunca, encontraram seu estilo na cidade, a
partir do início dos anos 90. Na época, a pichação
política tinha força nas ruas. Os pioneiros do grafite absorveram
essa influência e foram além. Trabalhos de osgemeos ou Nina
podem ser delicados, quase sonhadores, e se afastam da linguagem rústica
da pichação. Para o cineasta americano Jon Reiss, a "escola
paulistana" tem grande originalidade. Depois de mapear a atividade dos grafiteiros
pelo mundo afora, no documentário Bomb It, Reiss resolveu enfocar
São Paulo em um novo filme. "Eu diria que o que vejo aqui é
único, não tem paralelo em outros lugares", diz ele. "O
surgimento de um novo mercado para esses garotos é uma ótima notícia,
pois eles são talentosos e poderão sobreviver fazendo o que lhes
dá prazer."
O surgimento
desse novo mercado é uma boa notícia para os grafiteiros em mais
de um sentido. Em meados deste ano, por exemplo, São Paulo aprovou uma
lei destinada a combater a poluição visual. A lei distingue entre
pichação e grafite, mas, como ainda não foi regulamentada,
as pinturas dos grafiteiros e as inscrições dos pichadores vêm
sendo igualmente apagadas dos muros da cidade. "Enquanto somos convidados
para grafitar a fachada de um castelo com mais de 700 anos na Escócia,
aqui o nosso trabalho e o de outros artistas está sendo coberto de cinza",
diz Otavio, um dos gêmeos. Segundo ele, preservar espaços para o
grafite na cidade é essencial, pois a experiência na rua sempre será
fundamental para a formação de um grafiteiro. Opinião compartilhada
por Francisco Rodrigues, o Nunca, de 24 anos. "Quem grafita de verdade está
na rua. Os outros são oportunistas", diz ele.