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Roberto
Pompeu de Toledo
Uma história de sucesso
O
balanço do
Ano do Voluntário contribui para a idéia de que, afinal,
vai ver o Brasil está melhorando
O Brasil está melhorando? Às vezes parece que sim, outras
que não. Certas estatísticas afirmam que sim: menos mortalidade
infantil, mais crianças na escola. Certas realidades do dia-a-dia
indicam o inverso: o pátio dos milagres que se contempla a cada
esquina de maior movimento, favelas horrendas, violência. Se se
necessita de um antídoto às aflições desse
vai-e-vem, contemple-se o trabalho de pessoas como Milu Villela e Luís
Norberto Paschoal. Eles estão à frente de uma história
de sucesso que foi o transcurso, no Brasil, do Ano Internacional do Voluntário.
É um caso que dá a impressão de que a resposta é:
Sim, o Brasil está melhorando.
Milu Villela, só para situar de saída nossos personagens,
é a maior acionista do Banco Itaú. Luís Norberto
Paschoal é o superintendente de um complexo empresarial que tem
seu centro nas lojas de pneus DPaschoal. O Ano Internacional do Voluntário
foi instituído pela ONU em 1997, e marcado para 2001. A idéia
surgira em seguida ao terremoto de Kobe, no Japão, para o socorro
de cujas vítimas (assim como aconteceu de novo neste ano no atentado
de Nova York) houve amplo concurso de voluntários. O que se queria
era enfatizar, e propagar mundo afora, a utilidade do trabalho voluntário,
e não só em eventos extremos, como terremotos e enchentes
(ou atentados terroristas), mas no cotidiano da assistência aos
doentes, da educação e da ajuda aos carentes em geral.
A ONU tomou a iniciativa, mas implementá-la, organizando um programa
de ação e levantando os recursos para levá-la a cabo,
caberia a cada país. Quem se encarregaria disso no Brasil? Ninguém
se apresentava, nem governo nem entidade privada. Milu Villela deu-se
conta, numa reunião em Nova York, de que o tempo passava e o Brasil
arriscava-se a ficar de fora. "Como pode?", perguntou-se. Se ninguém
se habilitava, que deixassem com ela. Quem conhece Milu sabe que entusiasmo
é com ela. Fazer também é com ela. É preciso
lembrar que já tinha experiência no ramo, como presidente,
desde sua criação, em 1997, do Centro de Voluntariado de
São Paulo. Decidiu responsabilizar-se pelo Ano Internacional.
Milu já conhecia Luís Norberto Paschoal. Quando estava implantando
o Centro de Voluntariado de São Paulo, sua prima e colaboradora
Maria Lucia Meirelles Reis, outra importante personagem dessa história,
sugerira que entrasse em contato com ele. Paschoal, residente em Campinas,
onde nasceram ele e suas empresas, é um apóstolo das causas
da solidariedade em geral e da responsabilidade social das empresas em
particular. É algo que vem do berço. Seus pais costumavam
fazer a ceia de Natal num asilo de velhos. Entre outras iniciativas, Luís
Norberto Paschoal criou uma fundação chamada Educar, financiada
por suas próprias empresas, e deu dinamismo e consistência
à Federação das Entidades Assistenciais de Campinas,
organismo que ensina quem quer praticar a benemerência a fazê-lo
de acordo com modelos empresariais de eficiência.
Paschoal ajudou Milu a criar o Centro de Voluntariado de São Paulo
e mais estreita ainda seria a colaboração entre os dois
na hora de pôr de pé o Ano Internacional do Voluntário.
Ajudou a dar certo o fato de que os dois se complementam. Milu tem o que
se chama de "personalidade midiática". Nenhuma qualidade vale mais
na hora de catalisar esforços e conseguir adesões, bem como
de arrecadar dinheiro para a causa. Paschoal, sem prejuízo da paixão,
tem talento e formação capazes de conferir método
e profissionalismo a iniciativas que de outra forma arriscariam virar
quimeras.
O resultado da parceria dos dois, mais a ajuda de outras pessoas que não
dá para enumerar aqui, é que o Brasil foi considerado, numa
recente reunião da ONU em Genebra, um dos países onde o
Ano Internacional mais deu certo. Talvez o país onde mais
deu certo. Houve aqui ampla adesão dos meios de comunicação,
cooperação de diferentes níveis de governo, das religiões,
das empresas e, mais importante, embora complicado de ser medido, sensibilização
de muita gente para a essência do conceito de voluntariado que,
como costuma dizer Paschoal, não é pôr a mão
no bolso, e, sim, pôr a mão na massa. Não que não
existisse antes quem trabalhasse pelo voluntariado no Brasil. Um dos que
o faziam, e continuam a fazê-lo, é Stephen Kanitz, colaborador
desta revista. O Ano Internacional ofereceu no entanto ocasião
para fixar o conceito e dar-lhe dimensão inédita. As empresas,
e isso pode ser avaliado no Guia de Boa Cidadania Corporativa, suplemento
da última edição da revista Exame, nunca estiveram
tão envolvidas com a idéia.
Vai durar? É tendência que veio para ficar ou obedece a um
modismo? Lá vem de novo o tormento da dúvida. Deixemo-la
de lado. Fiquemos com o exemplo de Milu Villela e Luís Norberto
Paschoal. Eles são ambos pessoas ricas. Poderiam estar trilhando
outro padrão de conduta. Mas chegaram à conclusão
de que não basta deixar as fortunas pessoais aos filhos e netos.
Mais importante é legar-lhes um país.
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