O médico americano
diz que para se manter
jovem não é suficiente cuidar do corpo.
É preciso também refazer as amizades
Paula Neiva
Divulgação
"Para aumentar
a expectativa
de vida, não basta evitar doenças.
É preciso exercitar o corpo
para que ele não enfraqueça"
A especialidade
do cirurgião cardíaco americano Mehmet Oz, de
47 anos, é retardar ao máximo os efeitos da
idade em seus pacientes. Diretor do Programa de Medicina Integrada
da Universidade Colúmbia, em Nova York, ele é
consultor da famosa clínica antienvelhecimento do médico
Michael Roizen, criador do conceito de que é possível
manter o organismo mais jovem do que aponta a idade cronológica.
Oz e Roizen também assinam a quatro mãos uma
série de livros de sucesso que ensinam como manter
um estilo de vida que adia a velhice. O mais recente deles,
You Staying Young (Você Sempre Jovem), lançado
há um mês nos Estados Unidos, já vendeu
meio milhão de exemplares. Nos últimos quatro
anos, Oz se tornou uma celebridade ao participar de um quadro
fixo no programa de TV da apresentadora Oprah Winfrey. Ele
também apresenta documentários no Discovery
Channel. Nos dois casos, dá dicas aos telespectadores
sobre como viver mais com boa saúde. Esse é
justamente o tema da entrevista que ele deu a VEJA.
Veja
Existe uma fórmula
para se manter jovem por mais tempo? Oz
Sim. Há catorze agentes principais envolvidos
no envelhecimento. Sete retardam o processo, como os antioxidantes,
e sete nos enfraquecem, como a atrofia muscular. É
preciso manter esses agentes sob controle. O primeiro passo
para alcançar esse objetivo é pensar não
na possibilidade de ficar doente, mas na necessidade de manter
o organismo saudável. Deve-se tirar o foco da prevenção
dos males e direcioná-lo para a preservação
da saúde. Se ninguém mais morresse de câncer
e de doenças cardiovasculares, a expectativa de vida
média do ser humano subiria apenas nove anos. Isso
mostra que, para aumentar consideravelmente a expectativa
de vida, não basta evitar doenças. É
preciso cuidar do corpo para que ele não enfraqueça.
Quando uma pessoa envelhece, doenças potencialmente
fatais, como o câncer e o infarto, não aparecem
de imediato. Antes que elas se instalem, o corpo torna-se
mais frágil e vulnerável.
Veja
O
que fazer para evitar que o corpo se torne frágil e
vulnerável? Oz
Meu novo livro, You Staying Young (Você
Sempre Jovem, ainda sem previsão de lançamento
no Brasil), trata exatamente desse tema. Os exercícios
físicos são uma ferramenta essencial. Eles combatem
o primeiro sinal do envelhecimento, que é a perda de
força muscular. Outros recursos importantes são
alimentar-se bem e meditar. Uma boa recomendação
é a prática do tai chi chuan, exercício
oriental que combina equilíbrio, coordenação
motora e também meditação. Se todos adotassem
essas medidas, a vida média da população
poderia subir para 110 anos. Quanto à alimentação,
não podem faltar nutrientes como o resveratrol da uva
e o licopeno do tomate, que são poderosos antioxidantes.
O principal, mas também o mais difícil, é
controlar a quantidade dos alimentos. De qualquer forma, todo
mundo deve comer um pouco menos do que tem vontade.
Veja
Fazer várias pequenas refeições
por dia, como recomendam alguns médicos, faz bem para
a saúde? Oz
Deve-se comer de três em três horas.
Se o intervalo é maior, a taxa de hormônio grelina,
que estimula a fome, começa a subir. O problema é
que, após uma refeição, ainda demora
trinta minutos para que a taxa desse hormônio volte
a baixar. Em conseqüência disso, acaba-se comendo
mais do que se deveria. O mais importante, além de
comer alguma coisa a cada três horas, é trocar
as refeições grandes por pequenas, intercaladas
por lanchinhos. Esse conceito não foi criado por mim.
É o que mostram as pesquisas científicas.
Veja
O que o senhor considera refeições grandes
e pequenas? Oz
Uma refeição grande ultrapassa
1 000 calorias. Uma pequena tem, no máximo, 500. Quem
consome por volta de 2 000 calorias diárias pode fazer
duas refeições de 300 calorias cada uma e outra
maior, de até 800. Os lanchinhos podem ter até
250 calorias.
Veja
O que deve ficar de fora do cardápio? Oz
Existe uma regrinha fácil de ser usada,
a regra dos cinco. Para isso, é preciso examinar o
rótulo dos alimentos. Cinco ingredientes não
podem estar entre os primeiros listados no rótulo.
