Polícia do Senado
é acusada de contratar detetives particulares para investigar a vida
de senador adversário do então presidente Renan Calheiros
Otávio
Cabral
Lucio
Tavora/AE
Renan
Calheiros: julgamento por quebra de decoro em meio a novo escândalo
O
senador Marconi Perillo, do PSDB de Goiás, foi alertado sobre a trama há
um mês. Sua vida estava sendo devassada por um grupo de detetives particulares.
Ex-governador do estado, o senador tomou duas providências. Primeiro, ele
pediu à polícia de Goiás que investigasse. Depois comunicou
o caso ao corregedor do Senado, Romeu Tuma. Discreto, Perillo atribuiu a história
a razões provincianas. Estava enganado. Os policiais goianos descobriram
um autor bem mais notório e razões bem diferentes para o triste
episódio. Dois escritórios de detetives um em Brasília
e outro em Goiânia haviam sido contratados para bisbilhotar a vida
do senador. Estavam orientados a identificar desde supostos negócios fraudulentos
realizados entre o parlamentar e empresários até a existência
de contas bancárias dele no exterior. Seguindo o rastro dos arapongas,
os investigadores goianos descobriram algo ainda mais escandaloso: a espionagem
foi contratada pelo próprio Senado Federal. Segundo relato dos agentes,
a Polícia do Senado acionou um conhecido escritório de espionagem
política de Brasília a Central Única Federal dos Detetives
do Brasil para levantar as informações financeiras de Marconi
Perillo. Os telefones do senador foram grampeados e violaram seu sigilo bancário
e fiscal. A invasão de privacidade está sendo investigada, em sigilo,
pela Polícia Federal.
"É
o fim do mundo alguém usar a estrutura do Senado para investigar ilegalmente
os senadores", disse o senador Perillo. É o segundo caso envolvendo
o senador tucano com espionagem nos últimos dois meses. No primeiro, também
revelado por VEJA há oito semanas, o então assessor da presidência
do Senado, Francisco Escórcio, foi pilhado planejando instalar câmeras
de vídeo no hangar do Aeroporto de Goiânia. Ele pretendia filmar
os senadores Demóstenes Torres e Marconi Perillo embarcando em jatos supostamente
cedidos por empresários para depois usar as imagens como arma de chantagem.
Os senadores são defensores da cassação do mandato do presidente
licenciado do Congresso, Renan Calheiros. Escórcio era auxiliar direto
de Renan. Foi demitido para salvar as aparências. O caso de agora começou
exatamente no mesmo período, e os policiais suspeitam que ambos façam
parte da mesma operação. Em outubro passado, Marconi Perillo recebeu
um telefonema do governador de Goiás, Alcides Rodrigues. O governador disse
que tinha informações concretas de que o senador era alvo de uma
investigação ilegal. Um policial aposentado contou ter sido contatado
por um escritório de detetives profissionais. Eles lhe ofereceram dinheiro
para ajudar na apuração e na montagem de um dossiê contra
Perillo.
Vivi
Zanatta/AE
Cristiano
Mariz
Marconi
Perillo teve os telefones grampeados e os sigilos violados: a quem interessa?
O
senador Perillo procurou o secretário de Segurança do Estado, Ernesto
Roller, e o diretor da Polícia Civil, delegado Marcos Martins. Pediu a
ambos que investigassem o caso com discrição. A polícia desvendou
parte da trama. Seguindo a cadeia de contatos dos arapongas, descobriu que o policial
aposentado foi procurado pela detetive Luzia Aparecida Tanganelli. Sem saber que
estava sendo investigada, ela, por sua vez, revelou que estava prestando serviços
a uma agência de Brasília. Os policiais descobriram em Brasília
que o contratante final era a Polícia do Senado. O resultado da investigação,
realizada pelo serviço reservado da polícia de Goiás, foi
repassado ao senador Marconi Perillo na semana passada. VEJA teve acesso às
principais conclusões da polícia goiana:
Foi um agente da Polícia do Senado, não identificado, quem procurou
o escritório de detetives de Brasília. Os arapongas usariam os serviços
de ex-policiais federais.
Os detetives brasilienses contrataram o escritório Agatha & Holmes,
em Goiânia, que tem como representante Luzia Tanganelli, conhecida pelo
apelido de "Cleópatra" e por usar informações colhidas
ilegalmente para chantagear.
A missão dos arapongas goianos era descobrir se Marconi Perillo tinha participação
societária oculta nas empresas Perdigão e Schincariol, ambas instaladas
em Goiás durante seu governo.
Quebraram o sigilo fiscal e bancário do senador para tentar investigar
a existência de uma suposta conta milionária em um banco dos Estados
Unidos.
O plano também
previa a interceptação dos telefones do senador. Os policiais listaram
os nomes, os endereços e os telefones dos principais personagens envolvidos
na trama.
