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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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O banqueiro Henrique Meirelles
quer trocar um salário anual de
4 milhões de reais por
uma vaga na política

Claudio Rossi

Meirelles, que foi assediado pelo PMDB, PSDB e PFL: "Cheguei ao topo. Agora, preciso de um novo desafio e vai ser na política"

O BankBoston é uma potência no mercado financeiro mundial. Sétimo maior banco americano, possui ativos de 223 bilhões de dólares e 55.000 empregados espalhados em 32 países. O presidente mundial desse portento dez vezes maior que o Bradesco é o brasileiro Henrique Meirelles, 55 anos, goiano de nascimento. Meirelles está no banco há 26 anos, onde começou como gerente no Rio de Janeiro. Chegou à presidência mundial no ano passado e se tornou uma figura única no mercado. Nunca um estrangeiro havia presidido uma instituição financeira de grande porte nos Estados Unidos. Como chefão do BankBoston, ele tem uma agenda que inclui palestras nas melhores universidades americanas, contatos com presidentes de bancos centrais e autoridades do mundo todo e assinaturas de contratos da ordem de milhões e milhões de dólares. Recentemente, discutia a aquisição de uma rede de agências bancárias no Chile por 130 milhões de reais.


Raul Junior

Tápias: carreira brilhante na iniciativa privada e trombadas no governo


Nos últimos dias, Meirelles deixou por um instante o mundo global e dedicou seu tempo a um universo mais regional: a política brasileira. Na semana passada, viajou para a pequena cidade de Itumbiara, na divisa entre Goiás e Minas Gerais, onde fez uma palestra para comerciantes, agricultores e donas-de-casa sobre o Brasil e a economia mundial. O encontro foi o primeiro de uma série de compromissos programada por ele para viabilizar sua candidatura a um cargo eletivo no ano que vem. O mais provável, segundo conta, é que seja ao Senado por Goiás. Meirelles conversou com alguns amigos antes de anunciar o desejo de dar uma guinada na vida. Quem escutou sua história não entendeu nada. Por que alguém trocaria um dos empregos mais cobiçados do mundo dos negócios por uma cadeira no Congresso Nacional? Será que o ambiente de trabalho no banco não está bom? Meirelles nega. Será que seu emprego corre riscos? Meirelles nega. Será então que brigou com a mulher? Nada disso, avisa. Ele não tem mulher. Aliás, nunca se casou. O presidente do BankBoston explica que a razão da troca é de outra natureza. "Cheguei ao topo", afirma. "Preciso de um novo desafio, e vai ser na política."

É comum que homens de negócios ingressem na política após trilhar uma carreira vitoriosa na iniciativa privada. O caso mais momentoso é o do bilionário americano Michael Bloomberg, recém-eleito prefeito de Nova York. Um estudo do cientista político Rubens Figueiredo mostra que 25% dos congressistas brasileiros são empresários. Em alguns casos, a motivação não é lá muito nobre. Há aqueles em que empresários tinham uma firminha ao ingressar na vida pública e então construíram um império. Na maior parte das vezes, no entanto, a decisão é fruto do desejo de ajudar o país a progredir. É a história do banqueiro Olavo Setúbal, que deixou o Itaú para ser prefeito de São Paulo durante os anos 70, ou de Antônio Ermírio de Moraes, que se licenciou da Votorantim para disputar o governo paulista na década de 80.

Meirelles não é dono do banco. Seu perfil é semelhante ao do ex-ministro do Desenvolvimento Alcides Tápias, que construiu uma carreira notável como executivo do Bradesco e então presidiu a Camargo Corrêa. Nesse caso, a experiência em Brasília não foi bem-sucedida. "A lógica empresarial é diferente da lógica do governo", afirma o ex-ministro, que depois de cumprir uma quarentena volta ao mercado como sócio de uma consultoria. Meirelles ainda não sabe se vai licenciar-se do banco caso decida realmente disputar a eleição. Segundo seu contrato, o emprego está garantido até 2003, bem como seu salário de 4 milhões de reais por ano, sem contar os bônus. O dinheiro lhe permite uma vida confortável. Ele tem casas nos bairros mais chiques de São Paulo, Rio de Janeiro, Boston e Nova York. Em Nova York, é dono de um apartamento de 400 metros quadrados na Quinta Avenida, com vista de 360 graus para a cidade, coisa de 10 milhões de reais, segundo o mercado.

A decisão de Meirelles de entrar para a política mobilizou os três maiores partidos do Brasil. O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, preparou um jantar com caciques do PFL para convidá-lo a ingressar na legenda. O PMDB também ofereceu um lugar ao banqueiro. O PSDB garantiu a ele vaga para disputar o Senado pelo Estado de Goiás. Essa generosidade dos partidos em relação aos candidatos ocorre quando o interessado em participar do processo eleitoral possui uma entre duas características: um potencial eleitoral forte, como tem os apresentadores Ratinho ou Faustão, ou uma boa reserva de verdinhas para sustentar a campanha. Nesse campo, Meirelles diz que tem dinheiro suficiente para bancar a campanha com recursos próprios. Até o momento, antes mesmo de tomar qualquer decisão final, já gastou 190.000 reais em pesquisas eleitorais e planeja gastar outros 300.000. "Ele é um fenômeno", diz o governador de Goiás, Marconi Perillo, que tem ciceroneado Meirelles nas incursões pelo Estado.

 
 
   
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