São eles: gorduras saturadas, gorduras trans, açúcar
simples, açúcar invertido e farinha de trigo
enriquecida. Dois desses nutrientes são gorduras, dois
são açúcares. Os dois tipos de gordura
podem estimular processos inflamatórios no fígado
que forçam a produção de substâncias
deletérias, como o colesterol. Também fazem
com que o fígado fique menos sensível à
insulina, aumentando o risco de diabetes. Os açúcares
listados fazem mal por estimular a produção
de insulina, o que aumenta o depósito de gordura corporal.
O pior é que esses cinco itens são os mais comuns
nas dietas atuais.
Veja
O
cardápio básico do brasileiro, composto de arroz,
feijão, carne e salada, é saudável? Oz
A princípio, sim. Esse cardápio
contém exatamente os nutrientes para os quais a digestão
humana está preparada. Mas os brasileiros comem carnes
muito gordas, o que é errado. Antigamente, no mundo
inteiro, quando os métodos de criação
do gado eram mais simples, a porcentagem de gordura dos melhores
cortes da carne bovina era, em média, de 4%. Hoje é
de 30%. Outro problema dos hábitos alimentares do brasileiro
é que ele come arroz em excesso, o que não traz
nenhum benefício. Melhor seria adotar o arroz integral.
Os alimentos integrais têm mais fibras, o que os mantém
mais tempo no intestino e diminui a absorção
de açúcar pelo organismo. Uma vantagem dos brasileiros
é ter à disposição enorme variedade
de frutas e vegetais maravilhosos, por preço razoável.
Veja
Os hábitos que o senhor propõe para prolongar
a vida são relativamente simples, mas exigem controle
estrito sobre as atividades do dia-a-dia. Como exercer esse
controle? Oz
A palavra-chave é automatizar. Ou seja,
fazer desses hábitos uma rotina, sem precisar pensar
muito neles. Acordar, escovar os dentes e passar o fio dental,
para reduzir a quantidade de bactérias prejudiciais
à saúde. Beber muito líquido ao longo
do dia, principalmente água e chá verde. Dormir
ao menos sete horas por noite. Durante o sono se produz o
hormônio do crescimento, essencial mesmo para quem já
é adulto, pois prolonga a juventude. Caminhar meia
hora por dia e praticar exercícios que façam
suar três vezes por semana. Meditar cinco minutos diariamente,
o que pode estar embutido na prática de ioga ou tai
chi chuan. Evitar alimentos que estejam na regra dos cinco,
que mencionei anteriormente. Uma última coisa: estreitar
o relacionamento com as pessoas próximas e abster-se
de julgá-las. Em vez de julgar os outros, é
melhor tomar conta de si próprio.
Veja
Abster-se de julgar os outros ajuda a manter a juventude? Oz
Sim, da mesma forma que resolver situações
de conflito. O conflito não traz nada de positivo.
É apenas desgastante. Costumo recomendar a meus pacientes
que procurem as pessoas com quem mantêm uma relação
de animosidade e tentem resolver o impasse. Essa é
uma atitude para o bem-estar próprio. Não há
nada de altruísta nela. É uma atitude egoísta.
Veja
O que o senhor acha
das dietas para emagrecer que surgem e viram moda a cada seis
meses? Oz Essas
dietas fazem sucesso, mas são péssimas para
a saúde. A alimentação não deve
ser encarada como uma maratona para a perda de peso. Uma dieta
que tenha como chamariz o emagrecimento rápido não
é confiável. Comer menos do que o corpo necessita
é uma agressão à fisiologia. Ou seja,
aos processos químicos que fazem o organismo funcionar.
Quando a fisiologia é desprezada, os resultados das
dietas são transitórios.
Veja
Por
que o senhor recomenda cuidados com o jantar? Oz
Na verdade, há uma única regra
a observar: deve-se jantar pelo menos três horas antes
de dormir. Deitar logo após a refeição
facilita o acúmulo de gordura, principalmente na cintura.
Além disso, comer muito tarde prejudica o sono.
Veja
O senhor recomenda beber muita água durante
o dia. Quanto se deve beber exatamente? Oz
Deve-se beber uma quantidade suficiente para
que a urina esteja sempre clara. Isso varia de um dia para
o outro. Em dias quentes, sua-se muito e, por isso, é
preciso beber mais água. Para quem não abre
mão da cafeína, sugiro chá verde. Em
lugar de quatro cafezinhos por dia, beba quatro copos de chá
verde. Essa bebida concentra muitos antioxidantes e nutrientes
bons para a saúde.