Fotos
Cristiano Mariz
Os
detetives particulares Luzia Tanganelli e Edilmar Lima: "Esse caso é
sigiloso, é perigoso"
Resta
um mistério não esclarecido pelos investigadores goianos. Afinal,
qual seria o interesse da Polícia do Senado na vida pessoal de Marconi
Perillo? O senador tem uma suspeita: "Eu tive uma atuação destacada
no caso Renan Calheiros, no Conselho de Ética, na Comissão de Constituição
e Justiça e no plenário. Não tenho provas concretas, mas
não descarto que essa coisa abominável possa ter sido causada pela
minha atuação em defesa da cassação de Renan Calheiros".
O senador Marconi Perillo, de fato, teve uma participação capital
no Conselho de Ética. Foi sua a manobra que implodiu um plano dos aliados
de Renan Calheiros para arquivar no nascedouro o processo que investigou as relações
do senador com um lobista de empreiteira. Também foi Perillo o autor do
requerimento que estabeleceu o voto aberto no Conselho de Ética, decisão
que irritou Renan Calheiros e seus aliados.
Na
quinta-feira passada, VEJA esteve nos dois escritórios apontados pela polícia
goiana como responsáveis pela espionagem. Em Brasília, o detetive
Edilmar Lima, o dono da Central Única dos Detetives, teve uma reação
curiosa ao ser perguntado se havia sido contratado pelo Senado para bisbilhotar
a vida de Marconi Perillo: "Como essa história vazou? Esse caso é
sigiloso, é perigoso". Isso é uma confirmação?
"Se fiz ou não esse serviço, não posso falar. Todo contrato
que eu assino tem uma cláusula de sigilo muito rigorosa. Se assumir que
isso é verdade ou mentira, vou estar queimando meu nome e posso ser processado
pelo cliente", respondeu o araponga. Em mais de uma hora de entrevista em
seu escritório, o detetive explicou como trabalha, relatou casos de seus
treze anos de carreira, mas, indagado várias vezes, em nenhum momento negou
o envolvimento com a espionagem contra o senador tucano. Muito pelo contrário.
"Se trabalhei nesse caso, não fiz nada ilegal. É lícito
investigar, a lei está ao meu lado, posso investigar até o presidente
da República. O que é crime é o uso indevido do resultado
da investigação", explicou. Edilmar afirma também que
conhece muita gente no Congresso e que executou, e ainda executa, trabalhos para
deputados e senadores. Foi assim no caso Perillo? "Onde há fumaça
há fogo. Você é esperto, entendeu muito bem o que eu falei",
disse ele.
Ed
Ferreira/AE
O
corregedor Romeu Tuma pediu abertura de inquérito à Polícia
Federal para apurar caso de espionagem
Edilmar
disse que cobra entre 100 000 e 120 000 reais para fazer levantamentos sobre políticos
importantes. O detetive não revela se conhece ou foi procurado por alguém
ligado à Polícia do Senado. Ele, porém, confirma que conhece
Luzia Tanganelli. Tem, inclusive, o telefone da detetive na agenda de seu celular.
"Ela é uma dos mais de 300 colaboradores que temos em todo o Brasil",
diz. Luzia vive num prédio de classe média em Goiânia, onde
também funciona seu escritório. Ela negou qualquer participação
no episódio e, o mais curioso, disse que nem sequer conhece o detetive
Edilmar Lima. "Não conheço e nunca ouvi falar dessa pessoa",
garante. Num primeiro momento, ela diz que sobrevive da pensão alimentícia
repassada pelo ex-marido. Depois, admite que faz alguns trabalhos esporádicos
para localizar pessoas e endereços na condição de representante
de uma firma de São José do Rio Preto, no interior paulista. VEJA
apurou que foi o ex-marido de Luzia, Abdul Sebba, um ex-delegado, ex-deputado
estadual e aliado político de Perillo, quem fez chegar ao governador de
Goiás as primeiras informações sobre a espionagem. Procurado,
Sebba disse que não tinha nada a declarar.
O
diretor da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo, negou qualquer
envolvimento do órgão. Segundo ele, a polícia legislativa
nunca contratou empresas para realizar qualquer tipo de investigação.
Já o corregedor do Senado, Romeu Tuma, confirmou que pediu à Polícia
Federal para abrir inquérito, logo que tomou conhecimento do caso. O corregedor
só soube do envolvimento da polícia legislativa na semana passada
e disse que vai convidar o senador Marconi Perillo a prestar depoimento já
nesta terça-feira dia em que o plenário do Senado vai julgar
Renan Calheiros por quebra do decoro parlamentar. O senador é acusado de
usar laranjas e dinheiro ilícito para comprar duas emissoras de rádio
e um jornal em Alagoas, conforme VEJA revelou há quatro meses. Entalado
em uma fossa de irregularidades, ainda assim ele está confiante na absolvição.
Conta hoje com a simpatia e a cumplicidade de boa parte dos colegas apesar
de mais um escândalo a rondar sua biografia.
Fotos
Ueslei Marcelino/Folha Imagem, ABR, Andre Dusek/AE e Celso Junior/AE
Fotos
Celso Junior/AE, Ana Araujo e Lula Marques/Folha Imagem