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André
Petry Vala negra, mãe gentil
"O
Brasil levará 265 anos para universalizar o saneamento básico.
O que é um país que consome quase três séculos
para dar esgoto a todos?" No dia em
que saiu a notícia de que o Brasil ingressara no pelotão dos países
desenvolvidos e, de acordo com o presidente Lula, virara um país "chique",
saiu também a notícia de que todos os brasileiros terão esgoto
só daqui a 115 anos. A história
informa que o primeiro contrato para construir rede de esgoto na cidade do Rio
de Janeiro é de 1857. O governante era dom Pedro II. Só havia esgoto
em Londres e Hamburgo. O Rio seria a terceira cidade do mundo a ter rede de esgoto.
"Chique." Depois de 150 anos, nem o Rio tem 100% de esgoto. O bairro
que quase chega lá é Copacabana, com 99%, seguido pela Ilha de Paquetá,
com 98%. Contando-se os anos a partir
do primeiro contrato feito no Rio até a cobertura total, em 2122, o Brasil
terá levado 265 anos para universalizar o saneamento básico. O que
é um país que consome quase três séculos para dar esgoto
a todos? O Brasil levará 115 anos
fazendo rede de esgoto porque não se importa com isso. Na semana passada,
deu-se mais atenção, para elogiar ou criticar, à promoção
do país ao clube dos desenvolvidos do que à notícia do esgoto.
É por isso que o Brasil vive encantadoramente bem sob o paradoxo dos excrementos,
conforme mostra o estudo da Fundação Getulio Vargas em parceria
com a ONG Trata Brasil: Levando-se
em conta a cor da pele, quem tem a pior cobertura de esgoto são os pardos.
Só 37% dispõem do serviço. Até os indígenas
estão melhor: 44% têm esgoto.
O Brasil não é ruim em serviços básicos. Tem uma larga
rede de água, de luz e de coleta de lixo. Só é ruim em esgoto.
É fácil entender por quê. As vítimas preferenciais
da falta de esgoto são mulheres grávidas e crianças de 1
a 6 anos. Mulheres não comandam o voto em casa. Crianças não
votam. Esgoto é obra que, correndo por baixo da terra, não se vê.
Político não gosta de obra invisível que atende gente que
não vota. A faixa etária mais atendida por esgoto no país
é a que vai dos 50 aos 54 anos. Eleitores em plena forma. A menos atendida
é a de zero a 4 anos. Eleitores longínquos.
Pode-se alegar que, num país continental, com imensas áreas rurais,
universalizar o esgoto é uma quimera. De fato, só 3% dos moradores
de áreas rurais têm esgoto. Ocorre que, mesmo nas áreas metropolitanas,
o acesso pára em 63%. Há
cidades com mais de 100 000 habitantes em que o esgoto não chega nem a
3% dos moradores. Entre elas, Abaetetuba, agora elevada à condição
de estrela nacional pelo estupro da adolescente presa com trinta homens. Em Abaetetuba,
só 0,3% da população tem esgoto.
São Paulo lidera o ranking nacional, o que não surpreende: 84% dos
paulistas têm esgoto. E o velho Sul maravilha? É outro paradoxo.
Em Santa Catarina, só 10% contam com esgoto. No Rio Grande do Sul, só
15%. Porto Alegre é a única região metropolitana em que a
cobertura caiu em vez de aumentar: em 1992, era 20%. Em 2006, só 10%.
O pessoal de Saneamento Básico: o Filme bem que acertou ao localizar
seu enredo do monstro da fossa na gaúcha Bento Gonçalves. Ali, só
46% têm esgoto. Na favela da Rocinha, 61%. É
dura a realidade dos filhos desta vala negra, mãe gentil.
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