Veja
Muitos
ambientalistas condenam o consumo de água engarrafada.
Do ponto de vista da saúde, ela é melhor que
a água da torneira? Oz
Eu acho um erro beber água engarrafada.
Há dois problemas principais com ela. O primeiro é
que, se a garrafa plástica não for reciclada,
pode contaminar os mares e os rios. Isso prejudica o meio
ambiente e, indiretamente, a saúde. O plástico
das embalagens vai parar nos peixes que comemos. O resultado
é que 97% das pessoas apresentam resíduos de
plástico no organismo, o que interfere no sistema hormonal.
Esses resíduos estimulam os receptores de estrogênio,
o hormônio feminino. Em excesso, o estrogênio
pode causar câncer e outros problemas. As toxinas contidas
no plástico também aceleram o envelhecimento.
O segundo problema é que, como a água engarrafada
não apresenta vantagens com relação à
água da torneira, trata-se de um desperdício
de dinheiro.
Veja
O senhor recomenda exercícios físicos
que provoquem suor. Exercícios leves são inúteis?
Oz
Essas recomendações visam à
saúde cardiovascular. Para essa finalidade, apenas
os exercícios moderados ou intensos, que fazem suar,
apresentam benefícios. Mas os exercícios suaves
e de baixo impacto têm valor. Mesmo a caminhada movimenta
grandes músculos, como os das coxas e dos quadris,
que consomem muita energia. Como o gasto calórico muscular
é maior durante o exercício, a queima de calorias
aumenta.
Veja
Os
suplementos vitamínicos são criticados em muitos
estudos científicos. O que o senhor acha deles? Oz
Eles são eficazes, mas prometem mais
do que cumprem. Na verdade, os médicos saem da faculdade
sem conhecimentos suficientes sobre os suplementos e são
forçados a tirar suas próprias conclusões.
De modo geral, uma suplementação só é
necessária quando as vitaminas não são
obtidas naturalmente com a alimentação. Por
outro lado, acredito que determinadas vitaminas podem melhorar
a qualidade de vida e a longevidade. Entre elas estão
as vitaminas A, B, C, D e E, além de cálcio,
magnésio, selênio e zinco. A vitamina D é
importantíssima, pois previne câncer e osteoporose.
Principalmente nos países mais frios, onde a exposição
solar é restrita, os suplementos são essenciais.
Veja
Além dos procedimentos já descritos nesta
entrevista, o que mais o senhor faz para adiar o envelhecimento? Oz
Minha receita principal de juventude é
brincar com meus filhos. Também procuro descobrir coisas
novas todos os dias. Aprendo ao conversar com os outros e,
apesar de ser muito assediado para responder a perguntas,
por causa de minha atuação na TV, prefiro perguntar,
saber como é a vida das pessoas, como elas trabalham.
Isso faz minha mente exercitar-se.
Veja
Nos
últimos anos, o aperfeiçoamento do tratamento
clínico fez cair o número de cirurgias cardíacas.
Essa é uma tendência em outras especialidades
médicas além da cardiologia? Oz
Sem dúvida. Os recursos clínicos
tornaram-se mais eficazes tanto para a prevenção
de doenças quanto para seu tratamento. Por isso, assim
como na cardiologia, a cirurgia deixou de ser a primeira opção
em outras áreas. Há poucos anos, quando o paciente
machucava o joelho, ia direto para a sala de operação.
Agora, ele vai para a sala de fisioterapia. Essa tendência
também é evidente nos casos de diverticulite,
uma inflamação do intestino, que passou a ser
tratada com o consumo de fibras. O mesmo acontece com pacientes
que apresentam doença arterial obstrutiva periférica.
Antes eles iam para a faca. Agora, recebem como orientação
deixar de fumar e caminhar. Mesmo que sintam dor num primeiro
momento, essa é uma maneira de estimular o crescimento
de novos vasos sanguíneos para substituir os danificados.
Veja
O senhor já esteve no Brasil. Como foi sua experiência
no país? Oz
Visitei o Brasil há muitos anos, quando
ainda era estudante de medicina. Fui ao Rio de Janeiro e conheci
o doutor Ivo Pitanguy. Também fiquei deslumbrado com
as frutas brasileiras e com as lojas de sucos. Elas misturam
frutas e outros vegetais, uma combinação pouco
convencional. Conheci o açaí, que até
hoje está no meu cardápio. Compro açaí
em Nova York mesmo. É um dos alimentos com maior concentração
de antioxidantes. Planejo voltar ao Brasil em meados do ano
que vem para gravar um programa. Quero muito ir à Amazônia
e conhecer as plantas medicinais da região.